Pierre Levy e a ficção (real) científica
outubro 9th, 2009 § 2 Comentários
.

Falei da entrevista de Levy para a Folha na última postagem durante sua recente passagem pelo Brasil. Teve também uma para o G1, bastante extensa, e que na verdade é a transcrição daquela do vídeo, publicado no Globo Videos. E outra ainda em julho no Websinder, do Uol, bem curta, por e-mail. Dentre outros assuntos tratados nas entrevistas, Levy bate forte na tecla de que precisamos de uma grande revolução epistemológica; os dados estão no ciberespaço, mas em uma quantidade absurda. Então, o que necessitamos, diz o filósofo, é automatizar a exploração desses dados, de modo que possamos tirar um melhor proveito deles e, deste modo, construir um conhecimento verdadeiramente coletivo, aberto aos mais diferentes pontos de vista.
Resolvi pescar algumas respostas do tunisiano das três entrevistas e reproduzí-las aqui abaixo, com alguns comentários e acréscimos, tipo um remix:
Nepô – No passado você publicou vários livros e alcançou um importante papel em todo o mundo como filósofo voltado para a compreensão da área de tecnologia. Gostaria de saber se está trabalhando em um novo livro? E se sim, qual o tema?
Lévy – Nos últimos sete anos, tenho trabalhado em tempo integral na concepção de uma linguagem artificial chamada IEML que tem a capacidade expressiva de uma linguagem natural e a vantagem computacional de ser também uma linguagem de programação. Meu primeiro objetivo é resolver o problema da interoperabilidade semântica, através da IEML, como linguagem de importância central para tagueamento semântico.
Da entrevista do G1, que explica melhor o funcionamento do novo projeto do Levy:
“Digamos que, no curto prazo, há um problema relativamente pequeno, chamado de problema da operabilidade semântica. (..) Obviamente, hoje em dia, todos os documentos e todas as mensagens estão ligadas entre si pela internet, no ciberespaço. Então há uma interconectividade física por conta da internet. Mas ainda há uma divisão semântica, uma fragmentação entre esses documentos.
Essa fragmentação da informação existe, em primeiro lugar, por conta da existência natural de várias línguas. Se alguém escreve um blog em chinês, eu não consigo ler, você não consegue ler e os programas de tradução automática, como do Google, não são muito bons. Portanto, não há comunicação. Outro aspecto é que temos sistemas diferentes de classificação das informações. Os computadores podem usar um sistema de classificação, e se meu conteúdo é organizado por um sistema diferente, as coisas começam a ficar complicadas. E existem centenas de sistemas diferentes. Por exemplo, nas bibliotecas, você pode organizar os livros por disciplinas, por ano de publicação, por área geográfica de interesse, e por aí vai. Se em outra biblioteca a divisão é diferente, está feita a bagunça.
Os cientistas da computação criaram algo que é bastante poderoso, usado pela famosa “internet semântica”, que é chamado de “ontologia”. A “ontologia” é uma rede de conceitos na qual as relações entre um conceito e qualquer outro da própria “ontologia” é bem definido. Portanto, os computadores são capazes de raciocinar automaticamente sobre os conceitos da ontologia. Por exemplo, você está lendo um documento e identifica que ele trata sobre os conceitos “x”, “y” e “z”. Se você expressar essas idéias em uma ontologia, o computador é capaz de identificar que este documento está ligado a outros, e te ajudará a filtrar, navegar e expandir seu acesso a conhecimentos correlatos.
O problema é que há muitos sistemas diferentes de ontologias. Todo esse raciocínio automatizado, o uso de filtros e conexões, geralmente é restrito a uma área do conhecimento. E, às vezes, você esbarra em uma situação na qual em um mesmo domínio de informações há várias ontologias diferentes. Diferentes especialistas podem dividir as informações de formas nem sempre compatíveis. E, esse é essencialmente o problema de operabilidade semântica.
