Brega S/A encerra o ciclo “copy, right?”

dezembro 29th, 2009 § 5 Comentários

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No 3º e último dia do ciclo “copy, right?”, o Cineclube Lanterninha Aurélio e o BaixaCultura.org apresentam o filme “Brega S/A”, documentário dirigido por Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, finalizado em setembro deste ano. O filme  trata da surpreendente cena tecnobrega de Belém do Pará, um fenômeno cultural que nos últimos tempos tem atraído a atenção mundial por conta de sua inovadora estratégia de comercialização, onde a pirataria entra como mais um elemento parceiro na circulação do que um “inimigo” a ser eliminado. De Chris Anderson (em seu livro mais recente, “Free – O futuro dos preços“) à Ronaldo Lemos (autor de Tecnobrega – O Pará reiventando o negócio da música”, ao lado de Oona Casto”), passando ainda pelo documentário “Good Copy, Bad Copy” (o 1º exibido no ciclo), todos que tratam e/ou se interessam por música e/ou cultura livre no planeta estão procurando saber, afinal, que diabos tem no tecnobrega do Pará.

O filme teve sua estréia oficial na MTV Brasil no sábado 3 de fevereiro, às 24h, sendo que foi disponibilizado para download na página da produtora Greenvision, responsável pela realização do documentário, na segunda feira 5 de outubro. Segue um texto de apresentação do filme, que também pode ser encontrado no blog da produtora:

Criado em estúdios precários e improvisados e vendido ao grande público através de discos piratas e gravações caseiras, o tecnobrega é a trilha sonora oficial da periferia de Belém do Pará. A música das festas de aparelhagem, dos balneários populares, das feiras livres, dos bares e dos salões de dança de terra batida e teto de zinco. O som que define parte de uma cidade, o seu lado menos visível, mas nem por isso menos importante.

Como qualquer movimento cultural que nasce do underground para depois atingir as massas, o tecnobrega vive de acordo com as suas próprias regras. A principal delas, ser um estilo musical que se estabeleceu como segmento de mercado sem o apoio de grandes gravadoras, estações de rádio ou emissoras de televisão. Para vender sua música, nada do aparato comumente utilizado pela indústria do entretenimento, apenas as aparelhagens de som e os camelôs que vendem discos piratas no centro da cidade.

Dirigido por Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, “Brega S/A” é um documentário que pretende retratar esse peculiar fenômeno cultural e social através de personagens como DJ Maluquinho, que se auto-pirateia e enriquece sem precisar de empresário ou gravadora; Marcos Maderito, o “Garoto Alucinado”, que sobrevive de compor tecnobregas para as turmas e gangues de rua de Belém; Beto Metralha, que toca um programa de TV inteiro de um quarto nos fundos do quintal de sua casa; e os DJs Dinho, Ellysson e Juninho, as maiores estrelas do universo das aparelhagens paraenses.

A idéia inicial do filme surgiu no ano de 2003, quando Vladimir Cunha, um dos diretores do documentário, passou a se envolver com a cena tecnobrega e as festas de aparelhagem de Belém do Pará. Não só pela curiosidade em entender melhor a mutação sonora que levou à criação do gênero como também para compreender a relação entre o barateamento e a facilidade de acesso à tecnologia e essa nova cadeia de produção e distribuição que começava a se formar. Uma forma de fazer circular a produção artística local que, progressivamente, foi substituindo o modelo adotado pelas grande gravadoras.

Depois de quase três anos de pesquisa, somente em 2006 foram iniciadas as primeiras captações, que terminaram somente em junho de 2009. Sem leis de incentivo e renúncia fiscal, Vladimir e Gustavo Godinho passaram, com recursos próprios, a documentar o dia-a-dia de produtores, músicos e DJs ligados à cena tecnobrega paraense. Com isso, foi possível radiografar toda a cadeia produtiva do tecnobrega: das gravações em estúdios de fundo de quintal ao processo de distribuição através de pirateiros, camelôs e festas de aparelhagem“.

