Diálogos Abertos #4: internet livre e segura

 

A quarta edição do Diálogos Abertos, nosso “programa” de debates mensal que realizamos em parceria com a Casa da Cultura Digital Porto Alegre, discutiu, neste último sábado, a busca por uma internet livre e segura para tod@s. É possível?

Nos reunimos na sede da Amigos da Terra Brasil, núcleo brasileiro de uma organização internacional dedicada à proteção do meio ambiente e à promoção do desenvolvimento com sustentabilidade e justiça social, co-organizadora desta edição ao lado de integrantes da Marcha Mundial das Mulheres, que luta pelos direitos reprodutivos das mulheres.

Participaram da conversa integrantes do BaixaCultura, CCD POA, Amigos da Terra, Marcha Mundial das Mulheres e outras organizações e projetos, como a EITCHA, Escola Itinerante de Tecnologia Cidadã Hacker. Falamos sobre a garantia de direitos como a privacidade, a liberdade de expressão, o acesso à informação, a participação social e o direito à manifestação, nos contextos do Marco Civil da Internet e da Lei Geral da Proteção de Dados, e sobre formas de defesa – ou que pelo menos dificultem – a vigilância na rede por governos e grandes empresas.

Os slides guia da apresentação de algumas ferramentas, criada por Fabrício Solagna, está aqui. Também tem uma apresentação de Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, usada em sala de aula (PUCRS) sobre privacidade e antivigilância.

Algumas das ferramentas mostradas no Diálogos estão listadas aqui abaixo:

_ TOR, navegador anônimo da web;
_ Checa se o servidor do email é seguro, StarTTLS;
_ Algumas excelentes extensões para tornar seu navegador Firefox mais seguro;
_ Safer Nudes, guia para mandar seus nudes de maneira segura, produzido pela Coding Rights;
_ Fuzzyfyme, extensão para firefox e Chrome que ajuda a impedir anúncios direcionados no Facebook;
_ Safer Manas, dicas de segurança digital em GIFS;
_ MailVelope, plugin para criptografar seu email (Gmail, Yahoo, Hotmail e vários outros);
_ Você na Mira, extensão (Firefox e Chrome) que ajuda a saber qual “caixinha” você é direcionado nos anúncios políticos do Facebook;
_ Alternativas aos serviços do Google;
_ Clue, aplicativo menstrual com uma boa política de dados pessoais;

E o vídeo do evento, na íntegra (3h de duração):

 

Descentralizar e voltar ao diálogo: Journal de Nodo Común

No último post publicamos um texto sobre como o velho & bom RSS pode ajudar a fugir dos algoritmos das redes sociais.  Hoje mostramos uma alternativa que já está sendo feita com o objetivo de descentralizar a comunicação das redes sociais: o Journal do Nodo Común.

O Journal é um aplicativo para android que agrega uma seleção de RSS de diversos sites e projetos latino-americanos que trabalham com a cultura livre, o software livre, a tecnopolítica, os direitos digitais e o ciberfeminismo. Criado pelo Nodo Común, uma rede & projeto de cultura livre baseada na América Latina, ele traz, numa interface simples, os posts de cada um dos projetos (são mais de 30) na ordem cronológica em que ele são postados. É possível também ver todas as publicações de cada um dos selecionados no feed.

A novidade é que agora, além dos projetos da latino-américa em espanhol, também temos alguns em português. Já vinhamos faz algum tempo trabalhando na ideia de organizar uma seleção de feeds na nossa temática em ptbr, à convite de Dani Cotillas, de Nodo. Agora começamos de fato, por enquanto com poucos feeds, mas a ideia é que nas próximas semanas sejam incorporados muito mais que estamos selecionando novos projetos não ligados à grandes grupos e instituições para constar no feed também. Se vcs tiverem sugestões, aceitamos também!

Procurem pelo app na Play Store e fiquem sabendo: Journal Nodo Común.

RSS para fugir dos algoritmos das redes sociais

Victor Wolffenbüttel chegou até nós pelo caminho mais tradicional na internet: o e-mail. Nos escreveu para elogiar o trabalho aqui realizado e indicar um texto, de sua própria autoria, sobre o RSS, essa eficiente forma de organizar informação na rede infelizmente esquecida nestes tempos de redes sociais. O texto em questão, publicado aqui abaixo, faz um amplo panorama da história e da praticidade do RSS. É quase um artigo de arqueologia da mídia, pois descreve tanto a história do RSS quanto seu funcionamento técnico de forma simples, mas sem ser simplista. Mas além de descrever a técnica e apontar o lado subversivo de se usar RSS hoje em dia, ele também aponta caminhos, como um tutorial, para você mesmo construir seu próprio feed sem passar por algoritmos cada vez menos transparentes como as das redes sociais.

É a primeira colaboração de Victor aqui no BaixaCultura. Ele é estudante de Administração e mora em Novo Hamburgo, uma das maiores cidades da região metropolitana de Porto Alegre. Escreve sobre tecnologia e cultura, criador e editor da newsletter literária Quasar. Bem-vindo, Victor!

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Como e por que utilizar RSS

UMA FERRAMENTA PARA FUGIR DOS ALGORITMOS DAS REDES SOCIAIS

Em março de 2017, o criador da internet, Tim Berners-Lee, publicou um texto no jornal inglês The Guardian referente ao aniversário de 28 anos do protocolo web inventado por ele, o World Wide Web, principal forma de utilizar a internet até hoje — e que a maioria de nós, usuários comuns, tratamos como “a” internet. No seu texto, Barnes-Lee é sucinto: ele está preocupado com três coisas na rede moderna. Não há declarações de amor ou histórias de superação brega no seu artigo. A internet está com problemas, e precisa de respostas. Os três desafios na rede atual, segundo ele, são: como o usuário perdeu controle de seus próprios dados pessoais; como é fácil para informações falsas se espalharem na web; e a falta de transparência na propaganda política.

Eu poderia traduzir todo o texto numa tacada só, mas vou me conter e utilizar apenas um parágrafo de referência para onde quero chegar. Sobre a desinformação na web, o criador da coisa toda diz (tradução livre):

“Hoje, a maioria das pessoas encontram notícias e informações na web através de algumas redes sociais e buscadores. Esses sites faturam mais quando clicamos nos links que nos mostram, e eles escolhem o que nos mostrar através de algoritmos que aprendem com nossas informações pessoais, as quais eles coletam constantemente. O resultado é que esses sites nos mostram conteúdo que acham que nós vamos clicar — ou seja, desinformação e notícias falsas, as quais são surpreendentes, chocantes ou feitas para atrair nosso interesse, podem se propagar como um incêndio.”

A preocupação de Tim Bernes-Lee quanto a desinformação e aos algoritmos das redes sociais não é nova, e tem sido amplamente divulgada. O processo de adquirir informações está passando por alterações que afetam profundamente o jornalismo e a mídia como um todo. Na verdade, o jornalismo vem sofrendo mudanças drásticas e questionamentos sobre seu modelo de negócios. Dentro dessa preocupação geral e do cenário caótico, escrevo para propor uma ajuda ao usuário.

A INTERNET ATRAVÉS DO TEMPO

Nesses vinte e oito anos de existência da internet, muitos hábitos e muitas ferramentas já foram tendência, e os usuários mais antigos devem lembrar de uma tonelada desses. Para o brasileiro que estava lá quando tudo começou por aqui, aquele que usava internet discada durante a madrugada porque era de graça e acordava todo mundo em casa porque o barulho do modem era insano, podemos citar o Netscape, Cadê e o ICQ como ferramentas comuns. Depois, se estabeleceram Google, Orkut, Youtube, Kazaa, MSN, Fotolog, MySpace, Blogger, WordPress, os portais Uol e Terra, por exemplo. Hoje, nossas ferramentas, chamadas “aplicativos”, são Facebook, Twitter, Instagram, Whatsapp, Telegram, Snapchat, Tumblr, Medium, Netflix.

(É claro que essa linha do tempo de sites e serviços não ficou extremamente precisa, cada usuário conheceu alguma ferramenta a algum tempo, e podem haver questionamentos — um amigo meu ainda usa o ICQ no seu ambiente profissional, por exemplo. É claro que também esqueci um monte de outras saudosas aplicações, mas isso não vem ao caso.)

A tendência gritante entre os serviços citados é a transformação do acesso: o computador vem sendo abandonado. O navegador utilizado, seja ele o Firefox, Chrome, Opera ou Safari, não é mais necessário para acessar nenhum dos aplicativos listados por último. O abandono do desktop e dos browsers aponta para uma das novas tendências da internet: o cercamento do usuário. Tirando aquelas pessoas que trabalham na frente do computador e tem tempo livre para surfar na web e pesquisar páginas à vontade, quantos hoje em dia têm uma lista de sites favoritos? O usuário tem acessado suas informações pelos mesmos aplicativos e redes sociais. Se você não tem o aplicativo da Folha ou do Globo ou de qualquer outro grande jornal no celular, eu duvido que se informe por outro meio que não o Twitter ou Facebook. E a sua visão das notícias está condicionada a um algoritmo muito mais poderoso que a antiga disposição das informações nos cadernos dos jornais.

PÓS-INTRODUÇÃO: REDESCOBRINDO UMA FERRAMENTA

A partir desse ponto, eu poderia começar a direcionar o texto para qualquer um dos aspectos mencionados por Tim Bernes-Lee no seu parabéns-alerta de aniversário, os quais indicam uma internet prejudicada e prejudicial para o usuário comum: compartilhamento involuntário dos dados pessoais e privados; alienamento do usuário através de algoritmos que podem simplesmente apagar um assunto ou uma pessoa da sua vida; centralização da forma de obter informação; propaganda política disfarçada de informação; etc., etc. Mas o meu interesse nesse assunto todo é apresentar uma ferramenta (spoilers estão no título do texto), e fazer o leitor entender porque ela pode ser útil nesse mundo preocupante em que estamos. Quando eu digo preocupante, quero dizer, capaz de fazer um magnata sem nenhum preparo, intolerante e conservador ser eleito presidente do país mais poderoso do mundo.

O uso dessa ferramenta ajuda a evitar que casos como o de Myamar, um país asiático que mudou de um regime ditatorial para uma democracia há poucos anos, se tornem cada vez mais comuns. O Buzzfeed News fez uma matéria impressionante mostrando a inclusão digital do povo do pequeno país. Essa inclusão — feita através do acesso total da internet de uma hora pra outra — é integralmente baseada no Facebook (alguns usuários acreditam que “internet” e “Facebook” são a mesma coisa, deixando de aproveitar a vastidão de conteúdo online), e os novos hábitos virtuais da população têm aumentado a intolerância religiosa do país.

Não estou me referindo a um produto de uma nova startup que vai salvar o mundo. Não é um app que você baixa e milagrosamente muda a rotina da sua vida. É um recurso que está disponível na internet há muito tempo e que nunca foi muito popular, mas que se mostra poderosíssimo num mundo de algoritmos pré-definidos com critérios secretos de exibição de resultados. Do que eu estou falando? Do RSS. Às vezes chamado de feed, ou feed RSS, ou Atom, etc.

