BaixaCultura no RS: um relato

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vista interna do prédio da cesma
vista interna do prédio da cesma

Dizem alguns que quanto mais próximo do evento presenciado melhor é o relato sobre o mesmo evento. O pouco tempo para a digestão daquilo que se vê edita naturalmente o que de melhor deve ser dito; saem os excessos contextualizadores e narrativos e sobra a primeira impressão, limpinha,  sem reedições, pedindo para sair e fixar-se em seja qual for o suporte.

Dizia Borges que a memória é inventiva, e por medo de uma possível iniciativa ficcionista por demais da minha memória é que pensei em relatar o Seminário Estadual para a Auto-Sustentatabilidade Cineclubista o quanto antes possível, o que significava escrever um post aqui pro BC na mesma sexta-feira que aconteceu o evento ou talvez no dia seguinte. Mas só hoje, segunda, foi possível escrever, então desculpe possíveis invencionices e bora lá.

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O seminário começou já pela manhã, com um debate sobre distribuição de conteúdo para cineclubes. Quem falou foi Luís Alberto Cassol, figura das mais conhecidas na cidade e que, dentre outras funções, é Vice-presidente do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros e editor do blog Filmes de Junho, e Eduardo Ades, representante carioca da Associação Cultural Tela Brasilis.

À tarde participei da mesa que teve o nome oficial de “Direito Autoral & Constituição de Redes”. Gilvan Dockhorn e Antônio Martins falaram cada um por mais ou menos quarenta minutos, que eu deveria ter cronometrado, já que nesse momento era a minha função. Ambos são ótimos oradores, sabem como se expressar muito bem com palavras, como sabiamente comentou depois do evento Paulo Henrique Teixeira, assessor da Cesma e que, junto com Francelle Cocco, me convidou para o evento.

Gilvan, que além de cineclubista é professor de história, tratou de fazer primeiramente um balanço da história do copyright e do direito autoral, parecido com que Edson fez aqui no BC. Fez depois a necessária distinção entre bens culturais e mercadorias: ao baixar uma música sem o consentimento do detentor do direito autoral da mesma, está se obtendo um bem cultural, e não uma mercadoria que possui um “dono”  a lucrar com esta. Como na própria constituição brasileira se fala em “garantir a todos os acesso à cultura”, nada mais normal que a internet possibilite, com os downloads e tudo o mais, justamente o acesso à cultura para toda a população.

(Não é tão simples essa discussão, mas em outro momento que não aqui cabe complexificá-la)

Depois, passou para relacioná-los com os cineclubes, dizendo que tem muita coisa sendo produzida no Brasil, mas há dificuldades de distribuição desses produtos,  que daí a importância dos cineclubes e de uma formação de profissionais cineclubistas.

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Antonio, yo e Gilvan
Antonio, yo e Gilvan

Antônio Martins, que trabalhava até ano passado como editor da versão web do Le Monde Diplomatique e também faz parte do blog Trezentos, falou logo depois de Gilvan. Com calma e didatismo, tratou de resumir a questão do novo paradigma cultural/social/intelectual/econômico que a internet está possiblitando.

“A cultura e a comunicação de massa são paradigmas associados à modernidade e estão em crise, assim como estão em crise também as formas políticas de representação”.

Martins fala que a web possibilita uma troca (e uma circulação) de produtos culturais nunca antes vista. Da invenção da imprensa no século XIV aos meios de comunicação em massa do século XX,  boa parte (para não dizer TODA) dos bens culturais que tinhamos acesso eram aqueles que  eram selecionados pelos que tinham o controle das formas de  produção e distribuição desses bens – em suma, de quem detinha o $$. Na medida que, com a internet, tudo isso barateia, e, portanto, passa a poder ser produzido e distribuído por qualquer um, nós podemos selecionar àquela cultura que vamor ter acesso. As proporções dessa TREMENDA mudança ainda estão sendo sentidas – e, também, tentando ser entendidas, o que ainda não se concretizou e nem se sabe quando vai se concretizar.