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Dê uma olhada no trailer aqui abaixo:


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“Brega S/A”, de Vladimir Cunha e Gustavo Godinho.

30/12, 19h, de graça

Cineclube Lanterninha Aurélio

Auditório do Centro Cultural Cesma, 3º andar, Professor Braga, nº55

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[Leonardo Foletto.]

Roube Este Filme I e II no ciclo copy, right?

dezembro 21st, 2009 § 6 Comentários

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Dando sequência ao  ciclo “copy, right?”, o BaixaCultura.org e o Cineclube Lanterninha Aurélio novamente  orgulhosamente apresentam os filmes “Roube Este Filme I” e “Roube Este Filme II”, dois capítulos-documentários sobre a complexa relação entre o compartilhamento de arquivos via web, a dita propriedade destes arquivos, e como a internet insere novas possibilidades que bagunçam tudo aquilo que pensávamos estar estruturado sobre direitos de autor, pirataria digital e formas de distribuição e circulação da cultura na sociedade. Ambos filmes são dirigidos pelo inglês Jamie King e produzidos pela misteriosa The League of Noble Peers, um grupo de produtores que pouco mais se sabe além do fato deles serem alemães e ingleses e terem produzidos as duas partes de “Roube Este Filme”.

[A liga parece ter um modo de atuação, digamos assim, parecido ao do coletivo italiano Wu Ming, especialmente no caso do autor-fantasma (ou coletivo) Luther Blisset, detalhado brilhantemente no livro Guerrilha Psíquica, da ótima coleção Baderna da Editora Conrad.  Saca a fala do grupo, presente no Roube Este Filme II: "People always ask us, who are The League of Noble Peers? And we tell them: You are, I am, even your bank manager is... insert yourself here, because we all produce information now, we all reproduce information, we all distribute it...]

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O primeiro Roube Este Filme (no original, Steal this film), lançado em 2006 via arquivo torrent na própria página oficial do documentário, tem como ponto central a forma como entidades de lobby, como a MPAA (Motion Picture of America, a associação dos grandes estúdios de cinema dos Estados Unidos), trabalharam sua influência sobre as autoridades na Suécia para causar um ataque ao Pirate Bay em maio de 2006, quando a empresa onde ficavam hospedados os servidores do site (o host) foi invadida por policiais e teve os seus computadores apreendidos. Para contar essa história em 32 minutos, os produtores entrevistaram desde os responsáveis pelo Pirate Bay até produtores e dirigentes da indústria do entretenimento, passando ainda por figurões de Hollywood (como o ator Richard Dreyfuss, autor de uma das falas mais lúcidas sobre a polêmica toda), membros do Partido Pirata Sueco e usuários de tecnologias de compartilhamento de arquivos.

Os que visitam essa página faz algum tempo devem se lembrar de que já falamos bastante do Roube Este Filme I num dos posts mais comentados e discutidos deste um pouco mais de um ano de BaixaCultura. Aliás, os que estão entrando agora também devem ver o banner que se encontra aqui do lado, que leva justamente ao já linkado post, que não está ali por acaso: nosso parceiro Edson fez a tradução das legendas do filme para o português e as disponibilizou, seja já sincronizada com o filme  e prontinho pra baixar, no Youtube dividido em quatro partes ou, ainda, só a legenda mesmo, em formato srt.

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Roube Este Filme II, lançado oficialmente em novembro de 2007 na conferência “The Oil of the 21st Century – Perspectives on Intellectual Property“, em Berlim, Alemanha,  além de ser um poquito mais longo (44 minutos) que o primeiro, vai mais além na discussão do contexto econômico/tecnológico/cultural que está diante das chamadas “copyrights wars”, as batalhas entre o livre compartilhamento de bens culturais e o repressão à estas práticas através da tentativa de endurecimento das leis de direitos autorais. Esta segunda parte traça também um paralelo entre o impacto da imprensa e o da Internet em termos de tornar a informação acessível para além de um grupo privilegiado de “controladores” da informação. O argumento central do filme é de que a natureza descentralizada da Internet faz com que a aplicação dos direitos de autor hoje seja praticamente impossível – pelo menos se considerar estes direitos tais como eles foram estabelecidos primeiramente no século XVI na Europa e como ainda hoje se configuram.