EM TERMOS TÉCNICOS E PRÁTICOS: O QUE É RSS

RSS é uma sindicação web. Sindicação é um termo oriundo da televisão, e uma prática muito comum em países como os Estados Unidos, onde canais de TV locais compram e vendem programas para exibição ao vivo e/ou gravada de outros canais em outras localidades. Qualquer ferramenta de sindicação web, então, seria uma adaptação disso: um meio de reproduzir o conteúdo lançado por um site através de outro site ou outro programa, enfim. A sigla RSS significa Really Simple Syndication, ou seja, “Sindicação Realmente Simples”.

Muitos desenvolvedores trabalharam nessa ferramenta desde seu surgimento. Ela começou por iniciativa de alguns técnicos do falecido navegador Netscape, que lançaram a versão 0.9. Depois que o browser foi comprado pela AOL, o projeto foi deixado de lado, mas outros programadores continuaram aprimorando a sindicação, até ela chegar na versão 2.0 em 2005, na qual se mantém até hoje. A história do RSS é cheia de personagens e conflitos por direitos autorais. Por ter sido um trabalho abraçado pela web e desenvolvido abertamente durante algum tempo, os técnicos da Netscape tiveram problemas quando quiseram registrá-lo como propriedade intelectual, especialmente depois de ter abandonado a ideia na versão 0.9.

(Para quem quiser ler toda a história, está disponível na Wikipédia em português.)

Em termos de programação, o RSS é o que e os programadores chamam de “dialeto” dentro da linguagem XML (eXtensible Markup Language), a qual é utilizada para vários fins de organização de páginas. Olhando um arquivo XML puro, ele parece com HTML, exceto que podem ser criados novos dialetos e cada dialeto pode possuir diversas tags — daí o “eXtensível” no nome. RSS é então um arquivo em linguagem XML que é disponibilizado e atualizado automaticamente pelo site que o gera. Ele está disponível na maioria dos sites como uma página própria, a qual é facilmente acessível através do famosos ícone do RSS:

Você certamente já viu esse símbolo antes por aí

Resumindo tecnicidades em termos simples, RSS é um arquivo que se atualiza sempre que o site atualiza também. Qual o interesse nisso? Arquivos em linguagem XML não foram feitos para serem consumidos diretamente por humanos, mas sim interpretados por outras aplicações que então disponibilizam a versão final para as pessoas. O RSS se torna realmente interessante quando utilizado junto aos chamados leitores ou agregadores.

Como parecia o agregador mais famoso de todos, o Google Reader, antes dele ser extinto

Através dos agregadores, o usuário pode se inscrever nos seus sites favoritos e acompanhá-los diretamente pelo leitor de feeds. Todas as atualizações aparecerão lá diariamente e o usuário não precisa visitar a homepage. A princípio, pode parecer pouco interessante para quem acessa a homepage de apenas um site, por exemplo, o G1. Mas mesmo para esse usuário, é melhor utilizar o leitor de feed, pois não agride visualmente, não distorce as manchetes, e não tem publicidade. Texto puro, organizado para leitura no agregador, separado em postagens, classificados apenas em “lidos” ou “não lidos”.

O RSS se torna realmente interessante para quem gosta de acompanhar mais de uma página na web. Ele te dá o poder de concentrar todos os sites em só um e poder decidir se quer ler certo texto ou não, de forma simples!! Todo o conteúdo é listado verticalmente, tornando-se uma questão de escolha intelectual pura do leitor. Apesar de absurdamente simples, vou descrever um pequeno tutorial para começar a utilizar um agregador RSS e como adicionar os feeds.

UTILIZANDO RSS: INTRODUÇÃO AOS AGREGADORES

Basicamente, o que deve ser feito é baixar ou criar uma conta online em algum agregador de RSS. Existem centenas pela internet. Antigamente, essa função era praticamente monopolizada pelo Google Reader, um dos melhores leitores de feed que já houve, especialmente pela sua função social de compartilhar os textos lidos com outros usuários através de um verdadeiro Facebook de textos. Porém, o Google Reader foi descontinuado pelo Google devido à baixa popularidade (a quantidade de produtos do Google que foram abandonados por popularidade, independente de quão boa a ideia era, assusta).

Um dos agregadores mais populares hoje em dia é o feedly, o qual adicionou uma penca de funções nos últimos anos, as quais, pra mim, só afastaram o usuário comum. Logo que o Reader acabou, eu tentei utilizá-lo, mas a bagunça visual me fez desistir. Outro feed conhecido é o The Old Reader, o qual se propõe a ser exatamente igual ao antigo Google Reader (o nome diz tudo), mas, pelo menos nas vezes em que tentei usar, pareceu extremamente instável e lento. Atualmente, utilizo o Digg Reader — depois de muitas tentativas com softwares baixados ou clientes de email (sim, é possível ler feeds de sites usando o Outlook, por exemplo). Não lembro como descobri que o Digg tinha um agregador, mas é esse que recomendo, por estar utilizando a mais tempo — mais tempo até do que usei o Google Reader. O aplicativo para celular também é muito simples, e permite leituras agradáveis dentro do possível (ler no celular nunca vai ser agradável). É possível se inscrever usando email ou alguma conta já registrada no Google, Facebook ou Twitter.

O Digg Reader é a minha recomendação pessoal, mas existem outros milhões de agregadores por aí. Como dito antes, é possível ler os feeds RSS até mesmo no cliente de email, o que vem bem a calhar quando se é usuário de um desses softwares, como Thunderbird ou Outlook. A configuração pode demorar um pouco mais, mas não é nenhum bicho de sete cabeças.

UTILIZANDO RSS: CATANDO OS LINKS PARA FEEDS 

Baixado o software ou inscrito no site, a segunda etapa é procurar o feed dos seus sites favoritos. Provavelmente, o famoso botão de RSS vai estar bem no alto ou bem embaixo do site, junto com os ícones de Facebook, Twitter e etc. Clique nesse botão, ele vai te direcionar para a página do arquivo XML. Copie o link da URL. Geralmente, ele se parece com http://[site].com/feed ou http://[site].com/rss ou algo do tipo, mas isso não é uma regra. Entre no seu agregador favorito e vá em alguma coisa parecida com “adicionar feed RSS” ou “inscrever-se em RSS” e cole o link lá. Pronto, você já está inscrito. A partir de agora, sempre que o site atualizar, o feed vai automaticamente carregar o texto no seu agregador. Ele estará disponível exatamente como no site, sem precisar sair do leitor.

Em alguns agregadores, está incorporado uma ferramenta de pesquisa de feeds, o que é ótimo, porque aí você não precisa procurar o link no site. Só digite o nome do site na busca, e ele vai providenciar o feed. O que pode acontecer é o site não possuir RSS. O G1, por exemplo, não tem. Nesse caso, recomendo começar a ler outro site, porque esse não está conforme os bons hábitos da internet, o que me leva a outro ponto: o feed não é só uma ferramenta qualquer, ele é histórico para a web.

O RSS ESTÁ POR TODA A INTERNET SÓ VOCÊ NÃO VIU

Antigamente, redes sociais como Twitter e Facebook geravam RSS para cada um dos perfis na rede. Era excelente, porque você poderia seguir as pessoas que você gostava sem nem mesmo possuir conta na rede social. Se adicionasse o link no seu agregador, todos os tuítes da pessoa apareceriam como atualizações, por exemplo. A função foi descontinuada pelas grandes redes. Hoje em dia, existem sites, como Queryfeed, que substituem a função nativa e geram os feeds de perfis. Um excelente incentivo para abandonar as redes e continuar acompanhando as páginas de interesse. Sites de torrent como Pirate Bay disponibilizam o link de RSS de todo o site, o que leva a uma prática interessante para os usuários: baixar automaticamente arquivos a partir do momento em que o feed atualiza com seus links magnéticos. Você pode se inscrever no link da sua série favorita e baixar os episódios assim que foram disponibilizados, por exemplo. Os clientes de torrent possuem agregadores de feed que são utilizados especificamente para essa prática, conhecida como Broadcatching.

Por fim, o melhor exemplo do poder do RSS na internet e da sua influência na história da redes são os podcasts. O conceito de podcast é exclusivamente baseado no uso de RSS para disponibilizar um arquivo de áudio baixável. Os podcasts feitos em site de streaming como Youtube e Soundcloud se proliferaram nos últimos anos, mas nenhum deles, se fosse catalogado, seria um podcast segundo o conceito original. Conforme definido pelo escritor Warren Ellis em sua newsletter [tradução livre], “Um podcast é um arquivo de áudio que um programa de podcasts pode capturar e baixar para um dispositivo. Um arquivo no Mixcloud ou Soundcloud não é um podcast”. É claro que o conceito original pouco importa para o sucesso desses programas, e até acredito que quem está fazendo audioblogs no Youtube hoje deve ter mais sucesso do que a maioria de podcasts perdidos em blogs, buscando alguns assinantes no seu feed que é baixado por aplicativos de celular. A importância da definição de podcast, nesse caso, é mais histórica que tecnológica: em 2004, não existia streaming, e o download automático do seu programa favorito era como a assinatura do seu jornal ou revista favoritas, que chegavam — esse verbo cada vez mais no passado — direto na sua casa.

O RSS É POLÍTICO

Sei que citar exemplos de torrent (uma tecnologia que, apesar de revolucionária, tem sido deixada de lado pela comodidade do streaming) e podcasts (um tipo de conteúdo que sempre foi marginal, com poucos exemplos de verdadeiro sucesso) pode parecer pouco mercadológico para o produto que estou tentando vender — e hoje em dia tudo tem que ser observado dentro de uma perspectiva do marketing. Mas não peço desculpas, porque a lógica é contrária: antes da internet, a criação de conteúdo e a informação eram amplamente monopolizadas. O interesse das massas era facilmente direcionado conforme o conteúdo exposto pela mídia através dos meios de comunicação. Com o surgimento da rede, abriu-se o espaço necessário para buscar novas fontes de informação, controle pessoal do que se consome e liberdade de pensamento. O relato mais preciso sobre a transformação da web foi feita pelo documentarista Adam Curtis no seu filme mais recente, HyperNormalisation [tradução livre]:

A internet atraiu as pessoas porque era hipnotizante. Era um lugar onde você poderia explorar e se perder da forma que quisesse. Mas através da tela, como num espelho de duas vias, agentes estavam te assistindo e prevendo e guiando a sua mão no mouse. […] Com o aumento na quantidade de dados obtidos pelos sistemas online, novas formas de controle começaram a surgir. As redes sociais criaram filtros, algoritmos complexos que observavam o que o indivíduo gostava, e os servia com mais disso. No processo, usuários começaram a ser atraídos, sem notar, para bolhas que os isolavam de enormes quantidades de outras informações. Eles só viam e ouviam o que gostavam. E o feed de notícias, cada vez mais, excluía qualquer coisa que poderia mudar seu ponto de vista pré-existente.

