O escritor coletivo

dezembro 23rd, 2008 § 5 Comentários

"Não somos animais fotográficos"

Wu Ming: "Não somos animais fotográficos"

A arte como bem comum e não privilégio do artista, o artista como integrante da lógica coletiva do conhecimento e não uma celebridade, estes princípios arcaicos orientam as ações de vanguarda do coletivo italiano Wu Ming.

Só não confunda vanguarda com vanguarda. Nada de experimentalismos de linguagem ou radicais ideais estéticos – não é esta a natureza do pioneirismo do Wu Ming [expressão chinesa que significa 'sem nome']. Não a velha luta para ‘expandir os limites da linguagem’, o ramerrão do século 20 inteiro, mas a luta pelo uso coletivo do saber – desde sua produção até o seu uso. Há 12 anos os integrantes do coletivo [conhecido, até 1999 e com outra formação, como Luther Blissett Project] militam sob a sigla do copyleft, e há 14, pela desglamourização do artista.

Partimos do reconhecimento da gênese social do saber. Ninguém tem idéias que não tenham sido direta ou indiretamente influenciadas por suas relações sociais, pela comunidade de que faz parte etc. e então se a gênese é social também o uso deve permancer tal qual.

As práticas do Wu Ming [expressão chinesa que também significa 'cinco nomes', a depender da entonação com que se fala] contra a lógica da cultura oficial – monetarista, individualista, apoiada no mito da celebridade e do gênio criador, este personagem não exatamente falso, mas que serve de fundo ideológico pro ideal de originalidade que sustenta a indústria do copyright – ocorrem em várias frentes. Não apenas os livros do grupo podem ser oficial e gratuitamente baixados e livremente copiados [alguns em português, e mais alguns, mas nem todos], como os 05 integrantes do coletivo trabalham de fato coletivamente, assinando como grupo a autoria de vários de seus livros. Entre eles está o romance Q – O caçador de hereges, que desafia o argumento de que a pirataria mata o artista de fome, disponível pra download há vários anos e em várias línguas e ainda assim um best seller.

Mesmo os trabalhos individuais trazem a marca do grupo. O belo romance (“objeto narrativo não-identificado”, como prefere o autor) New Thing, recém-lançado no Brasil pela editora Conrad, é assinado por Wu Ming 1, mas a voz continua coletiva: o livro imita a edição de documentário, e toda a narrativa se desenrola através dos depoimentos dos personagens, apenas editados por um invisível diretor. Além disso, esta que seria uma espécie de narrativa policial (misteriosos assassinatos envolvendo músicos de jazz ocorrem na New York dos anos 60) traz toda a discussão em torno da cultura livre, desde o método da colagem até a tecnologia P2P.

A recém-lançada edição brasileira

A recém-lançada edição brasileira

A identidade do autor não é um segredo, e nem a de seus pares. Wu Ming 1 nasceu Roberto Bui – Wu Ming 2 é Giovanni Cattabriga, Wu Ming 3 é Luca de Meo, Wu Ming 4 é Federico Guglielmi e Wu Ming 5, Riccardo Pedrini. O coletivo contra-explica: “quem, ainda hoje, continua dizendo frases do tipo: ‘os 5 escritores que se escondem por trás do pseudônimo coletivo ‘Wu Ming” ou ‘que sentido faz não assinarem seus verdadeiros nomes, se na realidade todos sabem como eles se chamam?’ está convidado a efetuar as seguintes substituições: ’97′ no lugar de ’5′; ‘músicos’ no lugar de ‘escritores’; ‘London Symphony Orchestra’ no lugar de ‘Wu Ming’”. Tá bom assim?

No site do Wu Ming [na China, uma assinatura bastante comum entre os dissidentes que lutam por democracia e liberdade de expressão], como era de se esperar, há (além dos livros) diversos textos disponíveis pra download. A grata surpresa está aqui, vários desses textos disponíveis em português. Além das várias colaborações e entrevistas concedidas à imprensa brasileira [alguns integrantes do coletivo já estiveram por aqui, envolvidos em atividades que vão desde lançamentos de livros até palestras sobre cultura livre], vale a pena conferir o histórico de curiosas atividades do grupo e os diversos textos sobre copyleft, de onde foram extraídas as citações-links desta matéria.

Nós começamos a lidar com esses assuntos bem antes do Creative Commons existir. A maioria de nós esteve envolvida com pós-punk anti-copyright e a cultura do faça-você-mesmo desde o início dos anos 90. O Luther Blissett Project foi fortemente influenciado por ‘mail art’ e pelo underground pós-punk/noise/eletrônico, gente como Negativland etc. Esse tipo de cultura já tinha desenvolvido uma crítica radical ao copyright como o conhecemos. Como resultado, o Luther Blissett nasceu com esse tipo de atitude. Todos os nossos trabalhos (livros, música e todo tipo de coisa) eram sem copyright. Em 1996 começamos a usar uma licença copyleft.

