As táticas da Bela Baderna (1)

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Brasil, abril de 2016. Sabemos todos que vivemos no Brasil hoje um momento histórico, de disputas políticas acirradas como poucas vezes se viu nos últimos anos (décadas?): “coxinhas”, de um lado, “petralhas”, de outro, e um vasto vasto mundo entre eles. O impeachment tendo prosseguimento em votação pavorosa na Câmara dos Deputados, em transmissão ao vivo em muitos canais, foi pra nós o ponto mais baixo da história brasileira recente.

Na impotência de não saber o que fazer, de agir mas não saber direito por onde nem pelo quê começar, pensamos numa ideia simples, acessível ao nosso raro tempo vago e que pode, com sorte, ajudar mentes a mudarem um tanto: disponibilizar informação. Compartilhar conhecimento. Fazer ideias circularem. Não quaisquer informações nem ideias impraticáveis nem conhecimento inerte, mas as ferramentas para revolução da Bela Baderna.

Beautiful Trouble (na edição original, em inglês) ou Bela Baderna, na tradução para o português, é um livro/site que traz, de forma simples e didática, táticas, princípios e teorias para mudar algo. Como diz a orelha do livro: “sofisticado o bastante para ativistas veteranos e suficientemente acessível para os novatos, o livro mostra as sinergias entre imaginação artística e estratégia política afiada”.

O livro é organizado por Andrew Boyd e Dave Oswald Mitchell, ambos ativistas com bastante experiência em ações no mundo em língua inglesa. A edição nacional é pocket, menor que a original, conta com 168 páginas e tem tradução, revisão e co-editoria da Escola de Ativismo, coletivo brasileiro formado em 2012 com a ideia de fortalecer o ativismo no Brasil “por meio de processos de aprendizagem em estratégias e técnicas de ações não-violentas, campanhas, comunicação, mobilização, ações criativas e segurança da informação, voltadas para a defesa da democracia, dos direitos humanos e da sustentabilidade”. A edição pt-br traz também três estudos de caso nacionais: Jornadas de Junho (Revogação do aumento das tarifas de transporte público em São Paulo), Pimp my Carroça e Marãiwatsédé: a terra é dos Xavante.

Nossa ideia aqui é fazer uma versão post de algumas das táticas e princípios, de modo a difundir as belas ideias presentes no livro, que dialogam muito com o material que utilizamos nas oficinas de Guerrilha da Comunicação realizada em parceria com o Fotolivre.org Se você quer ler o livro inteiro em português, o que recomendamos muito, dá pra comprar aqui a R20, preço bem camarada pelo conteúdo explosivo encontrado. No site da edição original (em inglês) dá pra ler todo o conteúdo em posts, além de uma vasta quantidade de material complementar e novidades que valem a pena ser consultado a cada tática/estratégia/teoria lida.

São 31 táticas e princípios utilizados na versão em português. Versionaremos para post algumas delas de forma aleatória e sem uma periodicidade definida – toda vez que combinamos uma periodicidade ela não acontece por aqui. Começamos com uma que, nestes days afters pós-votação do impeachment na Câmara dos Deputados, poder ser de grande valia conhecer. ATENÇÃO: Há nessa tática, como em outras, uma divisão “por caixinhas” e um vocabulário de guerra (aliados, oponentes, batalhas) que pode não agradar a alguns, inclusive a nós em alguns momentos.

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MUDE O ESPECTRO DE ALIADOS*

Resumo
Os movimentos raramente ganham ao dominarem sua oposição: eles ganham ao suprimir a sua base de apoio. Delimite os setores sociais com influência sobre uma determinada questão e trabalhe para aproximá-los da sua posição.

Ativistas normalmente são bons em analisar problemas sociais sistêmicos, mas não tão bons em pensar sistemicamente sobre como se organizar.

Ativismo diz respeito a usar seu poder e sua voz para fazer mudanças. Organizar-se também diz respeito a isso, mas também a ativar e empoderar outros atores. Fica mais fácil se você pensar pelo ponto de vista dos grupos. Construir movimentos de forma bem-sucedida se articula na capacidade de enxergar a sociedade em termos de blocos e redes específicas, alguns institucionais (sindicados, igrejas, escolas), e outros menos visíveis e coesos, como agrupamentos demográficos ou subcultura jovens.

Analisar seu espectro de aliados pode ajudar a identificar e mobilizar as redes ao seu redor. Uma análise desse espectro de aliados pode ser usada para mapear uma campanha ou definir a estratégia de todo um movimento social.

A análise do espectro de aliados funciona da seguinte maneira: em cada compartimento, você coloca diferentes indivíduos (seja específico: coloque seus nomes!), grupos ou instituições. Indo da esquerda para a direita, identifique seus aliados ativos: aqueles que concordam com você e estão lutando junto: seus aliados passivos: aqueles que concordam com você mas não estão fazendo nada a respeito; os neutros: aqueles em cima do muro, que não estão envolvidos; os oponentes passivos: pessoas que discordam de você mas não estão tentando detê-lo; e finalmente seus oponentes ativos.

Alguns grupos de ativistas só falam ou atuam com aqueles no primeiro compartimento (os aliados ativos, Nota do Baixa: a “bolha”), construindo subculturas insulares, marginais e autorreferenciadas, que são incompreensíveis para qualquer outra pessoa. Outros se comportam como se todo mundo estivesse na ponta oposta (a dos oponentes ativos), agindo como se fossem “os poucos bons” e como se o mundo todo estivesse contra eles. Essas duas abordagens tendem ao fracasso. Os movimentos vencem não por se tornarem mais poderosos que seus oponentes ativos, mas sim removerem a base de apoio desses oponentes.

Por exemplo, em 1964, o Comitê de Coordenação Não-violenta Estudantil (Student Nonviolent coordinating Committe), uma grande liderança do movimento pelos direitos civis no sul dos EUA, realizou uma espécie de “análise do espectro de aliados”. Eles perceberam que tinham muitos aliados passivos que eram estudantes do norte do país: esses estudantes eram simpáticos à causa, mas não tinham uma porta de entrada no movimento. Eles não precisavam ser “educados” ou convencidos, eles precisavam ser convidados a entrar.

Para mudar esses aliados de “passivos” para “ativos”, o Comitê enviou alguns ônibus para o norte para trazer o pessoal para participar da campanha “Verão da Liberdade”. Os estudantes vieram em manadas, e muitos foram profundamente radicalizados no processo, testemunhando linchamentos, abusos de policiais violentos e multidões de brancos raivosos, tudo simplesmente pelo fato de ativistas negros tentarem votar.

Muitos escreveram cartas para seus pais, que de repente estabeleceram uma conexão pessoal com a luta. Isso disparou uma outra mudança: suas famílias se tornaram aliados passivos, muitas vezes trazendo junto seus colegas de trabalho e conexões sociais. Os estudantes, por sua vez, voltaram para a escola no outono e começaram a se organizar nos campi. Mais mudanças. O resultado: uma transformação profunda do horizonte político dos EUA. Vale ressaltar que esse efeito cascata na mudança de apoio não foi espontâneo: ele fez parte de um movimento estratégico deliberado que até hoje traz lições profundas para outros movimentos.

*Com a contribuição de Joshua Kahn Russel: mobilizador e estrategista que atua em movimentos por justiça social e equilíbrio ecológico. Ele trabalha com a 350.0rg e também é coordenador de ações, facilitador e treinador da Ruckus Society. [Versão em inglês do post].

Imagem: 1 (capa do Bela Baderna), 2 (ilustração de Joshua Kahn Russel).

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