O controle vem sendo retomado por grandes grupos. Em um celular de usuário comum, o sistema operacional, o navegador, o buscador e o canal de vídeos (para dizer o mínimo) são todos da mesma empresa, o Google. Além disso, o Whatsapp, o Facebook, o Instagram e o Messenger são todos também da mesma empresa. Por isso, o uso de RSS, apesar de parecer datado, é essencial retomarmos as rédeas do consumo de informação, descentralizar e desalgoritmizar nossa internet. A comodidade tem nos levado para o mesmo lugar em que estávamos antes, mas o grande ponto da rede é não ser cômoda: é aproveitar a oferta máxima de conteúdo que pode existir para fazer o que você quer, e não deixar que algumas empresas te indiquem o caminho.

Jornadas de ciência e tecnologia abertas no sul global

Ao longo dos quase 10 anos de BaixaCultura, sempre tivemos algumas colaborações de pessoas, próximas ou não, que se interessam pelas pautas que aqui falamos e buscam trazer para cá seus pontos de vista. Basta, por exemplo, buscar no arquivo textos do André Solnik, Luís Eduardo Tavares, da Aracele Torres, da Daiane Hemerich, entre outrxs, para ver que trazer textos e perspectivas que não somente a nossa aqui oxigena um pouco o espaço. E, também, apresenta olhares para temáticas não tao abordadas aqui não por falta de interesse, mas por questões de tempo e conhecimento do tema em questão.

É o caso desse relato aqui, escrito por Marina de Freitas, engenheira física recém formada pela UFRGS. Natural de Santo Ângelo, na região das missões, noroeste do RS, Marina se aproximou da ciência cidadã e do hardware aberto a partir de sua participação no Centro de Tecnologia da UFRGS (CTA, na foto acima; Marina é a com a guitarra vermelha), espaço muito ativo e interessante de aprendizado em tecnologias abertas localizado no Instituto de Física da universidade, no Campus do Vale, Porto Alegre quase Viamão (cidade da região metropolitana). No último FISL, em meados de julho de 2018, conversamos sobre o evento em que ela participaria em Santiago, as Jornadas Latinoamericanas de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología, e falamos sobre biohacking, hardware aberto e o que ela estava esperando encontrar no Chile. Daí saiu a vontade de escrever um relato sobre as jornadas, que cobre uma temática que, vocês vão ver, se relaciona muito com o que falamos aqui, embora não seja um tema tão frequente pela falta de conhecimento (e tempo) desse editor que aqui escreve e das pessoas mais próximas do Baixa. Quem sabe não abrimos um flanco aqui para falar mais de ciência aberta, open hardware e biohacking? Confira o relato de Marina logo abaixo.

Leonardo Foletto, editor

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O ESOCITE caiu em meus colos de surpresa. As Jornadas Latinoamericanas de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología (ESOCITE) estão na sua 12° edição e ocorrem desde 1995. Mas, para mim, uma novidade. Este ano foi sediada em Santiago do Chile, com o pertinente tema “Ciudadanías del conocimiento: nuevas formas y tensiones en el hacer y pensar la ciencia, la tecnología y la sociedad.”.

Durante os dias 18, 19 e 20 de Julho se reuniram na Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Chile pesquisadoras, ativistas, professoras e engenheiras para discutir e refletir sobre as mudanças nas arquiteturas e políticas de ciência, tecnologia e inovação, sobre as novas formas de ação cidadã e suas interpelações na ciência, sobre a nova demanda de construção de conhecimento fora das instituições tradicionais e necessidade de uma maior resposta aos aos problemas cidadãos e demandas sociais.

Foram 34 seções, com mais de 120 trabalhos apresentados, que discutiram a educação de ciência e tecnologia, a educação rural, as controvérsias tecnocientíficas, o futuro das cidades inteligentes, as ações de engenharia social e anti-hegemônica, passando pela biotecnologia, a nanotecnologia, a agroecologia, a saúde pública e o ativismo, sem excluir a história da ciência e tecnologia na América Latina, e culminando no acesso aberto e ciência aberta.

Não passou despercebido nesta história toda as marcas das Tomas Feministas, mais um elemento da Onda Feminista na América Latina. O espaço em que ocorreu a jornada, a Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Chile, esteve ocupada durante 3 meses por estudantes feministas que protestavam contra o assédio sexual na universidade e em defesa de uma educação não-sexista. Finalizadas no início de Julho, cartazes, pinturas e intervenções feministas preenchiam o espaço, impossíveis de não serem vistas. É neste clima energizante, que vivenciei esta jornada.

Que somos colônias, sabemos, mas me chamou atenção a fala da pesquisadora Lea Velho, na abertura do evento. Nos contou – como se estivéssemos todas em volta do fogo – sobre o “bem sucedido” caso de cooperação internacional da Estação Ecológica de Maracá, quando, apesar dos acordos firmados, os artigos publicados foram muito mais numerosos para os pesquisadores franceses, do que para os brasileiros. Revela como a internacionalização da produção científica da América Latina tem se resumido ao padrão colonial de exploração onde nós não fazemos parte do fazer ciência, apenas fornecemos dados. Ao contrário, gostaríamos que uma internacionalização da produção cientifica Latina levasse ao aumento na diversidade do pensar científico, contribuindo para a pluralidade de perspectivas e visões. Mas o que tem se visto é apenas uma sofisticação nos mecanismos de exploração. Sem muitas surpresas, o que não significa que não dói.

Nós, cientistas e tecnólogos, estamos sempre buscando argumentos para a pergunta “Por que ciência e tecnologia são importantes para as pessoas?”. O pesquisador Irlan Van Linsingen propôs uma sútil mudança nesta pergunta: que tal “De qual ciência e tecnologia necessitam as pessoas?”. Esta mudança de perspectiva dialoga diretamente com a descolonização da ciência e tecnologia. Enquanto produzimos o conhecimento (e os dados) que os gringos querem importar, nos motivando nas motivações deles, viramos as costas para nossa gente e para suas necessidades.

O pesquisador Mariano Fressoli conectou tudo isso a ciência cidadã através do exemplo da Rhizomática, rede telefônica comunitária de Oaxaca, México. Redes essas construídas a partir da necessidade de uma comunidade, e não da necessidade de mercado de uma empresa, ou de pesquisa de uma instituição. Redes telefônicas auto-governadas, sem fins-lucrativos, sem-besteira. A conexão, no ESOCITE, foi reforçada institucionalmente pelas duas oficinas oferecidas: Oficina Ciencia Ciudadana e Open Knowledge Map. Ambas apontando a direção que caminham os debates sobre ciência, tecnologia e sociedade.

Sumário do Gosh Roadmap

Na sessão “Acesso Aberto e Ciência Aberto”, uma surpresa: a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) possui um grupo de trabalho de ciência aberta. A FIOCRUZ é uma das grandes instituições de pesquisa em saúde do Brasil, e o fato de possuírem um grupo de trabalho de ciência aberta indica um caminho promissor no Brasil para esta ciência. Não bastando, lançaram um livro sobre Ciência Aberta e Dados Abertos, intitulado “Livro Verde – Ciência Aberta e Dados Abertos: Mapeamento e Análise de Políticas, Infraestruturas e Estratégias em Perspectiva Nacional e Internacional”. Só felicidade!

Também marcou presença nesta sessão a comunidade do Global Open Science Hardware (GOSH) [openhardware.science], representada por eu mesma. Apresentei o GOSH Roadmap, o roteiro guia da comunidade de cientistas, artistas, engenheiras e pesquisadoras que desenvolvem e usam hardware aberto para ciência. Este documento foi escrito colaborativamente pela comunidade, e traz os passos que acreditamos ser necessários para que o Open Science Hardware (Hardware Científico Aberto) esteja difundido, a nível global, até 2025. Apesar de estar numa sessão repleta de pessoas acostumadas com a ciência aberta e dados abertos, a reflexão sobre a necessidade de que os instrumentos científicos sejam também livres e abertos foi uma novidade. Uma novidade muito bem recebida e acolhida.

A importância de considerar a territorialidade tanto na educação, quanto na própria produção de ciência e tecnologia se mostraram evidentes nos trabalhos compartilhados ao longo da Jornada. As relações, diretas e indiretas, com a ciência cidadã e ciência aberta despontavam aqui e ali, permeadas de ativismo, preocupação e esperança. As Jornadas terminaram, mas fica a vontade de produzir uma ciência aberta imersa numa cultura livre.

Marina de Freitas

Fotos: 1 (CTA), 2 (twitter), 3, 4, 5 (Marina) e 6 (gosh)

Diálogos Abertos #3: Fake news

 

Dando sequência ao nosso papo tecnopolítico & cultural digital presencial e por streaming, vamos realizar a terceira edição do Diálogos Abertos sobre a onipresente e complexa questão das fake news. Já faz algum tempo que temos sido bombardeados de todos os lados com informações falsas sobre os mais variados assuntos, em especial a política e em redes como o WhatsApp e o Facebook. Esse bombardeio tem causado efeitos problemáticos para nossa vida em sociedade e, principalmente, para o sistema político tal qual conhecemos hoje, haja vista a decisiva participação de bots e agentes desinformadores nas campanhas do Brexit inglês e da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. É necessário combater essas informações falsas, sob o risco de esses efeitos se espalharem ainda mais, mas quais são as formas existentes de frear as fake news? É possível a construção de uma lei que seja razoável sobre o assunto? Como o jornalismo e as agências de checagem de fatos (“Fact checking”)podem contribuir para esse trabalho? e com que recursos farão o trabalho árduo, caro e cansativo que é o de checar a vericidade de informações?

Esse texto da Tatiana Dias publicado no Intercept Brasil levanta outras questões importantes: “as megaempresas do Vale do Silício podem investir o quanto quiserem em iniciativas de checagem de fatos – é uma boa maneira de aliviar a consciência –, mas nada muda o fato de que o coração de seus modelos de negócio é que cria um ambiente fértil para a desinformação.” Os esforços coletivos de construção de credibilidade são importantes, mas paliativos para um problema muito mais estrutural, que é o modelo de negócio da internet hoje, baseado na comercialização dos dados e na economia de atenção. O jornalismo tradicional não tem como (ou não quer) atacar esse problema com esmero porque, entre outros motivos, perdeu o poder (financeiro, estrutural, de inovação) de outrora para as grandes empresas do Vale do Silício. Então prefere se aliar a elas em iniciativas como a Comprova, um consórcio de 24 organizações jornalísticas (em sua maioria, mídias tradicionais) e, com isso, tentar resgatar sua credibilidade combalida pelos contínuos erros (ou desvios), em especial no Brasil pós-2013. Nesse caso específico, fica um acordo em que ambos saem ganhando: os principais responsáveis pela disseminação de informações falsas na rede mostram algum movimento para combater o que criaram, ainda que não atacando o principal motivo (seu próprio modelo de negócios); e o jornalismo tem uma chance para resgatar a credibilidade perdida e, num momento de escassez, angariar recursos com quem mais tem feito dinheiro hoje, justamente as gigantes do Vale do Silício.
Para o debate, teremos como convidadxs:
_ Naira Hofmeister, jornalista que já trabalhou para diversos veículos do Brasil e do exterior, premiada três vezes com o ARI de Jornalismo, o mais tradicional do Rio Grande do Sul. Especializada em grandes reportagens, vem desenvolvendo nos últimos anos matérias investigativas financiadas por leitores, como é o caso do Dossiê Cais Mauá e do Dossiê Palcos Públicos, de Porto Alegre, e é uma das jornalistas que está à frente da Filtro Fact-checking, iniciativa que vai checar informações de fatos, dados e declarações públicas com foco no Rio Grande do Sul, em campanha de financiamento coletivo no Catarse;
_ Nicholas Nether, advogado, mestre em Direito e Especialista em Direito Público pela Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP).