A linguagem que estou propondo pode ser traduzida para diferentes línguas naturais, e pode expressar classificações e ontologias de todas as áreas. Além disso, ela é criada originalmente de uma maneira na qual os computadores podem fazer várias operações utilizando esses termos. E não apenas operações lógicas, como raciocínio automatizado, mas também variações, rotações, conexões diferentes, como se uma expressão fosse um número. Desta forma, é possível fazer transformações geométricas com as informações em um espaço semântico. Essa é a idéia básica. (…) O que eu espero é que, utilizando essa linguagem, sejamos capazes de fazer traduções automáticas com muita facilidade. Ela funcionará como uma “chave” entre duas línguas naturais, e vai facilitar a navegação e a filtragem de informação, buscas e diversas operações que poderiam ser feitas automaticamente. No final, ela vai aumentar a colaboração entre estudantes e pesquisadores de disciplinas, culturas e línguas diferentes.

A bela Ottawa onde há sete anos Levy pesquisa a IEML
FOLHA – Quais os principais problemas no caminho da cibercultura?
LÉVY – Eu vejo dois principais problemas. Primeiro, a parte física da interconexão digital já está pronta ou estará em breve. Mas a interconexão semântica ainda é um grande problema: pessoas falam diferentes línguas, sistemas de classificação diferentes e possuem distintas experiências disciplinares e culturais. Eu acredito que precisamos uma metalíngua computável universal, que irá nos ajudar a traduzir, procurar, analisar e sintetizar informação de forma colaborativa e aberta. O segundo problema é a evolução de todo sistema de mídia, político e educacional. Se as pessoas continuarem a se prender à velha forma estática e centralizada de comunicação (isso inclui estruturas legais) algumas transformações serão muito dolorosas.
FOLHA – As tentativas de restringir a liberdade na internet terão êxito?
LÉVY – Eu não acredito que controles e restrições irão ter êxito. Há um movimento bem mais forte em direção à interconexão além de todas as fronteiras, liberdade de criação de comunidades e aumento das faculdades cognitivas coletivas e pessoais. A inteligência coletiva livre é a real plataforma do desenvolvimento humano e da prosperidade econômica, então todos possuem interesse em sua expansão irrestrita.
[Parêntese: Pierre Levy tem um livro que se chama "As tecnologias da inteligência", editado no Brasil em 1993 e disponível no Google Books. Nele, desenvolve a ideia de "inteligência coletiva", que de modo muito sucinto poderia se dizer que é um princípio onde as inteligências individuais são somadas e compartilhadas por toda a sociedade, potencializadas com o advento de novas tecnologias de comunicação. Esta inteligência coletiva possibilita a partilha da memória, da percepção, da imaginação, o que resulta na aprendizagem e troca de conhecimentos coletiva. Para melhor entendimento da questão favor ler o dito livro.]
G1 – O senhor afirma que o que estamos vivendo hoje em dia é uma revolução maior do que a que se seguiu à invenção da prensa tipográfica, e que estamos passando por um salto na produção e divulgação de conhecimento. Do ponto de vista da inteligência coletiva, o que fazem sistemas de organização de conteúdo como o Google já não é suficiente para organizar nossas ideias?
Lévy – Na verdade, são coisas diferentes. Mas há uma semelhança importante: o que algoritmo de organização do Google faz, o famoso “Pagerank”, é levar em conta a inteligência coletiva. Ele decide que um conteúdo é mais importante se tiver mais links levando a esse conteúdo, principalmente vindos de páginas igualmente relevantes, com mais links que levam a essa referência. (…)
Também estou tentando fazer isso. Mas de uma forma diferente. O algoritmo do Google é baseado principalmente em estatísticas. Portanto, é uma análise quantitativa.