Como jornalista que é, Antônio também falou de sua profissão. Disse que é preciso políticas públicas, como Internet banda larga para todos, para que a população possa ter condições de veícular a sua versão dos fatos e, desta forma, criar alternativas à mídia tradicional. Uma ideia interessante apontada seria a de remunerar, com recursos públicos, as  pessoas que estão produzindo comunicação não mercantilizada – ou que não é produzida em larguíssima escala. Editais de concursos para rede de blogs, criação de programas de formação, oficinas, prêmios, estímulos a formação de redes de blogs sobre difusão do cinema, dentre outras, são ideias que Martins acredita que possam mudar este sistema mercantil dos bens culturais.

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Entrada da cesma
Entrada da cesma

Para encerrar o debate, foi dado chance às perguntas. Que de início não vieram, talvez por acanhamento da platéia. Mas com a intervenção do já citado Cassol, foi dada novamente à palavra aos participantes – e aí me incluíram para falar, pois alguém na platéia (que agora não lembro) falou que “o mediador podia falar um pouco do Baixacultura, que é uma iniciativa bastante interessante no que diz respeito à estes temas“.  Foi bom de ouvir a lembrança ao nosso trabalho. Mas então tive de falar, com nada preparado, uma torrente de pensamentos não conclusos sobre cultura livre, direito autoral, cibercultura, jornalismo… mostraram até mesmo o blog no telão, o que foi legal.

Pelo menos a minha fala serviu (um pouco) de estímulo a platéia, que aí resolveu fazer perguntas aos participantes da mesa, que responderam até quase 17h, quando o coffe-break se tornou mais estimulante do que qualquer outro ponto para se discutir.

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Free-Culture

Tinha pensado em, ao final do debate, indicar dois livros que poderiam ser usados para quem quisesse entender um pouco mais dos assuntos discutidos. Pensei e até escrevi, mas acabei esquecendo. Então aí vai: o primeiro é Além das Redes de Colaboração, organizado por Nelson de Luca Pretto e Sérgio Amadeu e editado pela UFBA (e que está disponível em PDF). O livro conta com textos de muita gente importante no mundo da cibercultura, das artes e do cinema,  e é fruto de um seminário com o mesmo nome realizado em Porto Alegre, em 2007. A apresentação, a cargo do cineasta gaúcho Jorge Furtado, dá o tom da coisa:

“Ao mesmo tempo que devora, digere e recria o telefone, o cinema, a televisão, os correios, o rádio e a indústria fonográfica, a internet se aproxima do sonho de Borges de uma biblioteca infinita, onde o saber humano está disponível ao alcance de um toque. O que fazer com tão imenso poder é a pergunta que definirá o nosso futuro. Esse livro é uma boa contribuição para o debate”.

Outro livro que ia indicar é o Cultura Livre, do Lawrence Lessig, que também tá disponível em PDF – se quiser ler no original, tem em inglês também. Cultura Livre é um dos mais indispensáveis livros para entender o que significa a tal da cultura livre, e Lessig é um dos que melhor fala (por ser simples sem ser simplório) sobre o assunto.

Outra sugestão, aí mais no âmbito da academia e da cibercultura, é o blog de André Lemos, dos mais destacados pesquisadores brasileiros da área, professor associado na UFBA. Em especial, destaco esse texto sobre Cibercultura Remix, apresentado no Seminário Sentidos e Processos, realizado no espaço do Itaú Cultural em agosto de 2005.

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Agradeço à Silvana, que fez um post bem informativo sobre o evento e “me lembrou” de algumas falas dos debatedores. As aspas que usei dos entrevistados foram tiradas do blog dela, que é uma ótima referência para acompanhar o que anda acontencendo em Santa Maria. É dela também a  única foto do evento desse post. Agradeço também a Francelle pelo convite para participar do seminário e por quebrar um galho tremendo depois do debate.

[Leonardo Foletto.]

  1. Leonardo. É muito bom ler teus textos. Teu relato ficou mais interessante que o próprio evento, hehe. Muito legal os links dos livros. Parabéns pelo blog e obrigada pela referência.
    Beijo

  2. Valeu Silvana!

    mas o evento foi bom, né? trouxe algumas ideias interessantes pra mim, que provavelmente me serão usadas até na dissertação. uma pena foi o público, que não compareceu em graaaande número. mas isso já é normal por santa maria, não?