O debate terá a condução dos integrantes da CCD POA Janaína Spode, produtora cultural e ciberativista nas lutas pelos avanços políticos para reforçar os Direitos Humanos no mundo digital;  Fabricio Solagna, doutorando em sociologia pela UFRGS com pesquisa focada em governança da Internet e Marco Civil na Internet e que já realizou projetos de participação digital no governo do RS e na presidência da República; e Leonardo Foletto, doutor em comunicação pela UFRGS e editor desta página.

Diálogos Abertos #3 será realizado no cr1pto espaço criativo, local onde antes funcionava a lanchonete vegana Pasito, ao lado do Bar Opinião, no coração da Cidade Baixa, às 19h, em Porto Alegre. Teremos cafés, chás, mate e algumas comidinhas. Transmissão ao vivo via canal do Youtube do BaixaCultura, depois o vídeo será disponibilizado aqui. Tudo de grátis, só chegar.
Atualização 26/7:
As duas partes da conversa estão aqui abaixo, depois uma sequência de fotos do evento.

Redes livres, infraestruturas comunitárias

Instalação de uma antena da gufinet em Barcelona

No final do texto passado, “Ressaca da Internet, espírito do tempo”, fiz algumas perguntas que podem guiar a busca por uma (re) invenção da internet, cada vez mais cerceada por grandes empresas privadas (Google, Facebook, Amazon, Microsoft, Apple) e pela vigilância, tanto de agências de espionagem ligados à governos (vide NSA) como à realizada pelas mesmas empresas já mencionadas, que tem como modelo de negócios o comércio de dados. Repito aqui um dos questionamentos porque vai guiar a busca desse texto: de quais maneiras práticas os engenheiros de computação podem tornar o processamento da informação na internet mais descentralizado? Ou, visto de outro modo: quais são os jeitos de desmonopolizar o tráfego de informação nas redes? Falo aqui um pouco mais do maior gargalo: a infraestrutura.

Para você ler este texto aqui*, seja de um notebook, desktop, smartphone ou tablet, o esquema costuma ser o seguinte: você adquire (ou toma emprestado, ou aluga por um tempo determinado, caso das ainda resistentes lan houses) um dispositivo que, a partir de um componente eletrônico – uma entrada de cabo de rede, uma placa wifi, um pequeno artefato que dá acesso às redes 3G, 4G ou 5G – permite a conexão a uma rede que chamamos de internet. No caso de wifi ou cabo, você (ou a pessoa que é dona de seu computador) contrata um plano de alguma das operadoras de telefonia que fazem esse serviço; esta vai ser responsável por ligar a rede criada na sua casa à internet através de uma porta disponibilizada na sua rua, e dessa porta à uma central local, regional e assim os seus dados vão circular em cabos de fibra ótica terrestres e submarinos ao redor do mundo. Se for a partir de uma rede 3,4 ou 5G, o seu dispositivo, a partir de um microcomponente de rede instalado nele, vai acessar uma determinada frequência emitida por diversas antenas, que vai permitir o acesso à mesma internet dos cabos.  Com este aparato físico de ondas ou cabos por trás é que você vai ligar seu smartphone, notebook, desktop, abrir um navegador e digitar “https://outraspalavras.org” ou “http://baixacultura.org” e ler esse texto, ou chegar a ele através de um e-mail, ou pelas redes sociais, principalmente Twitter, Facebook e WhatsApp – ainda a opção mais comum de entrada em alguns sites.

Uma opção alternativa (ou complementar) de infraestrutura de comunicação cada vez mais popular no mundo inteiro são as chamadas redes livres, que funcionam como grandes redes sem fio abertas, montadas a partir de um grupo de roteadores conectados entre si que propagam o tráfego entre usuários e também emitem serviços em banda larga a partir de pontos conectados à internet. É comum o uso de topologia de rede em malha, ou mesh, que oferece maior estabilidade à comunicação e também facilita sua expansão a áreas mais remotas, já que sempre é possível agregar novos nós à rede. Estas redes costumam funcionar de duas maneiras: se não tem nenhum ponto conectado à internet, funcionam como grandes intranets, onde os usuários têm acesso a uma rede comunitária offline e podem se comunicar entre si da maneira que quiserem e usufruir serviços nesta rede. Se um dos pontos tem acesso a internet, então se tornam opções mais baratas de conexão à internet – o que propicia a criação de pequenos provedores comunitários estruturados, uma opção real especialmente para lugares de difícil acesso onde as operadoras de internet não veem interesse em chegar ou chegam com serviços caros e ruins.

Uma das principais referências em nível mundial é a guifi.net, na Espanha. Criada a partir de 2004, é uma rede de telecomunicação comunitária e auto-organizada que conta com mais de 35 mil nós ativos e cobre cerca de  46 mil km de conexão sem fio nas regiões da Catalunha e València, com alguns nós chegando até a fronteira com a França, Andorra e outras regiões da Espanha, como as ilhas Baleares, Madrid, Andaluzia e País Basco. Começou como uma forma de ligar locais (casas, escritórios, propriedades rurais, até edifícios públicos) da zona rural de Osona, na Catalunha, que tinham dificuldades de acessar banda larga com qualidade, e a partir daí foi se expandindo para outras regiões, com nodos conectados à internet e outros não. Para além da infraestrutura técnica de conexão, uma das razões do sucesso de guifi.net foi a organização social da rede; com a expansão surgiu uma comunidade de voluntários, pequenos provedores, empresas e coletivos de usuários que se tornaram responsáveis pela manutenção da rede e criaram um ecossistema de funcionamento que teve o reconhecimento (e em alguns casos, apoio) dos orgãos públicos locais e estaduais. Hoje, há uma fundação por trás da comunidade – Fundació Privada per a la Xarxa Oberta, Lliure i Neutral guifi·net– que trabalha com o acesso às telecomunicações como um direito humano e é, ao mesmo tempo, uma entidade de voluntariado, uma ONG e uma operadora de telecomunicações constituída legalmente.

Há diversas outras iniciativas de redes livres também nas Américas. Rhizomatica começou em 2009, no México, e hoje desenvolve alternativas em telecomunicação por vários lugares do planeta tendo como critério a autonomia comunitária, auto-organização, infraestrutura descentralizada e engajamento crítico com a tecnologia. Como conta Bia Martins no site Em Rede, o apoio da Rhizomatica foi fundamental para a construção de uma rede de rádio com software livre na região de Oaxaca, México, que atende a 17 comunidades e conta atualmente com cerca de 3 mil usuários de serviço de telefonia móvel autônoma. Na Argentina, também desde 2009 existe AlterMundi, nascida em Córdoba, no valle de Paravachasca. Sua base inicial está em La Quintana, uma comunidade de 1000 habitantes que administra a rede a partir de uma assembléia presencial. No lado intranet das rede há serviços como portal, listas de e-mails, serviços de chat, streaming de uma rádio local e um repositório digital que guarda material audiovisual produzido pela comunidade. AlterMundi também teve pontos na região de Tigre, no delta do Rio da Prata. Na Colômbia, há a NetWork Bogotá, mais recente, de 2015, e com diversos nós espalhados pela região periférica da cidade.

Reunião realizada num quilombo em Ubatuba com a Coolab para discutir a rede comunitária

No Brasil há um laboratório cooperativo, a Coolab, que desde 2016 tem instalados redes em lugares de difícil acesso no país. Ela surge como uma iniciativa que agrega diversas pessoas envolvidas com projetos de telecomunicação comunitária, muitas delas antes agrupadas no portal Redes Livres. Fazem parte da Coolab alguns integrantes antes envolvidos em projetos como a rede local (e conectada à internet) da Casa dos Meninos, zona sul de São Paulo; a Rede comunitária de Fumaça, em Resende (RJ), montada a partir de uma convocatória da Nuvem (Estação Rural de Arte e Tecnologia) na região ainda em julho de 2015;  além de provedores comunitários no município de Campos (RJ), iniciativas de transmissão de rádio digital por ondas curtas na Amazônia e de redes em Porto Alegre e Santa Maria (RS). A partir de um prêmio no Desafio Equal Rating da Mozilla como projeto mais inovador, em 2017, a Coolab recebeu 30 mil dólares para fazer uma chamada pública de locais, entidades e pessoas interessadas em instalação da rede. O resultado foram mais de 50 inscrições e instalações de, até agora, pelo menos 5 redes livres, entre elas em uma ligando quilombos e uma aldeia guarani no interior de Ubatuba; e uma em Juriti Velho, município paraense na fronteira com Amazonas.  Em cada um destes locais, o objetivo é levar internet a uma comunidade ainda sem conexão, ampliar a área de um determinado ponto de acesso, distribuir uma conexão por meio de redes sem-fio (WiFi) em malha (mesh); criação de uma rede local sem fio (Intranet via wifi) com serviços diversos – armazenamento de arquivos, publicação, comunicação, gestão e outros serviços totalmente autônomos e independentes da Internet; e instalação de rede GSM para telefones celulares realizarem localmente chamadas de voz e mensagens de texto a custo marginal zero, com possibilidade de interconexão para chamadas externas com VoIP a tarifas módicas de atacado.

Sobre a Coolab, conversamos ano passado com Rodrigo Troian, integrante do grupo, num papo em que ele contou em detalhes como funciona o trabalho na montagem e manutenção destas redes. além de falar de sua trajetória enquanto ativista do software livre.

Vale citar o trabalho, no Brasil, que Instituto Nupef e o capítulo brasileiro da Artigo 19 vem fazendo no fomento e divulgação do trabalho realizado com as redes livres e na governança de internet com as redes comunitárias. A Artigo vem participando de eventos internacionais com demonstrações das técnicas para montar provedores comunitários e produziu o guia mais completo e atual sobre “Como montar e regularizar um provedor comunitário” (disponível para download em PDF), publicação lançada no início de 2017 e que teve participação de vários grupos ligados tanto à infraestrutura de redes quanto da legislação sobre o tema. Já o Nupef, um espaço dedicado à reflexão, análise, produção de conhecimento e formação centrados em questões relacionadas às TICs, montou uma rede livre em Penalva, interior do Maranhão, a partir de uma demanda da comunidade, e tem usado sua experiência com redes do terceiro setor, criação de telecentros e uso do espectro de rede para articular iniciativas na construção de redes comunitárias e na formação de pessoas para gerir e trabalhar essas redes. Também é de iniciativa do instituto, com apoio de organizações como o CGI.br, a RNP e a Ford Foundation, entre outras, o portal espectro.org.br,  espaço que inclui informações de referência sobre práticas de rede relacionadas às TICs nas comunidades, incluindo material sobre novas tecnologias de rádio, TV Digital, telefonia e um acompanhamento das legislações de cada área.