[Acredito que todos tenham uma ideia de como funciona o sistema de Page Rank do Google. Mas vamos lá: O Google mantém uma lista de bilhões de páginas em ordem de importância; cada página tem sua importância na Internet como um todo. Essa importância se dá pelo número de votos que uma página recebe. Um voto é um link em qualquer lugar da Internet para aquela página. Votos de páginas mais importantes valem mais do que votos de páginas menos importantes, e quanto mais votos de páginas importantes mais importância essa página ganha no ranking do Google. Isso significa que mais facilmente ela é encontrada pelos buscadores, o que, por sua vez, coloca ela mais facilmente nos primeiros lugares quando uma determinada busca é realizada. A figura abaixo explica este o que acabei de explicar de maneira mais simples e engraçadinha.]

Eu não sou contra uma computação quantitativa, é claro, mas o que eu quero fazer é uma computação quantitativa em um espaço qualitativo. Talvez eu esteja enganado, e isso nunca aconteça, mas eu creio que se a humanidade realmente quer viver uma fase de crescimento do conhecimento – e, como você apontou, a grande revolução nas ciências naturais na Europa ocorreu após a invenção da prensa. Não foi a única causa, é claro, mas foi a base.
E eu estou convencido de que haverá, na próxima geração, uma nova revolução científica, mas não nas ciências naturais, mas nas ciências humanas. Hoje em dia, todos os dados sobre o comportamento humano podem ser reunidos no ciberespaço, o único problema é que ainda não temos a capacidade de explorar essas informações. E se não tivermos um sistema coordenado no espaço semântico, o espaço dos significados, não seremos capazes de viver essa revolução.
G1 – Como a indexação da inteligência coletiva pode mudar a maneira que lidamos com o conhecimento?
Lévy - Precisamos de uma grande revolução epistemológica. Os dados estão lá, mas em uma quantidade absurda. Portanto, não temos como explorá-los manualmente, lendo tudo, por exemplo. Precisamos, portanto, automatizar a exploração desses dados. Mas se, por exemplo, os dados estão escritos em 300 línguas diferentes, e estão indexadas em 250 metodologias diferentes, essa automatização não vai funcionar.Portanto, o que precisamos é de uma metalinguagem, que possa ser completamente manipulável por sistemas automáticos e, ao mesmo tempo, possa ser usada para expressar qualquer tipo de ideia, ponto de vista ou teoria. Se ela limitar a expressão de uma teoria, ou de uma interpretação, não serve. Pelo contrário: ela deve ajudar a aumentar a diversidade de pontos de vista. Talvez não seja a língua que eu criei que será a base dessa revolução científica, mas haverá algo nesses moldes. E eu acredito que devemos iniciar em breve as primeiras tentativas.
**

Participante do Arte.Mov de 2008, em Belo Horizonte
Alguns podem até achar que Levy está “viajando” em acreditar que e possível botar uma mínima ordem no caos informativo que é a web através da criação de uma linguagem que seja uma “chave” entre duas línguas naturais, como o próprio diz. Mas se formos analisar a situação com nosso olhar de céticos calejados em ficção científica, faz sentido e muito.
Lembro bem da época em que pela primeira vez tive acesso as teorias de Levy, ainda na faculdade, por volta de 2004, época pré web 2 ou 3 ou 4.0, onde as redes sociais não eram tão fortes como hoje, e os blogs estavam nos seus primeiros anos de seu “boom” ao redor do planeta. Nesta época, que parece que faz mais de vinte anos mas é somente há cinco anos atrás, ler Levy era, pra mim, como ler ficção científica: um monte de histórias profundamente filosóficas sobre um futuro nada palpável e muito utópico. Minha rala experiência (de tudo) na época potencializava ainda mais essa sensação de “ihhh, que viagem“, compartilhada pela maioria dos meus colegas. Achávamos Levy mais um daqueles teóricos “experientes” que se espantavam com o que para nós era banal e muito real e nada tinha de revolucionário. Não contente em se espantar, pensávamos nós, ele ainda queria viajar em cima, criar teorias sobre essa viagem e nos fazer acreditar que isso poderia ser real!
