Notas sobre copyright e copyleft (I)

janeiro 31st, 2009 § 2 Comentários

copyleft

Em novembro de 2005 os integrantes do coletivo Wu Ming selecionaram alguns trechos de entrevistas nunca publicadas e fragmentos de conversas pessoais e os organizaram em forma de texto. “Notas inéditas sobre copyright e copyleft” é o resultado disto, que você confere na íntegra e em inglês aqui, ou por aqui mesmo, na retomada das traduções do BaixaCultura. Originalmente o texto se divide em três partes, que serão publicadas em posts diferentes ao longo do fim de semana.

Neste primeiro post, o coletivo se opõe à lógica de defesa do copyright, segundo a qual não é possível conciliar acesso livre às obras e remuneração digna ao artista. Trata-se da parte mais simples do texto, um apanhado de exemplos e idéias disseminadas pelo grupo em diversas ocasiões, algumas bastante conhecidas e já debatidas por aqui. Destaque para dois pontos: a idéia de que obras intelectuais não devem ser apenas produtos do intelecto, mas produtoras de intelecto, verdadeiros estimulantes para um público nada passivo; e a de que o copyleft não é um movimento ou ideologia, mas um termo que abriga uma série de práticas, cenários e licenças comerciais diferentes.

No próximo post, continuamos com as duas partes restantes. Até lá, boa leitura.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Notas inéditas sobre copyright e copyleft

Wu Ming

Tradução: Reuben da Cunha Rocha

1. Os dois lados do falso dilema

Começando pelo fim: o copyleft surge da necessidade de unir duas demandas básicas; podemos dizer duas condições indispensáveis à convivência civil. Se deixássemos de lutar por essas duas necessidades, deixaríamos de sonhar com um mundo melhor.

Não há dúvida de que a cultura e o conhecimento devem circular o mais livremente possível, e de que o acesso às idéias deve ser direto, equânime e livre de discriminações de classe, censura ou nacionalidade. Obras intelectuais não são apenas produtos do intelecto, é preciso que elas também produzam intelecto, disseminem conceitos e idéias, fertilizem mentes de modo que novas formas de pensar e imaginar sejam passadas adiante. Esta é a primeira necessidade. A segunda é que o trabalho seja remunerado, o que inclui o esforço de artistas e narradores. Quem quer que produza arte ou narrativas tem o direito de sobreviver do seu trabalho, de modo não ofensivo à sua própria dignidade. Obviamente, esta é só a melhor das hipóteses.

É conservador acreditar que tais necessidades sejam como dois lados irreconciliáveis de um dilema. “Não dá pra fazer as duas coisas”, dizem os defensores do copyright como se fosse óbvio. Para eles, copiar livremente significa apenas ‘pirataria’, ‘roubo’, ‘plágio’ – e esqueça a remuneração do autor. Se o trabalho circula gratuitamente, menos cópias são vendidas e menos dinheiro ganha o autor. Um silogismo bizarro quando visto de perto. A lógica deveria ser outra: se o trabalho circula gratuitamente, as pessoas gostam e o divulgam, a reputação do autor se beneficia disso e sua influência na indústria cultural (e não apenas nela) cresce. É um ciclo de benefícios. Um autor respeitado é constantemente convidado a fazer apresentações (despesas reembolsadas) e conferências (pagas); ele é entrevistado pela mídia (sendo promovido); cargos acadêmicos (remunerados) são oferecidos; assessorias (remuneradas), cursos de escrita criativa (remunerados); ao autor se torna possível negociar condições mais vantajosas com editores. Como estas coisas poderiam prejudicar a venda de livros?

Vamos falar de música. Ela circula gratuitamente, ela chama a atenção das pessoas; quem quer que a tenha feito passa a ser conhecido, e se o autor souber explorar isto passa então a ter a oportunidade de se apresentar (remunerado) com maior frequência e em mais lugares, conhece mais pessoas e consequentemente tem mais apoio, se ‘construir um nome’ passará a ser convidado para compor trilhas sonoras (remuneradas), fazer festas como DJ (remunerado), trabalhos de design sonoro para eventos – pode até acabar dirigindo festivais (remunerados) etc. Se pensarmos nos artistas pop, podemos incluir o que se ganha com camisetas, vendas on-line etc.