Ainda que o acesso à Internet continua a depender de conexão com algum tipo de provedor público ou privado, portanto o mesmo esquema apontado anteriormente, as redes livres propiciam que comunidades inteiras se comuniquem correndo menos riscos de rastreamento.   O monitoramento só atuaria na comunicação de alguém da rede com alguém de fora da rede – no caso, à internet. Não é uma imunidade total ao vigilantismo, mas na prática já representa uma liberdade de expressão um pouco maior em relação às redes normais de conexão. São também mais difíceis de vigiar porque os dados oscilam de maneira imprevisível entre os nós da rede, sem um polo centralizado. E, com a expansão dos nós, as redes livres podem funcionar como uma pequena internet, com os mesmos serviços oferecidos, como é o caso da AlterMundi, da Gufi.net e também da alemã Freifunk, uma das maiores do planeta.

Voltando a pergunta inicial desse texto, podemos dizer que as redes livres têm sido pequenas alternativas que estão a desmonopolizar o tráfego de informação nas redes. Há diversas questões ainda a resolver para estes projetos se tornarem mais robustos, e a primeira delas é a questão da sustentabilidade. Se a infraestrutura técnica para montar redes livres (basicamente antenas, cabos e roteadores) é de baixo custo, o problema recai para a organização social que vai gerir a rede, dialogar com outros nós e iniciativas semelhantes e cuidar da manutenção permanente da estrutura. Não à toa, as mais bem sucedidas redes globais desse tipo, como a Guifi.net, souberam construir um arranjo em que pessoas, entidades e poder público trabalham juntos para a manutenção, organização e o financiamento da rede. Desde que começou, estabelecer uma organização social também tem sido o foco das instalações da Coolab, que leva a cada nova rede construída pelo menos um responsável técnico e uma pessoa que vai fazer a articulação com a comunidade local para replicar os conhecimentos utilizados e manter a rede depois que a cooperativa fizer a instalação. Pequenos lojas de bairro, instituições de ensino, patrocinadores externos e um preço estipulado para cada usuário (sempre mais baixo que o das operadoras) são maneiras que a Network Bogotá, a AlterMundi e a Coolab tem encontrado para custear a infraestrutura social (e técnica) de manutenção de sua rede.

Outro entrave para a propagação das redes livres foi (ou está sendo) superado: a legislação. A criação de um provedor comunitário é permitido por lei no Brasil, embora não seja um processo tão simples e não visto com bons olhos pelas principais empresas de telefonia que operam no Brasil, que sabemos ter um poder de lobby considerável no Congresso Nacional para alterar leis a seu favor. O já citado portal Rede Livre tem uma seção onde explica, passo a passo, todos os trâmites legais para operar dentro da lei atual. A versão mais atualizada dessa legislação foi produzida pela Artigo 19 e pode ser acessada neste link.

Project Loon, do Google

Um terceiro e último ponto é o mais ameaçador e nos remete à ressaca do texto anterior: o poderio das grandes empresas de internet como Google e Facebook. Ambos já têm serviços, em fase final de teste ou em funcionamento, de estruturas técnicas que vão oferecer conexão à internet para comunidades distantes e de difícil penetração de provedores locais, como em regiões na África e na Ásia. Mesmo com as muitas críticas que o Facebook recebeu com o Internet.org – projeto que visava oferecer alguns serviços da rede, escolhidos pela empresa, para locais com pouca infraestrutura – não foram suficientes para fazer o gigante do Vale do Silício desistir; documentos obtidos em julho de 2018 pela Wired por meio de uma lei de acesso à informação dos Estados Unidos revelam que a companhia está trabalhando em um satélite para esse fim, chamado Athena. Já o Google tem o Project Loon, que leva a internet via balões a comunidades remotas ou locais com infraestrutura precária, como regiões de Porto Rico atingidas pelo furacão Maria em 2017 e o Quênia.

É fácil de prever que, mais do que “querer dar internet a quem não tem”, estas empresas buscam também ampliar seu quase monopólio do tráfego na internet para a questão da infraestrutura, hoje dominada por empresas de telefonia privadas ou por alguns serviços públicos. Fazem isso a partir de um discurso tentador; se você morasse numa localidade que não chega sinal de internet, como não aceitar que uma empresa como estas ofereça esse serviço a um custo financeiro inicialmente baixo? As redes livres lutam contra gigantes que sabemos não serem fáceis de enfrentar, quanto mais derrotar.

Fotos: Sheila Uberti (Enfrenta), Altermundi,  Coolab e Project Loon

*A produção desse tipo de conteúdo só tem sido possíivel graças aos apoios recebidos do público/comunidade que chega junto no financiamento contínuo no https://apoia.se/baixacultura. Chega lá 🙂

Ressaca da Internet, espírito do tempo

Escrevo e acompanho as discussões, avanços e retrocessos da internet e do que se convencionou chamar de cultura digital desde 2008, quando nasceu o BaixaCultura. Já se foram 10 anos e tanto mudou nesse período que posso apontar, não apenas questões pontuais, mas todo um espírito do tempo (como dizem os alemães, zeitgeist) diferente hoje. Que pode ser resumido numa expressão que tenho usado faz alguns meses por aí: ressaca da internet. Depositamos tantas possibilidades de libertação (da informação de grandes grupos midiáticos, de liberdade de falar o que bem quiser, de criar tecnologias e mundos novos) que nos descuidamos, ou não conseguimos, prestar atenção na ascensão dos monopólios das empresas de tecnologia, na construção de bolhas de informação que confirmam pontos de vista e na cada vez mais real possibilidade da internet virar uma TV a Cabo, com o já proclamado fim da neutralidade da rede. Tomamos um porre de otimismo. E agora – ou melhor, desde pelo menos 2016 – estamos na fase de ressaca, refém dos monopólios da internet, da comercialização de qualquer dado deixado na rede, das fake news chegando de todos os lados. Distopia pura.

O cerceamento da internet por empresas privadas como o Google, Facebook, Amazon e Apple é um dos elementos principais na construção desse espírito. O que resta da internet hoje se não as plataformas, softwares e dispositivos dessas empresas? Para a maioria da população brasileira e mundial, pouco. Cerca de 70% dos brasileiros acessam a rede pelo celular e, não raro, só entram em serviços como o Facebook, WhatsApp e Instagram quando conectados, todos da mesma empresa. Existem outras opções de buscadores ao Google, por exemplo (o DuckDuck é o principal deles), e de sistemas operacionais de smartphones ao Android e o IoS da Apple, mas olhe para o lado e veja quantas pessoas de fato usam estas alternativas? A internet já é hoje o que muitos de nós ativistas por uma internet livre temíamos: um grande jardim murado, onde cada vez mais quem dá as cartas do que e como acessar são grandes empresas privadas com sede nos EUA.

Lembro bem, no final de 2011, quando escrevi um relato sobre a luta pela defesa dos princípios da internet, como a neutralidade da rede, a partir da fala de Yochai Benkler na abertura do Festival Cultura Digital.br. Já naquela época o questionamento sobre o fim da neutralidade da rede e o crescimento dos grandes monopólios era assunto corrente, embora não com tanta presença quanto hoje. Na época, comecei o texto com a pergunta: “é utopia pensar em uma internet democrática e livre, sem privilégios de acesso e tráfego de dados para nenhum lado, assim como foi definido nos princípios do desenvolvimento da rede?” Partindo daí, contei um causo que presenciei em sala de aula, numa das inúmeras vezes que falei de cultura e licenças livres para alunos de comunicação, em que um aluno perguntou se manter a internet livre não seria uma utopia, ou então uma ingenuidade. Respondi, na época, que não: “A internet foi criada assim, como uma rede descentralizada e autônoma. E não estamos falando de uma utopia, mas de uma realidade; a internet, hoje, funciona deste jeito”. O aluno estava certo?

Em 2011, a luta por uma internet livre era menos ingrata a que de a hoje, e eu mesmo acreditava que conseguiríamos, enquanto sociedade civil, manter a internet tal qual ela foi criada, ou pelo menos garantindo alguns de seus princípios básicos como a neutralidade. Passados quase sete anos, faço um mea culpa.  Não sabia, ou não queria acreditar, ou não queria escrever nem falar publicamente que não acreditava, que os grandes atores da internet transformariam a internet no que ela é hoje, um espaço fechado onde nós estamos presos em bolhas algorítmicas privadas das quais pouco ou nada sabemos do seu funcionamento – e só de um ano pra cá, com Trump e Brexit, começamos a ver as potencialdiades nefastas para a política desse arranjo entre pessoas e sistemas técnicos como o Facebook. Como muitos, duvidei e não quis ver que o capitalismo se reinventa e se apropria de tudo que enxerga pela frente, inclusive uma rede que nasceu libertária como a internet.

O TED, aquele famoso formato de conferências rápidas gravadas em vídeos que se espalhou pelo mundo, teve uma última edição importante em abril de 2018, no Canadá. Duas falas manifestaram esse zeitgeist de ressaca da internet. Com a palavra Jaron Lanier, um dos criadores da ideia de realidade virtual, músico e cientista da computação. “Nós cometemos um erro em especial no início. A cultura digital nascente acreditava que tudo na internet deveria ser público, gratuito. Ao mesmo tempo, amávamos nossos empreendedores de tecnologia. Amávamos este mito nietzchiano do homem de tecnologia que transforma o universo. Como celebrar empreendedorismo se tudo é gratuito? Um modelo baseado em publicidade. Daí que o Google nasceu gratuito, o Facebook nasceu gratuito. Os anúncios no princípio eram para seu dentista local ou algo assim. Só que os algoritmos melhoram. E o que começou como propaganda não pode mais ser chamado de propaganda. Hoje é modificação de comportamento. Não chamo mais essas coisas de redes sociais. São impérios de modificação de comportamento. Esta é uma tragédia global nascida de um gigantesco erro. E me permitam acrescentar outra camada. No behaviorismo, você oferece a uma criatura, um rato ou uma pessoa, pequenos presentes ou punições dependendo do que fazem. Nas redes, punição social e prêmios sociais ocupam esta função. Você fica todo feliz — ‘alguém gostou das minhas coisas’. Os consumidores destes impérios de modificação de comportamento recebem o retorno de tudo o que fazem, percebem o que funciona, fazem mais daquilo. E respondem mais a emoções negativas, porque estas despertam reações mais rápidas. Assim, até os mais bem-intencionados alimentam a negatividade: os paranóicos, os cínicos, os niilistas. Estas são as vozes amplificadas pelo sistema. E não dá para pagar a estas empresas para que façam o mundo melhor ou consertem a democracia pois é mais fácil destruir do que construir. Este é o dilema no qual nos encontramos.