Mas não é que nem cinco anos depois tudo parece fazer mais sentido?
.
[Leonardo Foletto.]
Créditos imagens: 1, 2, 3, 4.Cibercultura em debate
outubro 6th, 2009 § 12 Comentários
.

.
Quinta e sexta feira da semana passada aconteceu em Santos, no bonito Teatro Guarany da foto acima, o seminário “Cibercultura 10+10“. A ideia do evento era propor um debate em torno dos dez anos que passaram desde a tradução para o português do clássico “Cibercultura” (disponível em PDF), do tunisiano Pierre Levy, e dos dez anos que estão por vir. Para o debate foram chamados nomes como Sérgio Amadeu, André Lemos, Laymert Garcia dos Santos, Gilberto Gil, José Murilo, Cláudio Prado, dentre outros que participaram virtualmente – além do autor do livro em questão, Pierre Levy, atualmente professor da cadeira de inteligência coletiva na Universidade de Ottawa, no Canadá, e membro da Sociedade Real do Canadá (Academia Canadense de Ciências e Humanidades).
No 1º dia, quinta-feira, teve a discussão propriamente dita em torno da cibercultura, os dez anos passados e os dez próximos, enquanto que o dia seguinte o foco foi a cultura do remix. A organização do evento montou uma oficina de remix audiovisual em cima da discografia de Gil, usando apenas softwares livres. O áudio e o vídeo do show do cantor estavam disponíveis para que o público remontasse as canções como quisessem. Quem fizesse upload com a hashtag #10mais10 entrava na seleção do material apresentado ao final do dia.

Gilberto Gil, Cláudio Prado, Laymert Garcia dos Santos e Pierre Levy.
Para quem, assim como eu, não teve a oportunidade de acompanhar o evento ao vivo, também transmitido para a web, existem ainda vários meios de retomar, discutir, observar e refletir sobre aquilo que esteve em pauta nos dois dias de debate do “Cibercultura10+10″. Pros mais detalhistas e curiosos, que não querem perder os comentários em tempo real, há a possibilidade de recuperar a íntegra do bate papo online que aconteceu no momento do evento, tanto do 1º quanto do 2º dia. Pros adoradores da divertida anarquia do twitter, dá para ver o que se tuitou a respeito a partir da hash tag #10mais10. Quem quer ir direto aos pontos nevrálgicos dos debates pode acompanhar as matérias geradas pelos jornalões paulistas Folha e Estadão, o primeiro com uma boa entrevista com Pierre Levy e o outro com dois posts no blog do Link, além de uma matéria padrão sobre o evento publicada no domingo.
Há outros caminhos para saber mais sobre os debates. Tem um post no blog do recém-nascido Partido Pirata do Brasil, o único que encontrei que traz um relato mais pormenorizado sobre o que aconteceu no primeiro dia de debate, com direito a explanação das ideias trabalhadas por Levy em sua apresentação; outro do Trezentos, que na minha modesta visão está pra lá de chapa branca, só exaltando a “beleza” do evento; um pequeno e simples relato no fórum Cultura Digital, que tem com grande mérito compilar parte do conteúdo produzido sobre o evento em outros locais; e um post simples mas completo no blog O Livreiro, que pesca algumas citações das matérias dos jornalões já citados e acrescenta um vídeo do Globo.com onde Levy apresenta o projeto no qual trabalha atualmente, o IEML, uma linguagem artificial que tem a capacidade expressiva de uma linguagem natural e a vantagem computacional de ser também uma linguagem de programação.
**

Para fechar: no segundo dia do evento, dedicado a discussão e prática da cultura do remix, teve um determinado momento da palestra, reproduzido pela matéria do Estadão, que músicos de Santos resolveram perder o medo e fizeram a pergunta-que-nao-quer-calar:
_ Muito bonita toda essa história de Creative Commons, mas como ganhar dinheiro?