Segundo matéria do jornal britânico The Guardian, ambas partes de “Steal This Film” se inserem no coração de um estilo de documentário-manifesto, onde os cineastas praticam, em seu próprio filme, aquilo que defendem perante à sociedade. É por conta dessa estratégia que as duas partes estão disponíveis nos mais variados formatos para download na página oficial dos filmes, bem como as legendas em mais de 10 línguas, todas produzidas e enviadas espontaneamente pelo público mundo afora.

Dentre os diversos festivais que os dois documentários foram exibidos, destacam-se o Sheffield International Documentary Film 2008, na Inglaterra, Tampere Film Festiva 2008, na Finlândia, South By Southwest festival 2008, em Austin, nos Estados Unidos (este, um dos principais festivais de música e cultura alternativa do mundo) além de uma rumorosa exibição no International Documentary Film Festival em Amsterdã, Holanda, uma das raras ocasiões onde o diretor Jamie King falou sobre o filme e a The League of Noble Peers. Ambos os documentários também já foram exibidos em diversos canais estrangeiros, como o History Channel, Canal + Poland, TV 4 Sweden e o Noga, de Isreal.

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Chegou a vez do Lanterinha Aurélio exibí-los em Santa Maria, nesta quarta-feira 23 de dezembro, às 19h, no Auditório do Centro Cultural da Cesma, 3º andar. Apareçam, divulguem para os amigos aparecerem e bora lá!

[Leonardo Foletto.]

Primeiro dia do “copy, right?” (e algumas pensatas que surgem)

dezembro 14th, 2009 § 10 Comentários

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Com algum atraso,  tenho que dizer, em primeiro lugar, que o primeiro dia do ciclo “copy, right?” foi bastante produtivo. A presença do público foi satisfatória; compareceram entre 30 e 40 pessoas, sendo que 25 assinaram a ata de presença. Como a foto acima indica, não foi um público para encher o auditório do Centro Cultural da Cesma, mas dizem que a média do Cineclube costuma ser  nessa faixa de pessoas. A divulgação pela cidade foi abrangente, com direito a espaço nos dois jornais principais, e-mails para listas diversas e cartazinhos espalhados (pessoalmente) por alguns cantos do centro da cidade – muito embora tudo tenha sido feito com pouca antecedência.

Apresentado o ciclo, foi exibido “Good Copy, Bad Copy“, de 59 minutos de duração, seguido de alguns comentários meus e a abertura para o debate, como de praxe em cineclubes. Aí foi minha grande surpresa; debateu-se de verdade. E não apenas sobre o filme, mas sobre diversas questões que compõe o pano de fundo de Good Copy, Bad Copy, da neutralidade da rede até reações desproporcionais contra a dita “pirataria” digital como o Hadopi francês e a Lei Azeredo; da democratização cultural, agora possível (ou utópica?), até as dificuldades (ou potencialidades?) de um músico para sobreviver no variadíssimo cenário musical planetário de hoje; da apropriação (nefasta, diga-se) dos termos comunismo e socialismo na tentativa de entender o sistema da internet até o incrível modelo de negócio do tecnobrega do Pará, tema dos últimos 20 minutos do filme – provavelmente os vinte minutos que mais chamaram a atenção do público, um pouquinho a frente do exemplo da Indústria de Cinema da Nigéria (Nollywood), ambas criativas e orgulhosas formas de negócios  oriundas da periferia mundial e à margem da Grande e Poderosa Indústria do Entretenimento.