Assim se resolve o ‘dilema’: as necessidades dos consumidores são respeitadas (eles têm acesso à obra), como o são as dos artistas (beneficiados artística e financeiramente) e as da indústria (editores, produtores etc.). O que aconteceu? Por que o velho raciocínio é tão facilmente desmascarado por estes exemplos? Por não levar em consideração a complexidade e a riqueza das redes, das trocas, do incessante boca a boca de um meio para outro, as oportunidades de diversificar a oferta, o fato de que o ‘retorno econômico’ do autor possui diversos níveis, inclusive alguns (aparentemente) tortuosos.

É graças a uma inabilidade para compreender tal complexidade que o setor cultural (especialmente a indústria da música) perdeu anos e anos de inovações. Novas oportunidades que foram encaradas como ameaças ao invés de desafios, e reações histéricas que foram dirigidas ao Napster e a tudo o que se seguiu. Isto começou a mudar quando Steve Jobs mostrou que era possível, mas nesse meio tempo uma guerra foi travada contra exércitos de clientes em potencial, cuja confiança foi perdida para sempre.

Anti-marketing.

Qual a última coisa que alguém que faz e vende música deveria fazer? Certamente criminalizar o público, processando quem os ama. Valeu a pena? Em nossa opinião, não. ‘Direitos do autor’ (cuidado para não levar esta frase semifraudulenta a sério) tais como os conhecemos são um grande freio para o mercado.

Por outro lado, o copyleft (que não é um movimento ou ideologia, mas um termo que abriga uma série de práticas, cenários e licenças comerciais) encarna o que se precisa para reformar e adaptar as leis autorais ao ‘desenvolvimento sustentável’. A ‘pirataria’ é endêmica, inevitável, uma maré que sobe empurrada pelo vento da inovação tecnológica. Obviamente, os poderosos da indústria do entretenimento podem continuar fingindo que nada está acontecendo, como a Casa Branca negando o Greenhouse Effect, o aquecimento global e as mudanças climáticas. Nos dois casos, os que negarem a realidade só podem ser varridos para longe. Se você está determinado a não ratificar o Protocolo de Kyoto, determinado a não investir na renovação das fontes de energia, determinado a não resolver os problemas ambientais, cedo ou tarde um furacão Katrina vai bater à sua porta.

O operário da Contra-Indústria

janeiro 28th, 2009 § 4 Comentários

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É difícil encontrar Makely Ka. Difícil saber onde ele está. Entre um email e outro, por exemplo, já o encontrei em BH, na Espanha, em São Paulo e no município de Milho Verde. A idéia de entrevistá-lo rondava minha cabeça praticamente desde que este blog nasceu, e tão logo pude escrevi pro piauiense radicado em Minas convidando-o para um papo via msn. Rolaram umas duas semanas de desencontros até decidirmos partir para uma opção menos divertida: fazer a entrevista por email. E lá se foram quase dois meses de espera até que as respostas dessem as caras na minha caixa de entrada. É que Makely nunca está parado, e com tantas andanças pelo espaço, não sobra muito pro tempo.

Poeta e músico de primeira grandeza (baixe 01 dos 04 discos aqui.), Makely também é um dos editores da Revista de Autofagia (duas edições lançadas e a terceira prometida pra fevereiro), mantém o Sêlo Editorial e a distribuidora Namarra, é sócio-fundador da SIM (Sociedade Independente da Música de Minas Gerais) e da ANAMBRA (Associação Nacional da Música Brasileira), e foi por duas vezes curador do Projeto Conexão Telemig Celular de Música – Novos Movimentos. Makely foi o primeiro músico atuante em Minas Gerais a conseguir na justiça o direito de exercer livremente a profissão sem a obrigatoriedade de filiação à OMB (Ordem dos Músicos do Brasil), e desde então trava uma batalha pública pela democratização da entidade. Não é por acaso que ele não poderia deixar de pintar por aqui. Makely é um dos praticantes mais convictos de uma das idéias mais relevantes do nosso atual panorama cultural: a da contra-indústria.

Trata-se de aprofundar a discussão em torno do que significa produção artística independente, a partir da constatação de que boa parte do que se vende sob o selo do “independente” é tão viciado nos truques e tiques da indústria cultural quanto qualquer nome de catálogo de grande gravadora. O que sugere a contra-indústria? Que o artista se envolva com todas as etapas da produção de seu trabalho, desde sua concepção até o formato final, ao invés de entregar alienadamente o processo nas mãos de intermediários. Em outras palavras, ser o músico e também produtor, e também gravadora. Escrever e também editar. Autogestão.