Em resposta, Gilberto Gil:
“O problema é que vocês querem que apareça outro modelo único, que não vai exigir esforço algum e te traga o sono de volta. A digitalização não exige que toda obra de arte seja de graça, mas que um modelo próprio de comercialização seja criado para cada necessidade. A tendência atual é que pensemos não na propriedade, mas no comum, no compartilhado”.
Rá!
[Leonardo Foletto.]
P.s: No final de semana sai uma postagem mais detalhada sobre o que Pierre Levy andou dizendo nas entrevistas que deu por aqui.
Créditos imagens: 1,2, 3.Introdução ao copyleft
outubro 3rd, 2009 § 13 Comentários
.

Uma das obras mais importantes para se entender o que vem a ser copyleft se chama “Copyleft – Manual de Uso“, publicado pela editora espanhola Traficante de Sueños. Já falamos dela por aqui, mas o livro é essencial demais para que não nos atemos a ele em pelo menos um post, então bora lá: o manual é uma compilação de textos sobre o copyleft, tanto em relação a parte filosófica do assunto quanto a parte prática de aplicação das licenças compatíveis ao copyleft na distribuição/compartilhamento de música, audiovisual, livros, softwares e artes visuais.
Ele é organizado em nove partes:
0_ Introducción;
01_ Guía del Software Live;
02_Guía del Autor de música libre;
03_ El copyleft en el ámbito de la edición;
04_ Arte y copyleft;
05_ Licencias libres y creación audiovisual;
06_ El derecho es copyleft. O la libertad de copiar las leyes;
07_ Activismo copyleft. Liberar los códigos de la producción tecnopolítica.
08 _ Activismo copyleft: Liberar los códigos de la producción tecnopolítica.
sendo que seis são destinados a aplicação dos princípios nas mais diversas áreas do conhecimento, dois (últimos) são destinados a discussão política/filosófica do copyleft e o primeiro (Introdução) é uma introdução de toda a questão, obviamente.
A ideia da obra surgiu a partir de uma das Jornadas Kopyleft, realizada em San Sebastián (Espanha, País Basco) entre os dias 24 e 26 de junho de 2005 – as outras duas foram realizadas em Madrid e Barcelona, respectivamente. No evento, organizou-se um grupo para a edição de um guia que pudesser retratar “o estado da questão” do copyleft, tanto na questão prática quanto da filosófica, um tipo de compilação que, pelo que se sabe, ainda hoje não encontra paralelo em nenhuma outra língua ocidental. Como dito na Introdução,
“o afinco do grupo organizador na hora de pensar o objetivo do guia e o propósito de cada contribuição deu começo a um trabalho que se prolongou durante o primeiro semestre de 2006. Assim, graças a colaboração inestimável dos autores, que finalmente se arriscaram a escrever, foi-se compondo um índice viável para uma publicação que “só” pretendia retratar o “estado da questão” no que se refere ao copyleft e à produção intelectual.”
Deu-se assim a realização do manual, que teve sua publicação a cargo da editora espanhola Traficante de Sueños, que, conforme sua apresentação editorial, não é nem uma editora, “mas un proyecto, en el sentido estricto de «apuesta» que se dirige a cartografíar las líneas constituyentes de otros órdenes de vida”. Logo esgotado, o manual passou a ser acessível somente para download gratuito, em PDF.
**

.