A literatura do Wu Ming é vigorosa e renovada, e sempre aponta para novas possibilidades narrativas – estou lhe dizendo, New Thing é uma das coisas mais bonitas que já li. Há uma boa dose de gratificação em ver um grupo de artistas tão excelente dedicar-se a outras coisas além de sua própria arte e como-viver-dela. Coisas, arrisque-se dizer contra os ideólogos do ‘a-vida-passa-só-a-obra-permanece’, maiores. Condições mais democráticas e não-exclusivistas de fazer e curtir cultura, por exemplo. Um contexto outro, em que os grandes livros fiquem ainda melhores.

“A propriedade intelectual (copyrights, marcas registradas, patentes etc) se tornou um monstro em todos os campos do conhecimento. Algumas corporações detêm até o DNA de certos seres humanos. Plantas que sempre existiram e sempre serviram de alimento para a humanidade estão sendo patenteadas por bastardos gananciosos e se tornando propriedade privada, e então eles podem revendê-la exatamente para as mesmas pessoas que costumavam plantá-las, cultivá-las e comê-las. Falando estritamente de arte e literatura, os termos de prazos do copyright estão sendo ampliados de uma maneira sem precedentes. Há cem anos, o copyright durava 12 anos, agora ele dura 70 anos após a morte do autor, e alguns filhos da puta estão fazendo lobby nos parlamentos para estendê-lo por mais vinte anos! O copyright se tornou uma coisa parasitária. Você se lembra de “About a Boy”, do Nick Hornby? O personagem principal é um cara rico e mimado que não tem nenhum interesse real na vida, ele é cheio da grana e vive uma vida ociosa no West End de Londres. Por que? Porque o pai dele escreveu uma famosa música de Natal, ele herdou o copyright e ganha a vida com as execuções públicas, todos os natais. Parece divertido, mas existe toda uma classe de parasitas vivendo desse jeito, eles não têm mérito, não têm habilidades, não têm talento, não têm inteligência, mas eles são absurdamente ricos! É patético e nojento e nós queremos ser parte de uma ofensiva que irá chutar esses caras para fora de suas mansões e os forçar a arrumar um emprego de verdade, pelo amor de Deus!”

[Reuben da Cunha Rocha.]

Publicações disponibilizam acervo digitalizado

dezembro 21st, 2008 § 4 Comentários

A liberação dos arquivos de revistas/jornais está mesmo se alastrando. Falamos aqui do arquivo fotográfico da Life, e hoje voltamos ao assunto graças ao anúncio da disponibilização de todo o arquivo da revista Veja, desde 11/09/1968, data da primeira edição. O esquema para visualizar as edições é simples e intuitivo, apesar de ainda um pouco lento. Dá para ver desde a primeira edição até a da semana passada.

Procurando um pouquinho, nota-se que há outras iniciativas semelhantes interessantes. Um dos principais jornais da Espanha, o La Vanguardia, editado em Barcelona, está com sua hemeretoca aberta desde outubro, o que significa que podemos ver todas as edições do jornal desde a sua fundação, em 1881. Outro dos grandes jornais da Espanha, o El País, também disponibiliza seu arquivo – desde 1976 – gratuitamente.

Na Inglaterra, o jornal The Times disponibiliza online 200 anos de seu acervo: de 1785 a 1985 (a não ser entre dezembro de 1978 e novembro de 1979, período em que o jornal não circulou). O acesso aos 20 milhões de artigos e cerca de 35 milhões de imagens é gratuito, mas exige que o leitor se cadastre. Nos EUA, a revista Popular Science, publicada entre 1870 e dezembro de 2006, colocou todas as suas edições para consulta aqui, via Google Books. Além das matérias, aqui se destacam as hilárias propagandas de produtos  hoje (bem) ultrapassados, como essa vitrola aqui abaixo:

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Voltando ao Brasil. O tradicional Roda Viva tem seu arquivo aberto através do projeto “Memória Roda Viva“. Não tem programa no país que tenha recebido mais entrevistados ilustres que este. Para ficar só em alguns nomes,  já passaram por lá Adolfo Bioy Casares, Pedro Almodóvar, Anthony Giddens, Darcy Ribeiro, Fidel Castro, Noam Chonsky, Edgar Morin, Pierre Lévy, Manuel Castells, dentre inúmeros outros.

Há passos mais lentos, é o que também faz o jornalista Sandro Fortunato, criador do Memória Viva. O site não é especialista em memória da mídia, mas é possível encontrar conteúdo de publicações históricas, como da revista O Cruzeiro.