“Independente” é um termo meio vago e guarda algumas armadilhas. Eu mesmo caí numa delas quando conversei com Makely, encucado com fato de que um dos sujeitos mais combativos que conheço dentro deste cenário também dialoga frequentemente com o Estado. Ou, para falar mais justamente, com a esfera pública. Em 2006, Makely foi consultor da Área de Música da Lei Murilo Mendes em Juiz de Fora, e membro da CTAP (Comissão Técnica de Avaliação de Projetos) da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais. Hoje ele é representante do Fórum Permanente de Música de Minas Gerais na Câmara Setorial criada pelo Ministério da Cultura. Contraditório? Makely responde generosamente que não.

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Essa generosidade, bem mais que a falta de tempo, explica a demora na conclusão da entrevista. Makely foi extremamente cuidadoso com a questão, respondendo com a minúcia de quem conhece a fundo o assunto. Mãos à obra!

Ao lado de uma forte produção independente, há uma parte do teu trabalho que dialoga com o Estado, seja através das leis de incentivo (como a Revista de Autofagia), seja na tua atuação política. Não há conflito entre as duas coisas? Como é transitar entre as duas esferas?

Acho que neste caso, antes de entrarmos realmente na questão, talvez seja necessário tentarmos entender o que significa o termo “produção independente” nos dias atuais.  Eu particularmente prefiro usar o termo contra-indústria, que vem sendo disseminado em alguns meios – principalmente na internet – há alguns anos.

Acredito que o histórico do termo contra-indústria localize a resposta à sua pergunta dentro de um contexto bastante elucidativo por si só. Bom, cerca de três anos atrás, quando foram formadas as câmaras setoriais convocadas pelo Ministério da Cultura houve a necessidade de formatação de um projeto de política pública para a área da música; uma área que historicamente sempre esteve atrelada aos interesses das grandes corporações fonográficas que se instalaram no país e dominaram o mercado nas últimas cinco décadas. Naquelas reuniões, que aconteceram no prédio da Funarte, no Rio de Janeiro, estavam presentes representantes do governo (MinC, Ministério do Trabalho, Planejamento, Educação, OMB, etc), da iniciativa privada (ABPD, ABERT, ABEM, ECAD, etc) e representantes da sociedade civil organizada em fóruns de discussão(17 estados enviaram seus representantes). Durante aqueles meses de discussão inédita, percebemos a necessidade de demarcarmos nossas diferenças de forma mais contundente e, por sugestão do compositor Antônio Adolfo, do mítico álbum Feito em Casa (1977), adotamos a alcunha de autoprodutores. É bom lembrar também que foi a partir daquele momento que o termo “cadeia produtiva da música” passou a fazer parte do vocabulário corrente de músicos, produtores e jornalistas, às vezes deslocado ou mesmo sem um entendimento total do seu significado. A cadeia efetivamente envolve todos os elos, ou nós, do mercado da música, desde a criação, ou ainda antes, a formação, até o consumidor. Mas nossa atuação até o momento se concentrava nos dois ou três primeiros elos, ou seja, os nós da veiculação, distribuição e consumo até então não conseguíamos desatar. Nos demos conta então que muitas vezes, éramos nossos próprios consumidores, daí o caráter autofágico do termo.

Mas mais importante do que a conceituação da cadeia produtiva, que serve para ilustrar o modo de produção que herdamos da grande indústria fonográfica, talvez seja perceber a mudança de paradigma operado a partir da última década do século passado.

Ora, até meados de 1877, ano da invenção do fonógrafo pelo norte-americano Thomas Edson, a única forma de armazenamento de música era a memória. E foi assim nos últimos cinqüenta mil anos pelo menos, quando se tem notícia das primeiras tentativas do homem organizar o sons e os silêncios no tempo, imitando o que ouvia na natureza. Quando esses sons começaram a ser registrados nos discos de cera podemos dizer que foi o prenúncio de uma mudança radical na nossa forma de armazenar – e ouvir – música. De lá pra cá a coisa andou muito rápido e em menos de cinqüenta anos estava consolidado o que conhecemos hoje como Indústria Fonográfica. Essa grande indústria que surgiu e se firmou no rastro do capitalismo galopante do século XX, incorporou como poucas alguns preceitos básicos da Revolução Industrial, como a utilização de tecnologia de ponta e a reprodução em série.