Faz algum tempo que tenho a ideia de retomar a seção de traduções do BaixaCultura, parada desde abril deste ano com a postagem sobre o Roube Este Filme, e eis que surge a oportunidade. Ainda que o idioma do guia – o espanhol – seja de fácil leitura para boa parte dos nativos em língua portuguesa, fiz a tradução da primeira parte do livro, sua Introdução, por três motivos principais:
1) como forma de divulgação da obra para os países lusófonos, já que pode haver muitas pessoas que ainda não teve acesso ao manual que ao ler a introdução em seu idioma pode querer ir atrás do original;
2) para explicar um pouco da história do copyleft, desde a origem do termo à sua aplicação nos mais diferentes aspectos da criação intelectual, o que a introdução apresenta de forma bastante interessante, ainda que de forma sucinta; e
3) para, quem sabe, trazer para o debate a possibilidade de se fazer uma obra semelhante aqui no Brasil, com textos de autores brasileiros destacando algumas especificidades locais; ou, ainda, apenas traduzí-lo na íntegra, sempre tendo como objetivo que o manual circule nos mais diversos confins do Brasil e de outros países que tem o português como sua língua (oficial ou não-oficial).
Abaixo está o texto. Agradeço a coordenação editorial da Traficante de Sueños, que deu seu aval para a tradução em amável e-mail.
Introdução ao Copyleft*
Os editores de: Copyleft. Manual de Uso. Madrid; Traficante de Sueños, 2006.Tradução: Leonardo Feltrin Foletto
Já faz algum tempo que o termo copyleft saltou das margens do mundo da informática e se instalou em todos os âmbitos da produção intelectual. Ainda que relativamente desconhecido, torpemente pronunciado pelos iniciados, o copyleft se converteu na bandeira de um movimento cultural e político que reúne toda classe de criadores e trabalhadores intelectuais: músicos, escritores, programadores, artistas, editores, juristas, midialivristas e um longo etcétera que ameaça se instalar em cada rincão da sociedade.O termo provém de um engenhoso jogo de palavras em inglês, que parecia utilizar as artes do desvio situacionista para inverter e aproveitar a “insuspeita flexibilidade” da jurisdição anglo-saxônica do copyright. Destruindo com a ironia do original, poderia-se traduzir para o português o termo como “esquerda de cópia” ou “permitida a cópia”, ainda que sua primeira utilização esteja muito distante de ser um jogo de palavras.
No âmbito da programação [de computador], copyleft definia antes de mais nada um conceito jurídico. Assinalava que todo programa licenciado como software livre (aquele que está permitida a cópia, a modificação e a distribuição sem permissão) teria que permanecer sendo livre nas distribuições (modificadas ou não) do mesmo. O copyleft garantia assim que ninguém poderia se apropiar-se de um programa de software livre, pelo menos de acordo com a lei. Deste modo, parecia encarnar o slogan de 1968 de que “é proibido proibir”, e isso em um terreno tão impróprio como o campo jurídico!
De forma talvez abusiva, mas sem dúvida com uma efetividade social poucas vezes repetida, o copyleft passou para o terreno dos bens culturais para designar precisamente o que no software livre era uma obviedade: a garantia de certas liberdades do público, a partir da própria arquitetura das leis que reconhecem invariavelmente ao autor a possibilidade de escolher, com plena liberdade, o modelo de distribuição e exploração de suas obras. Estas liberdades são: de cópia, distribuição – comercial ou não-comercial (aspecto que para muitos é a condição imprescindível para considerar um bem cultural como livre) – modificação e geração de obra derivada.
Mas por que precisamente agora? Ao fim e ao cabo, sempre existiu criação intelectual e até bem pouco tempo atrás poderia parecer completamente bizarro falar de estas liberdades que o copyleft promete.Teríamos que dizer que o copyleft é produto de uma estranhíssima revolução tecnológica, que permitiu que os bens culturais e o conhecimento sejam independentes dos velhos formatos físicos, sendo distribuídos de forma potencialmente universal pelas redes telemáticas.
Esta quase completa “liberação da matéria” que permite a digitalização, e que em certa medida esconde a promessa de que todos podemos acessar a moderna Biblioteca de Alexandría desde o computador de nossas casas, tem sido considerada como a maior ameaça para os setores econômicos mais poderosos do nosso tempo: a indústria do software, as diferentes indústrias culturais, as indústrias de biotecnologias, etc. Sem dúvida, porque esta circulação aleatória e livre, que põe literalmente tudo ao alcance de todos, acabaria com os monopólios fixados estritamente pelas leis de propriedade intelectual e de propriedade industrial. Por isso, hoje somos testemunhas das criminosas campanhas anti-piratarias e das terríveis condenações por violação de direitos de autor, que em alguns países praticamente equipara este equívoco aos delitos contra a propriedade e a integridade física das pessoas.