“O maior perigo que a democracia liberal enfrenta é que a revolução na tecnologia da informação fará com que ditaduras sejam mais eficientes do que democracias”. Essa foi a afirmação que a Folha de S. Paulo resolveu destacar na palestra do historiador israelense Yuval Noah Harari no TED. Para prevenir a ascensão do fascismo e evitar novas ditaduras, o historiador propôs a engenheiros que encontrem maneiras de impedir que informações fiquem concentradas nas mãos de poucos e se certifiquem de que o processamento de informação distribuído seja tão eficiente quanto o centralizado. “Essa será a principal salvaguarda da democracia”, diz.

Talvez não seja novidade para você o chamado para a ação da fala de Harari. A questão é o como fazer: de quais maneiras práticas os engenheiros de computação podem tornar o processamento da informação mais descentralizado? Será que eles (ou elas) querem fazer isso? Será possível ainda enfrentar os grandes hubs de informação das redes sociais a partir de pequenas iniciativas descentralizadas? Ou devemos concentrar nossos esforços – nós e todxs aqueles que não somos engenheiros – em não permitir sermos manipulados por aqueles que controlam a informação? Trago aqui mais perguntas que respostas porque, claro está, tudo está acontecendo agora; enquanto buscamos sair da ressaca, continuamos a fazer perguntas e tatear princípios de certeza para, daqui a pouco, agir. Ou para agirmos com mais clareza, já que muitos já estão agindo mundo afora. Nas próximas semanas falo um pouco mais desses muitos.

Leonardo Foletto,
editor do BaixaCultura

 

Crédito foto: KYM

Feira Gráfica ReTina e oficina jornalismo artesanal em zines

No final de semana dos dias 2 e 3 de junho de 2018 participamos da ReTina, feira gráfica de publicações em Santa Maria-RS. Foi nossa primeira participação em uma feira de publicações, um desafio interessante para nós, nativos digitais. Montamos a banca com as nossas publicações e a de outros parceiros, como a Chupa Manga Records e a Monstro dos Mares, e durante dois dias convivemos com artistas, escritores, performers, desenhistas, entre vários artistas de Santa Maria, Pelotas, Porto Alegre e também outros lugares do Brasil. Foi uma ótima troca de saberes; nos deu ganas para continuar com nosso selo e com a produção dos zines – o próximo estará pronto até o final desse mês de junho, se tudo correr bem.

 

Também participamos da feira com uma oficina, em dois dias, de Jornalismo Artesanal em Zines. Nela, fizemos um balanço da história dos zines, das vanguardas históricas ao punk, passando também por conceitos tão distintos quanto jornalismo hiperlocal, jornais impressos, interesse público, situacionistas, do it yourself e mídia alternativa. Também realizamos, com os 15 participantes, uma deriva pelas três quadras da região no entorno da oficina, um complexo com três prédios públicos importantes (Biblioteca Municipal, Arquivo Histórico e o Museu de Arte de Santa Maria – MASM, onde a oficina foi realizada) pouco conhecidos na cidade.

Acabamos, então, propondo a realização de um zine sobre essa região. No 2ºdia da oficina, quando de fato fomos pôr a mão na massa e fazer o zine, tivemos pouco tempo para finalizar e menos pessoas (4 ao total) envolvidas. O resultado é que ficamos apenas com o boneco feito – e a promessa de que os participantes restantes da cidade finalizariam o zine. Segue o texto de apresentação da proposta da oficina, aqui o arquivo do zine com os temas da oficina que fizemos para a própria) algumas fotos da oficina e da feira, e do boneco do “Locomotiva Cultural”, nossa publicação esboçada. As fotos são do Estúdio Maskara (quando assinaladas) e nossas (quando não).

Oficina Jornalismo Artesanal em Zines

Zines são uma forma de expressar qualquer ideia em forma de publicação. Com um longo histórico na contracultura do século XX, eles sobrevivem ao digital século XXI com a proposta de expor ideias e informações de um modo artesanal, com cada detalhe importando para que a sua fruição seja uma experiência única. Na contramão dos fluxos contínuos (e não alcançáveis por nossa cognição) de informação que jorra de todos os lugares digitais, a proposta da oficina é usar o zine como plataforma de um jornalismo lento, hiperlocal e livre: o que importa aqui é a criatividade ao expressar uma informação numa publicação, e não a escala industrial de produção de conteúdos que serão esquecidos logo depois de ler. Vamos fazer uma deriva pela região da oficina para, a partir do olhar curioso pela cidade, expressar no zine quais informações de interesse público da região podem ser transformadas em informações jornalísticas para um zine.

 

 

 

Diálogos Abertos #2: A Internet como conhecemos morreu. E agora?

A Federal Communications Comission (a “Anatel” dos EUA) decidiu, em dezembro de 2017, acabar com a neutralidade da rede, princípio que obriga os provedores de internet a tratar igualmente todos os dados, sem poder discriminar ou privilegiar nada do que passa por suas redes. O Senado dos EUA, porém, rejeitou essa decisão, jogando agora para a Câmara de Representantes (a Câmara dos Deputados dos EUA) e o presidente Trump decidirem se a medida da FCC vai ser invalidada definitivamente e a neutralidade de rede seja efetivamente restaurada.

Muitos já dão como certa que Trump e os deputados vão reverter a decisão do Senado e pôr fim a neutralidade da rede  – o que ocorre também devido a afirmação da liderança republicana da Câmara expressando sua oposição em votar a neutralidade da rede agora. Se de fato a neutralidade for derrubada por lei, é a maior mudança da história da internet até aqui. Nos próximos anos, é grande a chance de nós usuários termos que pagar mais para acessar certos tipos de serviço – uma conexão que priorize a velocidade dos vídeos ou o desempenho dos games, por exemplo, o que é proibido por lei hoje. Sem a neutralidade da rede, as empresas de telecomunicações são donas da rede e podem definir o conteúdo que você irá acessar, como numa assinatura de TV a cabo.

O cerceamento da internet por empresas privadas como o Google, Facebook, Amazon e Apple também tem ajudado a tornar a internet livre, descentralizada e gestionada por pessoas (ou comitês com participação da sociedade civil), uma realidade cada vez mais distante. Cerca de 70% dos brasileiros acessam a rede pelo celular e, não raro, só entram em serviços como o Facebook, WhatsAPP e Instagram quando conectados. A internet tem virado o que muitos de nós ativistas por uma internet livre temíamos: um grande jardim murado, onde quem dá as cartas do que e como acessar são grandes empresas privadas com sede nos EUA.

Diante desse cenário, vamos, novamente junto com a CCD Porto Alegre e o hackerspace Matehackers, debater no segundo Diálogos Abertos o que (e se) ainda é possível ser feito para manter a internet livre e descentralizada, como ela foi pensada inicialmente e como ela funcionava até anos atrás, e sobre como podemos lidar com mais essa situação distópica. Há gente, como Peter Sunde, um dos criadores do The Pirate Bay, que já desistiu: “Ainda pensamos na internet como esse novo Velho Oeste. Nada está escrito em pedra ainda, então não ligamos. De alguma forma tudo vai dar certo. Mas não é por aí. Nunca vimos tanta centralização, desigualdade e capitalismo extremos. Porém, de acordo com o marketing feito por gente como Mark Zuckerberg e empresas como o Google, tudo é feito para ajudar a rede aberta e promover democracia, e por aí vai. Ao mesmo tempo, são monopólios capitalistas. É como confiar no vilão pra fazer boas ações. É bizarro.” Outros, como Tim Berners-Lee, criador-chefe da Web, diz que devemos nos preocupar com a regulação, porque se deixarmos para o mercado regular a internet a situação pode ficar ainda pior do que já está.

Nossa conversa também vai trazer outras perspectivas mais, digamos, otimistas, que apontem para novos caminhos de (re) construção da internet, como as redes livres. Teremos como convidados Rodrigo Troian, ativista de software livre desde 2004 e que desde 2008 vem pesquisando e fazendo redes em malha por wifi utilizando roteadores de baixo custo – as chamadas redes livres, como ele comentou na BaixaCharla. Além dele, vão participar da conversa integrantes das organizações participantes e quem mais quiser; a roda de conversa é aberta a todxs que quiserem participar (falar, escutar e/ou só observar)

O evento será novamente no Vila Flores, às 18h30. Como da primeira vez, vai rolar transmissão ao vivo no nosso canal no YouTube.
UPDATE 19/6: Tivemos um problema na conexão de internet, então o vídeo transmitido ao vivo vai até os 22min49s, e aos 22min53s entra a segunda parte, não transmitida, mas gravada – por isso uma pequena diferença na qualidade de imagem/som.

https://youtu.be/sXGKorxS_zE

O TOR e a resistência a distopia da vigilância

 

Isabela Bagueros, que logo assume como Diretora executiva do TOR (sua foto já está no blog do projeto), fez uma fala potente na abertura da #CryptoRave2018 lotada, ao ar livre, no deck da Cinemateca Brasileira. Afirmou que as empresas de tecnologia tomaram a internet e fazem do nosso comportamento uma commodity, abusando de práticas no mínimo controversas, como bloquear acessos a serviços para forçar a criação de novas contas, compartilhar (e não vazar, como alega o Facebook) dados dos usuários com terceiros sem avisar, fazer os termos de serviço escrito naquelas letrinhas miúdas que raramente se lê… Ela defende que o modelo de negócio da internet baseado na comercialização dos nossos dados de uso tem que mudar. “Não podemos mais aceitar a comercialização abusiva dos nossos dados. A privacidade tem que ser padrão, não exceção”, disse, no que nós concordamos, embora saibamos também que essa é uma batalha MUITO difícil e que estamos no centro dela neste momento.

O TOR, é claro, é um elemento central nessa batalha por privacidade na rede. Isabela fez uma apresentação geral da ferramenta (o vídeo abaixo desenha como ele funciona), que tem 63 mil servidores (voluntários) espalhados pelo mundo e uma estimativa de 2 milhões de usuários, e falou do ecossistema por trás do software: uma ONG, que tem cerca de 30 pessoas trabalhando remuneradas, o conselho administrativo, os voluntários e os contribuidores – o Tor é um software livre, portanto é possível contribuir para seu aprimorar seu código ou mesmo detectar falhas de segurança. Afirmou que a forma de financiamento do TOR é baseada em doações, sendo menos da metade de governos (EUA, Suécia, Alemanha), e a outra parte vem de fundações (Mozilla, por exemplo), empresas privadas e pessoas de todos os lugares do mundo.

Os serviços Onion – sites que só podem ser acessados pelo TOR e compõe boa parte do que as pessoas chamam de “Deep Web” – também foram tema da keynote, Aliás, sobre isso Isabela deu uma declaração que, se houvesse jornalistas da mídia tradicional na Cryptorave, seria muito problematizada: “Não existe deep web ou dark web, isso é invenção da mídia. Na verdade a chamada deep web são os serviços onion, que permitem distribuição de conteúdos de forma anônima, o que é importante na nossa sociedade”.