    Leonardo

  3. leonardo, muito bom o teu relato. ele contribui para que continuemos refletindo sobre os temas e idéias apresentadas na sexta-feira. lembro ainda que a última mesa também foi bastante interessante e nos permitiu fazer algumas provocações ao produtor cultural e hoje funcionário da secretaria de cultura do município, josias ribeiro, sobre o sitema lic/sm e outras questões relacionadas. e muito provavelmente teremos um novo seminário para tratar de demandas locais em conjunto com a secretaria e outros agentes. aproveito para agradecer novamente tua participação e discernimento sobre as coisas que acontecem por aqui.

  4. Leonardo! Eu não disse que o evento foi ruim; estive lá e gostei bastante da fala do Gilvan e do Antonio, tanto que postei um texto sobre o assunto no meu blog. Só não fiquei na Mesa sobre a LIC porque não é um assunto que me interessa diretamente.
    Paulo, há muitas pessoas em Santa Maria com discernimento sobre as coisas que estão acontecendo, inclusive, contribuindo com a reflexão sobre temas e idéias colocadas no seminário.

  5. Muito interessante o post. Inclusive as citações.

    Deveriam existir mais seminários sobre esses assuntos em Santa Maria. E melhores divulgados, também, como com quase tudo que acontece quando se fala de cultura na cidade.
    E devia ter mais debates sobre isso nas escolas também, já que o jovem estudante também tem vínculo e interfere e interage, de certa forma, no mundo da cibercultura. Pode não ser o principal mediador, por não ter a experiência e o conhecimento, mas qualquer um, em algum momento, acaba sendo personagem dessa grande e polêmica, porém valiosa rede.
    O jovem precisa entender como isso tudo funciona, o objetivo e suas bases, se não sua reação com o meio pode ser prejudicial, ou, interferir de modo inapropriado. E também vem a questão de como usufruir dessa cultura, e o que é realmente importante e certeiro buscar na rede.

  6. Silvana, nem eu disse que tu achou o evento ruim hehe.
    Não fiquei no debate sobre a LIC pelo mesmo teu motivo, mas imagino que tenha sido bem interessante, como o Paulo comentou. Só o fato de estar discutindo isso em seminários como esses j[a é digno de nota.

    Camille, obrigado pelo comentário. É muito boa tua colocação também por ser uma perspectiva que nós não estamos acostumados a ouvir. Acho que há um certo menosprezo em não levar esses assuntos (cultura livre, cibercultura) à escola, porque pressupõe que o jovem não consiga entender, quando ele é aquele que mais está vivenciando estas transformações e sabe muito mais sobre o assunto do que nós (velhos) imaginamos. Por outro lado, acho que para o assunto chegar nos “bancos escolares” há uma necessidade de contextualização do assunto que não são poucos os que sabem fazer – e dentre esses poucos raramente se encontram os professores, que em muitos casos fazem parte de um sistema viciado de ensino onde não há espaço para assuntos novos e tão profundamente transformadores quanto esses.
    Mas enfim. É uma discussão interessantíssima em se levar adiante em outro tópico. Obrigado por lembrar disso, Camille.

  7. Exatamente.
    O que se vê hoje nas escolas é uma preocupação exarcebada em “preparar” o aluno aos concursos das universidades, públicas e particulares. Não se vê mais aquela preocupação em manter informação para o dinamismo, para a atualização que faz bem, e que traz prazer e lazer, também. O que se vê é a tendência de relacionar tudo que aprendemos como uma obrigação, como um dever, como um “degrau” que devemos passar antes de poder entrar na universidade. Depois ainda reclamam que jovens não se interessam em leitura [o que já é uma realidade diferente, onde pesquisas mostraram que o jovem de hoje lê mais]. O problema é que, com isso tudo, cria-se uma pressão psicológica muito forte ao jovem, que acaba depois se desinteressando. Mas se projetos simples, que envolvessem cultura livre e assuntos de interesse do jovem, mesmo que “extracurricular”, o resultado seria diferente.

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