Mas esta revolução que aqui chamamos de “digitalização” não somente facilita a distribuição de bens e conhecimento como, também, tem miniaturizado as tecnologias que permitem a sua produção. Assim dá-se o paradoxo que a condição de autor ou de autoria tem extendido pela sociedade, até o ponto de diluir as fronteiras entre criador e espectador, autor e público. Neste ponto, o copyleft deve vir ao socorro desta massa potencial de criadores. Deve permitir ao autor que suas obras (sempre baseadas em outras) nunca sejam apropriadas por novos monopolistas, de tal modo que sejam revertidas reciprocamente para a formação de um comum (alguns chamam de procomun) que se torne uma reserva infinita para futuras criações.
Cartazes de uma das jornadas kopyleft
Mas talvez deveriamos não avançar muito mais neste terreno. Ao fim e ao cabo, isto é só uma introdução para um guia. Um manual de uso que tem como propósito oferecer uma informação útil para a aplicação do copyleft. Somente se faz indispensável outra colocação.
O copyleft tem sido aplicado em âmbitos tão díspares como o software e a música, a edição de livros e o direito, a arte e o jornalismo. Cada âmbito da produção de uma obra intelectual tem suas próprias especificidades, que se devem a formas de produção e distribuição particulares que, inclusive, tem suas próprias legislações específicas no que diz respeito à propriedade intelectual. Não seria justo nem prático lançar todos os ingredientes da produção intelectual em um calderão de legislação, removê-los todos juntos – ainda que seja em sentido inverso ao convencional – e chamar a receita de copyleft. Cada âmbito diferente exige uma atenção própria, que deve se valer tanto das características específicas de cada área como de experiências e estratégias de implementação de licenças livres em cada compartilhamento da produção intelectual.
É por isso que este guia se organiza em capítulos monográficos dedicados inteiramente a cada área da produção intelectual: software, música, edição de textos, arte, video, direito. Como conclusão são acrescidos dois artigos que tem o propósito de desenvolver as dimensões políticas e éticas que aqui somente introduzimos. Quem visitar o índice deste guia sem dúvida encontrará alguns importantes personagens ausentes, como o jornalismo e a produção científica. No momento, só podemos dizer que esperamos solicitar a presença destes desaparecidos transitórios em futuras edições.
Por fim, num livro em que se fala principalmente das condições de produção e distribuição do conhecimento, é imperdoável não fazer uma menção ao que fez possível a edição deste guia. A ideia de um guia de copyleft tem sua origem nas Jornadas Kopyleft (terceira edição de uma série que começou em Madrid e Barcelona), que ocorreu em San Sebastián entre os dias 24 e 26 de junho de 2005. O afinco do grupo organizador na hora de pensar o objetivo do guia e o propósito de cada contribuição deu começo a um trabalho que se prolongou durante o primeiro semestre de 2006. Assim, graças a colaboração inestimável dos autores, que finalmente se arriscaram a escrever, foi-se compondo um índice viável para uma publicação que “só” pretendia retratar o “estado da questão” no que se refere ao copyleft e à produção intelectual. O patrocínio de Arteleku e UNIA-arteypensamiento, que financiaram uma parte considerável deste trabalho, e o seguimento e edição dos materiais por parte de Traficantes de Sueños fizeram o resto.
* Este texto pode ser livremente copiado, distribuído e apresentado publicamente, desde que haja o reconhecimento dos créditos aos autores e que ele seja compartilhado sob esta mesma licença.
.
[Leonardo Foletto.]
Créditos imagens: 1,2, 3.