Um dos focos do TOR hoje, e que vai ser uma das pautas tocadas por Isabela na Diretoria Executiva da organização, é a diversidade. “Precisamos ter servidores rodando em vários lugares, de diversos tipos, pessoas diversas, sistemas operacionais diversos. Isso fortalece a rede”, afirmou ela. Quanto mais pessoas e computadores diversos usarem TOR, menos a possibilidade de você ser o único da sua rua-bairro-cidade a usar o Tor para navegar anonimamente na rede – e talvez ser discriminado e perseguido por isso. Aliás, se o Tor é censurado em algum país, entre neste site e você tem todas as informações para continuar navegando anonimamente.

Outro foco é OONI, um aplicativo que que ajuda a detectar censura e vigilância na internet de vários lugares do mundo. Você executa o app e tem acessos a uma série de dados sobre os sites que são bloqueados e em que lugares, além de detectar a velocidade da rede que você acessa, entre outras funções ainda em desenvolvimento. Já dá pra baixar na Play Store e na F-Droid (a loja de aplicativos livres).

Assista a íntegra da palestra de Isabela no canal da TV Drone no Youtube:

_ O Coletivo Encripta, um dos co-organizadores da CryptoRave, fez um excelente tutorial em português chamado “Conhecendo e Desmistificando o Tor“.
_ Confira as matérias na MotherBoard, da Vice, que tratam do TOR ou de algum assunto que ele é relacionado.

 

Diálogos Abertos #1: O Caso facebook

Junto com o Hackerspace Matehackers e a Casa da Cultura Digital Porto Alegre, começamos na última quinta-feira, 26 de abril,  uma série de debates sobre temas ligados à cultura digital, tecnopolítica, direitos digitais, cultura livre, ética hacker e outros do nosso cotidiano digital. Nosso intuito foi, e continuará sendo com os próximos, dissecar esses temas num momento em que a internet que conhecemos está acabando, e que novas “internets” estão sendo construídas, num campo em ferrenha disputa que acontece hoje.

O primeiro assunto dos Diálogos Abertos não poderia deixar de ser o recente caso envolvendo o Facebook, que supostamente vazou (compartilhou, melhor dizendo) dados de cerca de 87 milhões de pessoas para a empresa de marketing político Cambridge Analytica por meio de testes de personalidade. A situação levou o criador da rede social, Mark Zuckerberg, a defender sua empresa no Congresso dos Estados Unidos e despertou um sonoro “eu já sabia” nos meios do ciberativismo de proteção de dados e antivigilante, além de queda do valor das ações da empresa na Bolsa de Valores e alterações na política de proteção de dados da rede social, que vão afetar os mais de 1 bilhão de pessoas com perfis no Facebook.

A conversa realizada no miolo do Vila Flores, condomínio cultural criativo que abriga o Matehackers, girou em torno desse e outros temas correlatos, e teve a condução de Janaína Spode, integrante da CCD POA, produtora cultural e ciberativista nas lutas pelos avanços políticos para reforçar os Direitos Humanos no mundo digital;  Fabricio Solagna, doutorando em sociologia pela UFRGS com pesquisa focada em governança da Internet e Marco Civil na Internet e que já realizou projetos de participação digital no governo do RS e na presidência da República; e Leonardo Feltrin Foletto, doutor em comunicação pela UFRGS, integrante do Matehackers, da CCD POA e editor desta página.

Diálogos Abertos marcou também o lançamento da Newsletter quinzenal CCD POA + BaixaCultura (inscrição e todas as infos aqui), e da campanha de financiamento contínuo do BaixaCultura no Apoia.se. Teve a presença de cerca de 20 pessoas e outras tantas online, na transmissão que fizemos no YouTube e que está disponível aqui abaixo. As fotos são de Sheila Uberti. A 2º edição será realizada em maio.

Cultura livre, comum e inovação cidadã em charla

Primeiro de março, final de manhã quente em Santos. Da rodoviária até o Instituto Procomum nos disseram que levava nem 20 minutos a pé. Nos disseram também que a viagem de São Paulo até Santos é rápida, e foi: de descer em Jabaquara, entrar no terminal, comprar passagem, pegar a Imigrantes para descer a serra e chegar na maior cidade do litoral paulista não deu 2h. Baixamos do ônibus com mochilas nas costas e seguimos a pé por uma praça grande de nome muito encontrado Brasil afora, Andradas. Atravessamos pelo meio das arvores centenários, cruzamos com pessoas sentadas nos bancos, vendedores de livros usados, até chegarmos numa daquelas típicas ruas centrais de cidades brasileiras, de calçadas estreitas tomadas de decoração de lojas, muitas lojas, de móveis, eletrodomésticos, roupas, tecidos, ferragens, lancherias e trecos em geral. As nuvens fartas disfarçam a queimação dos raios de sol na pele, mas não aliviam o calor, abafado e úmido que prenuncia chuva. Pouca gente na rua comercial, pelo menos não o suficiente para atrapalhar a caminhada, que segue rápida, ritmada, queremos chegar, largar as mochilas, tomar uma água, secar o suor. Agora viramos a esquerda numa rua com mais prédios, menos comércio, uma igreja grande, uma praça que parece antiga à esquerda, um posto na esquina; nessa esquina dobramos à esquerda novamente. Estamos na rua Sete de Setembro, que ao final dá no mar, no porto, no Mercado Municipal, região de casas antigas, prédios baixos, lojas de todos os tipos. Calçadas estreitas, em alguns pontos irregulares,  passamos por um muro de um colégio, um restaurante-bistrô, pequenos comércios, paradas de ônibus. Da calçada olhamos para o o outro lado da rua: número 52, uma porta fechada, um pavilhão grande. Deve ser aqui. Antiga sede da Associação Prato de Sopa Monsenhor Moreira, agora sede do Laboratório Santista. É.

Principal projeto do Instituto Procomum, o LabxS é um laboratório cidadão em formação. Os 1200 m² estão sendo ocupados aos poucos, com mutirões para cuidar da horta, fazer móveis, grafitar as paredes, decorar o ambiente. Já há quartos e banheiros enormes com vários boxes, resquício do tempo que o espaço recebia dezenas de moradores de rua por dia e oferecia comida, banho e um pouco de cuidado para estes voltarem para a rua no mesmo dia. Um dos banheiros coletivos já foi reformado e, nos próximos meses, vai ser usado na Colaboradora, projeto com inscrições até o próximo dia 29/4: trata-se de um um ambiente onde artistas, produtores e a comunidade aprendem juntos a solucionar os complexos problemas contemporâneos por meio da arte e da cultura. Um residência artística, mas não só. Um grande salão, antigo refeitório, já tem sido usado como auditório e local de grupos de trabalho, inclusive na 2º edição do Circuito Labs, realizada no início deste 2018. O circuito é um festival de inovação cidadã feito via chamada pública para realização de ações que promovem os bens comuns e as soluções de problemas de baixo para cima.

Muitos dos projetos do LabxS e do Instituto Procomum precisam de mais do que duas palavras de explicação. Ficam naquela intersecção entre várias áreas: não se tratam, por exemplo, de iniciativas culturais, nem de tecnologia, de empoderamento, nem de inovação, mas de tudo isso junto e misturado com outras várias coisas. Fomentam a solução de problemas no espaço público a partir de tecnologias digitais, metodologias colaborativas, pessoas e coletivos da região da Baixada Santista. Inovação cidadã e cultura livre, dois termos que definem o trabalho realizado pelo Procomum, não são facilmente compreensíveis hoje no Brasil. Quer dizer: não são termos complexos, acadêmicos, mas simples, tão simples que a vezes permitem muitas interpretações. Polissemia pura, que para fins de comunicação entre diferentes precisam ser definidos. Descrições e explicações são facilmente encontradas em todo o site do Procomum e do LabxS não por acaso.

A BaixaCharla abaixo não foi tão descritiva ou explicativa, mas afetiva. Nos conhecemos, eu (Leonardo), Rodrigo e Geórgia faz oito anos, trabalhamos juntos na CCD São Paulo em projetos como o Produção Cultural no Brasil, Fórum da Cultura Digital, BaixoCentro, além do principal projeto, a própria casa, criativa e louca como costumam ser as coisas difíceis de definir. “A Casa me deu régua e compasso do que eu não quero fazer”: frase forte de Rodrigo, citando Gil e “Aquele Abraço“, dá uma amostra do porquê a CCD foi tema de alguns bons minutos do papo. Não é fácil criar um espaço onde a experimentação se dava sem forçar, ação cotidiana “naturalizada” em cafés e conversas paralelas na cozinha que resultavam em projetos meio de brincadeira, meio a sério, que poderiam ser levados adiante e bancados por articulações financeiras num cenário – hoje percebemos bem – favorável de políticas culturais e investimentos públicos. “Prioridade pra quem se desloca” era um lema daqueles tempos, que jamais seria escrito como missão, regra, mandamento, a não ser que fosse de brincadeira, aí sim poderia pintar um dia na parede escrito à caneta, fruto empolgado de “horas felizes” no fim de tarde regadas à truco e cachaça. A lembrança com alguma distância temporal soa romântica, mas há de se recordar que o espontâneo daquela época acontecia pela ação de muitos “kamikazes financeiros” que adquiriam dívidas e compravam brigas nada sustentáveis e que durariam anos para curar. Mas que, ao contrário dos kamikazes originais, não morreram, e cá está uma das muitas provas.

O Instituto Procomum, e o LabxS, é como um irmão mais velho da CCD. Mais organizado, sustentável, feminista, negro, LGBT, com protocolos claros de convívio, hierarquia reconhecida e disposição para enfrentar o desafio da organização. O que não significa caretice nem engessamento eterno, mas sim que cada um assuma a sua responsabilidade, que colabore sem esquecer que o afeto é importante, que cuidar de todxs e trazer as emoções para conversar é fator diferencial de sobrevivência nesse brasil hostil de 2018 – politização do mal-estar, como apontou Amadeu Fernandéz no relato que produzimos em Enfrenta. Rodrigo e Geórgia passaram por muita coisa em governo, empresas privadas e organizações da sociedade civil para, hoje, saber o que querem. E também para se articular local e internacionalmente e buscar recursos para sustentar seus experimentos: o espaço da rua Sete de Setembro e os projetos já tocados pelo Procomum atestam isso.

A BaixaCharla girou da cultura livre à CCD, da política ao comum, do cuidado à inovação. Foi mais um papo informal e tão espontâneo quanto uma câmera na mão (da Sheila Uberti, parceira de todas as horas) torna possível. O primeiro em São Paulo – ou melhor, em Santos, na Rua Sete de Setembro, 52, Vila Nova, um dia calor de final de verão. As fotos depois do vídeo são do e LabxS e dos arredores do Mercado Municipal.