Consta que Cornélio Pires foi um dos primeiros artistas a gravar de forma autônoma no país, já que teve de bancar, ele próprio, a sua famosa série de discos, a partir de 1929. Antes dele porém houve a fantástica iniciativa de Chiquinha Gonzaga e seu marido, que entre 1920 e 1922 mantiveram uma gravadora autônoma. Já na década de setenta houve iniciativas como a do próprio Antônio Adolfo e seu já citado “Feito em Casa”. Mas se foram todas essas iniciativas louváveis, pelo pioneirismo e pelo teor contestatório que traziam, foram também isoladas e amadoras, a ponto de não conseguirem se auto-sustentar como alternativa viável às grandes corporações.

Somente nos anos 90 foi possível dar um salto nesse sentido. Pela primeira vez na história da indústria os meios de produção começaram a se tornar acessíveis a uma parcela considerável da população, não somente aos donos do capital. Não a todos é verdade, mas àqueles que dispunha de um computador e uma conexão com a internet. Por mais excludente que ainda fosse, tínhamos dado um salto; não era mais necessário um grande parque industrial para produzir um disco, um livro ou mesmo um filme com qualidade compatível ao dos produtos da grande indústria.

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Há de fato um elemento artesanal na forma de trabalho desses autoprodutores. Mas o termo contra-indústria não se refere exclusivamente a esse aspecto. A grande mudança de paradigma diz respeito à mudança de procedimento num dos pilares que pautaram o desenvolvimento econômico do capital desde a revolução industrial: a especialização. A compartimentalização dos saberes e a ultra-especialização das atividades tornou-se a tônica da grande indústria, levada às últimas conseqüências com o fordismo e replicada nos mais diversos ramos do conhecimento, inclusive nas academias. Da escolástica com pretensões universalizantes chegamos à mediocridade dos MBAs e pós-graduações em especialização. Com a indústria da música não foi diferente, a esquizofrenia se instaurou no seio das grandes coroprações, onde o departamento de criação não dizia respeito ao departamento de vendas que não se comunicava com o departamento de comunicação e assim sucessivamente. A grande indústria foi à bancarrota.

O filósofo inglês Thomas Kuhn, em seu livro “Estrutura das Revoluções Científicas” afirmava que nos momentos de crise há uma proliferação de novos paradigmas que competem entre si tratando de impor-se como o enfoque mais adequado. É quando se produz uma revolução e um dos novos paradigmas substitui ao paradigma tradicional. A cada revolução o ciclo inicia de novo e o paradigma que foi instaurado dá origem a um novo processo de ciência normal. Nesses momentos é fundamental uma nova terminologia, para dar conta dos novos conceitos. Com alguns ajustes podemos adaptar o mesmo esquema para pensarmos a revolução ora em curso no interior da Indústria Cultural.

O autoprodutor é o não-especialista por definição. Ele compõe, produz, divulga, distribui e consome, não necessariamente nessa ordem. A necessidade premente em desatar tantos nós quanto possíveis da ‘cadeia’ fizeram dele um profissional genérico que levou às últimas conseqüências a máxima anarquista “faça-você-mesmo”! O que quero dizer é que o autoprodutor é o operário da Contra-indústria! A negatividade implícita no termo significa menos a transformação vertiginosa dos aspectos técnico-formais do que a recusa do modelo consolidado de divisão do trabalho e atribuição de tarefas no sistema de produção em escala industrial. Essa é a principal mudança paradigmática que trás a reboque todas as outras. A Contra-indústria se impõe portanto como um novo modelo de divisão de trabalho sem no entanto abrir mão dos avanços tecnológicos e das conquistas e soluções encontradas pela própria indústria. Essa nova divisão do trabalho se estrutura em redes colaborativas onde a gestão das atividades é individual, orgânica e ao mesmo tempo coletiva. Contra-indústria é, no plano sintático, um oxímoro, mas a contradição dos termos é apenas aparente e perdura até o momento em que se percebe que ela se constitui na verdade como uma síntese dialética da revolução industrial. A idéia de redes e de rizoma aqui torna-se fundamental para compreender a forma como se dá o processo de produção contra-industrial.