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[Para todos aqueles que quiserem saber mais sobre Nollywood, recomendo a reportagem "Cinema Noir", da Trip da janeiro deste ano. Da sacada do título à pauta criativa e antenada, passando pelo texto descolado (no bom sentido, veja bem) comum aos textos da revista, é um baita exemplo de reportagem bem feita, daquelas que bons pares de sapato são mais importantes do que horas em telefone, pra ficar numa metáfora ao gosto de Tchekov. Pros que querem saber mais sobre o tecnobrega do Pará, recomendo estarem presentes no terceiro dia (30/12) do ciclo para assistir "Brega S/A", ou lerem o bom Tecnobrega: o pará reiventando o negócio da música, de Ronaldo Lemos e Oona Casto, disponível também em pdf.]

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O debate final teve opiniões tão distintas quantos as idades dos debatedores, o que particularmente me agradou bastante, pois uma das ideias centrais do ciclo era justamente propor o debate sobre estes assuntos aqui por Santa Maria – e os filmes, nesse sentido, seriam propulsores dos questionamentos. Nas opiniões, pode-se notar que  a esperança de que a rede venha a democratizar a sociedade (e aí entram cultura, política, gostos e possibilidades criativas) convive com a expectativa de que mais essa oportunidade venha a passar, especialmente por ação da poderosa mão (invisível?) do mercado, que não admite perder o que conquistou durante os últimos séculos – e se inserem nesse guarda-chuva ações como as que visam combater a “pirataria” digital, algumas resultantes em leis que ferem frontalmente a dita neutralidade  original da rede. Apesar dos pesares, nota-se que a esperança continua sendo maior que a discrença, o que me fez resgatar um cético otimismo, quase esquecido nos últimos meses perante a maré tortuosa de más notícias.

Ao fim, o tempo de conversa/debate/discussão foi quase o mesmo que o da exibição do filme, no que eu agradeço muito às pessoas que estiveram presentes na quarta-feira passada.

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Dj DInho Tupinambá e sua trupe de fãs mirins nas ruas de Belém

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Mais do que qualquer outra coisa, ver “Good Copy, Bad Copy” novamente me fez querer pensar em mais e mais exemplos de alternativas à margens da Indústria. Casos como o do tecnobrega e o de Nollywood nos dizem muito, é certo, e funcionam bem porque essencialmente são pensados (ou foram pensados, mesmo que sem se dar conta disso) a partir das particularidades de uma dada região. Querer aplicar estes exemplos à realidade do planeta inteiro, como A alternativa a ser seguida por todos, é indício de fracasso; nestes relativíssimos tempos atuais, uma solução nunca é A solução se nela não forem consideradas as particularidades do lugar de onde se está pensando. É mais ou menos o que dizia Gil no final desse post, quando perguntado por músicos de uma banda paulista qual seria a saída para ganhar dinheiro com sua música: “O problema é que vocês querem que apareça outro modelo único, que não vai exigir esforço algum e te traga o sono de volta, dizia Gil, no que continuava ao afirmar que hoje é exigido que venhamos a pensar um modelo próprio para a necessidade de cada um, a partir das características da obra de cada um.

É nesse sentido que busco exemplos, de todos os lugares do mundo, que contenham as mais distintas características possíveis. É a experiência dessa diversidade de situações combinadas com a necessidade real e prática de um grupo de pessoas de um dado lugar que surgirão novos modelos à margens da dita Indústria do Entretenimento. Quanto mais exemplos melhor, pois é sinal de que estamos, de alguma forma, aceitando a provocação de Gil na busca de uma estratégia própria e criativa de vivermos de nossa arte. Além do que muitos, milhares e milhões de exemplos são um sinal efetivo da ruína da nefasta indústria que sustenta artistas montados em suas luxuosas, moribundas e preguiçosas fortunas,  o que, logicamente, é danado de bom, não?

 

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: Marcelo Cabala e Marcelo De Franceschi.
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