Uma newsletter quinzenal

Nos reunimos com a CCD POA para organizar, embasar e ir mais fundo nas informações que todos os dias postamos nas nossas redes sociais e plataformas como este site. Daí nasceu a nossa Newsletter em conjunto, para informar e debater temas como tecnopolítica, direitos digitais, privacidade, cultura livre, remix e (contra) cultura digital – e também informar as atividades que realizamos por aí e organizar uma agenda de eventos nessas áreas. Mais uma newsletter, vocẽ pode pensar: e é, sim, mais uma newsletter, e ao mesmo tempo não é: nosso objetivo é trazer um conteúdo diverso, aprofundado, olhando para o que acontece no presente e sobre as transformações que a internet está passando e nos fazendo passar enquanto sociedades. Mas também queremos olhar para trás, para lembrar de textos, fatos e histórias que nos ajudam a entender esse frenético cotidiano de hoje, por isso em todos os envios vamos resgatar algum texto ou acontecimento passado que, no mar de informações compartilhadas todos os dias, acaba por se perder.

Se inscreva a nos acompanhe! O 1º envio é nessa quinta, 19/4, e os próximos serão sempre às quintas, a cada 2 semanas, salvo em ocasiões especiais.



Lançamento da campanha de financiamento & continuidade

O cansaço já havia decidido por mim faz alguns meses: 15 de setembro de 2018 seria a data de morte do BaixaCultura. É o dia também de aniversário de 10 anos, idade simbólica para um projeto que nasceu quando as redes sociais eram menores e a internet era outra, mais livre, menos distópica. Estava escolhendo alguns dos textos mais representativos nessa década para organizar um livro de despedida, uma espécie de coletânea do que passou pelos nossos radares, dos debates esperançosos sobre a necessária reforma nas leis de direito autoral nos idos de 2009 às máquinas de vigilância disfarçadas de redes sociais como este Facebook, passando por muitos (mesmo) outros temas que passaram por nossas páginas.

Comentei com algumas pessoas desse desejo e ouvi algumas respostas que diziam: “mas agora que tem 10 anos vai acabar?”. De fato, existem poucos projetos vivos que documentam e produz cultura livre (e contra) cultura digital. Na era em que tudo é registrado, onde parece tão fácil documentar, muito tem se perdido. Um paradoxo, ainda mais visível e paradoxal no mundo onde me movo, dos projetos, pessoas e instituições de cultura livre, remix, artivismo, hackers, contracultura, software livre, etc.

Comecei a pensar: e se o BaixaCultura continuar? Diferente, mais ativo e frequente, como resistência mesmo, num mundo (e especialmente neste Brasil de 2018) cada vez mais difícil de resistir. Como poderia encarar o desafio da sustentabilidade fazendo, vá lá, um jornalismo tão artesanal, por muitas vezes lento, um laboratório de produção de conteúdo, experimentação e formação em cultura livre, independente de publicidade e com a parceria de muitxs?
Uma tentativa de responder as perguntas acima está na campanha de financiamento recorrente que começamos nesta semana. Apoiar o BaixaCultura no APOIA.se é acreditar na cultura livre, no conhecimento aberto, e dar um crédito todo mês para que nós continuemos fazendo (e qualificando) nosso trabalho nessas áreas. São várias opções de apoio, começando por R$5, e você escolhe de acordo com as suas possibilidades de colaboração. Nossas metas estão detalhadas de forma transparente, para que todxs saibam o quanto precisamos mensalmente para fazer o BaixaCultura. E tem recompensas também, de zines a newsletter, de surpresas (impressas!) a encontros presenciais, oficinas e cursos.
Chega mais, veja o vídeo, leia o texto, se quiser/puder/achar importante apoie, se não ajude a espalhar. Recorrente é maratona e não 100m rasos, então a questão ainda segue. https://apoia.se/baixacultura
Leonardo Foletto, editor

Um pacote semanal de arquivos offline

Quatro anos atrás hospedei em minha casa por alguns dias um programador cubano, que veio à Porto Alegre para um evento internacional de software livre, o FISL. Ele aproveitou a ocasião também para acompanhar alguns jogos da Copa do Mundo de 2014, então depois de Porto Alegre andou por várias outras cidades do Brasil, inclusive esteve no Rio de Janeiro quando ocorreu a final, aquele Alemanha X Argentina vencido pela primeira com um gol na prorrogação. Por conta das viagens, ele veio com uma mala grande, carregada com roupas para uma estadia longa e também com algumas lembranças de seu país, entre elas algumas garrafas de Rum para presentear seus anfitriões. Festeiro e alegre como boa parte dos cubanos que conheci, adorava sair pra dançar à noite; nos “aquecimentos” em nossa casa, ensinava a fazer mojitos com o rum que trouxe, completados com açúcar, água com gás e muita “hierbabuena” – como é chamado o hortelã em espanhol.

Além da bagagem física, ele também trouxe uma bagagem considerável de arquivos em seu HD. Compartilhava com quem quisesse seu acervo: mais de 10 gigas de música e ouros tantos de filmes cubanos. Ainda que tivessem alguns clássicos de fácil circulação na internet, boa parte era material mais raro de conseguir, músicas e filmes que não estão no YouTube ou em outro serviço de streaming, e que talvez só seja encontrado na internet em clubes de download, ainda os melhores espaços para se baixar qualquer coisa na rede. O fato da velocidade de conexão em Cuba ser muito lenta torna bem mais difícil o compartilhamento de arquivos online e na “nuvem”, um dos motivos pelos quais nosso amigo programador usou constantemente nossa (meia boca) internet de 15 megas para baixar os mais diversos arquivos enquanto esteve em casa.

Soube depois, conversando com ele, que carregar arquivos digitais em pastas (em pendrives, HDs, etc) para compartilhar é um hábito comum em Cuba, onde a rede é acessado por uma minoria do país: algumas estimativas internacionais falam em 5% de pessoas com acesso na ilha em casa, enquanto que a “Oficina Nacional de Estadística de Cuba” disse que, em 2014, eram 27%, embora essa estatística reflita os conectados à intranet local. Mesmo estes 5%, o acesso ainda é lento e caro: na maioria das casas, a velocidade é 56 kbits, como nos velhos modens dos anos 1990, e há restrições de horas (a de meu amigo cubano é de 30h por mês). Há zonas de wifi públicas presentes em algumas das principais cidades cubanas e cybercafés públicos, mas ambos são caros: dados de 2016 dizem que a primeira saía em torno de US$2 dólares por hora e o segundo entre US$6 e 10 por hora – sendo que o salário médio no país gira em torno de U$$20 mensais. As torres de dados para telefonia móvil estão sendo implantadas e, por enquanto, o acesso ocorre apenas para algumas pessoas do governo ou de (poucas) instituições privadas, segundo me contou o programador da ilha.

Esta realidade de conexão ajudou a manter por lá o hábito do compartilhamento físico, offline, de arquivos dos mais variados. Um dos principais arquivos digitais compartilhados da ilha é o chamado “El Paquete Semanal“, um pacote de arquivos de quase 1 TB (contendo entre 15 e 18 mil) distribuídos toda semana ao redor do país com softwares, esportes, telenovelas, desenhos animados, mangás, películas, videogames, músicas, revistas e muito outros conteúdos que a internet traz. “É a melhor maneira de estar atualizado offline” me disse, meses depois, o amigo cubano.

São dois modos os mais comuns de receber o material de “El Paquete”. O primeiro é pagar entre U$1 e U$2 (ou CUC, o peso convertible cubano, usado mais por turistas; diferente do CUP, o peso cubano usado no dia a dia) e receber em sua casa, toda semana (segunda ou terça, dependendo da cidade), alguma pessoa com os arquivos em HDs portáteis ou em memórias flashs (cartões de memórias de máquinas fotográficas, por exemplo), que copia para o seu computador o que você escolher. A outra é comprar nas mais diversas lojas pelo país, especialmente a de aparelhos para smartphones, que revendem para outros clientes. Daí ele se espalha de mão em mão, tal qual um arquivo na internet.

No site de “El Paquete” é possível ver uma lista detalhada dos arquivos de cada semana, divididos por pastas e sub-pastas; na da segunda semana de março de 2018, por exemplo, havia 5 gigas de documentários, curtas, novelas e longas cubanos em “Cinemateca Cubana”; quase 4 GB de aplicações para Android e Iphone em “Aplicaciones para Móviles”; 20 GB em “Música MP3 2018”, com sub-pastas como “Top UK 40 Singles”, “Unreleased Puerto Rico”, “Temas de Estreno Internacionales”, “Top de Febrero”, entre outras; 30 GB de séries de países de língua inglesa em “Series en Transmision”, de “Outlander” a “Grey’s Anatomy”, de Law & Order” a “Arquivo X”; 4GB de revistas em inglês e espanhol, atualizadas semanalmente; entre muitos outros arquivos – lembrando que é quase 1 TB, a capacidade média de boa parte dos HDs que vem nos computadores portáteis hoje vendidos.

Além destes arquivos, “El Paquete” contém também os arquivos de um mercado digital chamado Revolico, que funciona de modo semelhante ao Craigslist: as pessoas compram e vendem todo tipo de coisas, de bicicletas à aulas de matemática, incluindo o próprio acesso à Internet a um preço com desconto. É considerado o principal mercado negro de Cuba, mas tem uma particularidade: é oficialmente bloqueado na ilha desde 2007, quando foi começado por expatriados cubanos na Espanha. Ainda assim, alguns conseguem acessar porque os fundadores do site criaram uma série de servidores proxy, soluções de DNS, endereços web privados e espelhos que mantém o site no ar em Cuba – há, inclusive, seções inteiras sobre o como acessar o site no próprio Revolico.

Os que não conseguem, que são a maioria dos usuários, baixam os arquivos de “El Paquete” e depois usam offline. Uma vez baixado do pacote, Revolico pode ser navegado normalmente em um navegador da Web, de modo que você poderá entrar em contato com os vendedores com um telefonema, assim como você faria se você encontrou o anúncio em um jornal. Em uma reportagem da Vice de 2015, um artista cubano que vive em Havana e consome o “El Paquete” diz que o Revolico é conhecido por todos no país, e é essencial para muita gente.

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A realidade de uma internet lenta e de pouca penetração não explica sozinha, claro, a escala e o alcance de “El Paquete”. No início dos 1970, cerca de dez anos após a revolução cubana e a nacionalização dos meios de comunicação social, uma economia baseada no aluguel de material de entretenimento começou a florescer em escala na ilhaCom o desenvolvimento de novas mídias, o comércio se adaptou: passou de revistas para as fitas de vídeo VHS e Betacam, depois CDs, VCDs e DVDs e hoje os HDs e pendrives. O Pacote Semanal é o resultado do desenvolvimento gradual dessas redes por mais de quatro décadas.

Não há informação precisa de quantos pacotes são distribuídos semanalmente. Até pouco tempo atrás, não se conhecia publicamente os distribuidores dos pacote. Muitos perguntam como, semanalmente, é possível baixar 1 TB de arquivos com a conexão lenta que existe em Cuba; alguns já especulam que ele vem diretamente dos Estados Unidos. No vídeo abaixo, produzido em 2015 pela CiberCubaTV, “El Transportador”, conhecido como criador de “El Paquete” dá mais detalhes de como funciona o esquema.

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Fotos: 1 e 3 print vídeo, 2 BBC.