Indústria Cultural, o termo sexagenário criado por Adorno no livro Dialética do Esclarecimento, escrito a quatro mãos com Horkheimer e publicado em 1947, adquire assim um novo significado dentro de uma perspectiva dialética da história da produção e do consumo de arte. Aquele foi o momento de identificação do surgimento de um fenômeno em escala mundial que se consolidaria nos anos 60 e 70, atingiria o ápice nos 80 e entraria em franco declínio a partir de meados da década de noventa do século passado.

Voltando à sua pergunta a partir dessa perspectiva, não vejo contradição porque a produção contra-industrial (independente?) não é uma esfera privada. Talvez ela esteja exatamente neste espaço indefinido entre o público e o privado. Porque se considerarmos que as leis surgiram a partir da organização da sociedade civil, que são um direito conquistado e, no entanto envolvem uma parcela de dinheiro privado, ainda que seja um imposto deduzido, encontramos um certo equilíbrio instável nessa relação. O fiel da balança aqui vai depender da forma como esse dinheiro é gerido, quais os mecanismos regulam essas ações e quais critérios são utilizados na aprovação dos projetos e como eles são realizados.

Nesse sentido, o apoio das leis de incentivo é uma forma legítima de produção contra-industrial, uma vez que permite aos criadores total autonomia criativa e parte do princípio de que o investimento em cultura por parte do estado é um dever constitucional tanto quanto a segurança ou a saúde por exemplo. Mas estamos tão acostumados ao modo de produção privado nesse setor, que muitos têm a impressão de que não é correto usar o dinheiro das leis de incentivo para produzir um espetáculo, editar um livro, realizar um show. Essa é uma visão conservadora, que sustenta a idéia equivocada de que o artista pertence a uma elite intelectual na qual seria vergonhoso investir dinheiro público. Poucos defensores dessa idéia, entretanto, seriam contra a construção de hospitais e postos de saúde para o atendimento da população, ou ainda ao investimento em segurança, com a compra de equipamentos e treinamento da força policial. É que estamos acostumados a pensar que o acesso à cultura é um privilégio – e muitas vezes efetivamente é – mas não deveria ser.

A contra-indústria é uma alternativa pra quem não “conseguiu entrar na indústria” ou é uma alternativa ao modelo de indústria?

Penso que a contra-indústria, dentro do que foi dito acima, seja uma alternativa ao modelo de produção industrial estabelecido. Quem trabalha na perspectiva de trampolim está equivocado e pode invariavelmente se frustrar, porque a realidade cada vez menos corresponde às suas expectativas.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Fotos: Divulgação.

Campus Parte Final

janeiro 27th, 2009 § Deixe um comentário

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Eu prometi no post de sexta falar dos eventos dos dias finais da Campus Party 2009, especialmente do acalorado debate sobre a questão do futuro da internet no Brasil. Mas acontece que a canseira bateu, em todos os sentidos, e me senti obrigado a encarar dois dias sem internet para poder digerir melhor tudo aquilo que vi e ouvi pelo Imigrantes, até para fazer um balanço final da coisa toda.

Para começar: apesar dos pesares, não posso deixar de fazer um balanço mais positivo que negativo do evento. A programação da área Campus Blog, que acompanhei mais de perto, esteve na maior parte do tempo bastante interessante, com temas e convidados que tinham o que dizer sobre aquilo que estavam dizendo. Noutros momentos, não esteve tão boa, mas aí porque certos convidados – ou certos assuntos, ao meu ver – não renderam, o que é normal num evento de 5 dias com no mínimo 3 palestras a cada dia. Tudo bem que a superficialidade foi a tônica das palestras, mas creio que ninguém esperava muito mais que isso por ali.

Protestos no debate sobre a questão da Lei Azeredo

Protestos no debate sobre a questão da Lei Azeredo

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Sei que a maioria dos blogueiros que estava lá saiu reclamando de muitos problemas dessa edição, a começar pela presença gigantesca dos patrocinadores e pelas diversas falhas com a acústica de cada uma das áreas, já que falas de algumas áreas eram invadidas por outras com mais constância do que deveriam. Mas eu entendo que a maioria dos blogueiros é reclamona por demais, o que, afinal de contas, não é problema deles: simplesmente é muito mais fácil, para qualquer ser humano, apontar mais defeitos do que qualidades, descontinuidades do que continuidades.

A maioria dos problemas da #cparty, ao meu ver, decorreu do enorme tamanho que o evento adquiriu – muito maior do que a maioria dos presentes gostaria, é bem verdade, embora esses mesmos tenham adorado os diversos pontos positivos que só um evento dessa magnitude traz, a começar pela presença dos “notáveis” em sua programação. Se a segurança não foi 100% eficiente, já que a organização constou um notebook roubado, pode-se dizer que ela foi boa, porque, afinal de contas, um notebook roubado em meio a 4000 é uma média até aceitável num Brasil como o nosso. Se a acústica não foi boa, já que havia palestras simultâneas em 13 palcos muito próximos uns dos outros, como melhorar isso sem perder a liberdade de acesso de um palco a outro, e a interação inédita que isso proporcionava, que, penso eu, faz parte do espírito anárquico que permeia o evento?

Coelhinhas da Playboy, atrativos femininos para a nerdzada

Coelhinhas da Playboy, atrativos femininos para a nerdzada

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Disse Juca Kfouri, em uma entrevista no sábado, que este ano a Campus party estava muito “Salão do Automóvel” , algo que não foi ano passado,  sendo que ela não pode ser um Salão do Automóvel, principalmente pela natureza anárquica e nada hierárquica/ostentantiva que o evento tem como aspecto fundamental.

Acredito que um evento da magnitude da Campus Party 2009 só se diferenciará dum “Salão do Automóvel” quando houver uma participação genuinamente colaborativa entre seus participantes, e aí entra incluso a arrecadação para custear a coisa toda. Como isso é pouco provável – pelo evidente nível de organização que isso demandaria, e que ainda não estamos preparados para atingir -  a #cparty só continuará existindo  – e crescendo a cada ano – enquanto a parceria com as empresas privadas patrocinadoras do evento continuar existindo.

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Heresia dizer isso? Mas é verdade, sejamos sinceros. Porque hoje não há como montar uma estrutura daquele tamanho sem um dinheirinho bom das malvadas patrocinadoras do evento. E se a tendência do evento é crescer ainda mais nas próximas edições, é certo que teremos de lidar com ainda mais $$ das Telefonicas da vida.

Em tempo: O caderno Link, do Estadão, fez uma lista dos pontos positivos e negativos desta edição do evento. E também fez o seu balanço do evento, bem mais crítico do que o meu.

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Como esse post é para encerrar de vez o tema Campus Party, fiz uma seleção de vídeos que dão uma boa noção do que aconteceu no Imigrantes durante a semana passada:

1) Abertura,  com direito a discurso ufanista de Marcelo Branco, o organizador-chefe do evento;

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2) A Vingança dos Nerds; a manifestação da cambada nerd contra o show da banda Leme, capitaneada pelo rapper carioca De Leve, desde já um dos grandes momentos da Campus Party;

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3) Competição de robôs Lego, em vídeo feito pelo blog do IDG Now na Campus Party.

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4) Parte da Dança do Ventre que relatei no post Causos da Campus Party, por Luana Hazine, que foi ajudada pelo post, segundo comentário seu no mesmo.

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5) Debate sobre o substitutivo de lei proposto pelo senador Azeredo, no momento da explanação de José Henrique Portugal, representando o senador juntamente com o Desembargador mineiro Fernando Botelho, enquanto Sérgio Amadeu e Ronaldo Lemos, no lado esquerdo do vídeo, preparam seus argumentos para a réplica;

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6) Show de um grupo de Maracatú (penso eu) de Campinas, um dos momentos mais interessantes do evento por justamente não fazer parte do imaginário da maioria das pessoas que estavam por ali. A energia presente no momento foi algo inexplicável, bonito de se ver e sentir.

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7) A “dança das cadeiras” promovida pelos campuseiros na sexta à noite, totalmente sem sentido ou explicação. É aquela coisa: um resolveu fazer uma “ola”, outros foram atrás, e quando se vê….

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[Leonardo Foletto, enviado especial e conclusivo a São Paulo]

Créditos Fotos: 1 e 2,  Flickr de Tuca Hernandes; 3 e 4 do Flickr oficial do evento.

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