Segundo esta notícia, Fortunato estava com tudo pronto para trabalhar na disponibilização do acervo do Pasquim. Como se trata de uma notícia de 2006, é possível supor [entramos em contato para sanar a dúvida, mas não obtivemos resposta] que o jornalista tenha desistido ou que tenha sido impedido quando, no mesmo ano, foi publicado o primeiro volume da Antologia O Pasquim. Que, aliás, não é exatamente um livro barato, além de tratar-se de um arquivo de memória editado na fonte, e não pelo leitor, como é o caso das iniciativas online e uma de suas vantagens.

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O jornalismo brasileiro costuma cultivar uma postura romântica em relação ao seu próprio passado. Não é raro, embora nem sempre seja fato, ouvir que esta ou aquela revista era melhor nos primeiros anos, ou que certas épocas abrigaram experiências jornalísticas jamais repetidas [como o Pasquim dos anos de chumbo], ou que o jornalista não é mais o que costumava ser, e tal. Sem aprofundar o mérito da reclamação, trata-se de um contexto excelente para esse tipo de iniciativa – seja para que novos profissionais aprendam com melhores épocas, seja para que se perceba o quanto de folclore há na nostalgia.

[Leonardo Foletto e Reuben da Cunha Rocha]

A ilusão da propriedade intelectual

dezembro 19th, 2008 § 1 Comentário

Tai uma coisa dificil de ver. Um rico tendo problemas com a lei.

Taí uma coisa difícil de ver. Um rico tendo problemas com a lei.

Em certo post eu citei um escrito do Túlio Vianna para falar sobre a criminalização da pirataria. O texto trata mais precisamente do conceito de “propriedade intelectual” que, adotado por nosso país, tenta fundamentar o exercício do copyright como algo benéfico e inquestionável. Mas, como o Túlio demonstra, há uma série de equívocos envolvendo a privatização, quantificação e coisificação do trabalho intelectual e é com base em sua explanação que eu vou falar brevemente sobre esta prática jurídica bem cara-de-pau.

Você certamente é proprietário de alguma coisa. O mundo é cheio de coisinhas para chamarmos de nossas: roupas, celulares, computadores, carros, etc. É tudo propriedade privada, com a qual o dono ou proprietário pode fazer o que bem entender. Mas o que determina o que é propriedade privada ou não? Se observarmos como essa história toda começou, veremos que as primeiras coisas privatizadas foram simplesmente cercadas, ou seja, demarcadas contra o uso aleatório da coletividade. Se você parar para pensar sobre o ar que respiramos, você vai notar que ele não é propriedade de ninguém, porque simplesmente não pode ser cercado, embalado e vendido por R$9,90 nas Lojas Americanas. Já a água potável, por ser escassa, sofre esse processo de apropriação. O que a indústria cultural costumava fazer era exatamente isso. Explorar a escassez de obras intelectuais. Controlava completamente a produção e veiculação de obras e então, como única fonte de trabalhos intelectuais prontos para o público, vendia tudo empacotado e quantificado. Se as grandes corporações decidiam que apenas 100 exemplares do cd de determinada banda seriam produzidos, a existência desta obra para o mundo ficava condicionada a esta generosa vontade.

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Mas tudo mudou com o fato de podermos copiar fonogramas, textos, filmes e softwares no conforto de nossos lares. A internet inclusive dispensa a obtenção dos cds, dvds e papéis onde costumavam ficar aprisionados. Não é novidade nenhuma que é possível copiar um exemplar de obra intelectual quantas vezes for mais conveniente para o público. A obra intelectual há um bom tempo não é mais exclusividade das prateleiras comerciais e passou a compor uma atmosfera ilimitada e mais densa que o próprio ar respirável. Digite o título do que você quiser na busca do Pirate Bay, por exemplo, e você provavelmente vai encontrar, até mesmo aquelas paradas bem sinistras que você achava que eram lendas, como o filme erótico da rainha dos baixinhos na época em que ela podia mandar catar um por um nas lojas e locadoras. Fica bem óbvio que quem mais gosta da idéia da obra intelectual como propriedade é quem se beneficia (ou se beneficiava) de monopólios. Era bem fácil para uma gravadora ganhar dinheiro lançando uma coletânea vagabunda de um artista e no meio uma música inédita pra garantir a “novidade” e as consequentes vendas. Hoje você tem a liberdade de baixar apenas aquilo que interessa e, se valer a pena, comprar um exemplar original e ainda passar a cópia para outras pessoas, que podem fazer o mesmo que você. Trata-se de uma liberdade de filtrar conteúdos. Já o ultrapassado conceito de propriedade intelectual é nada mais que um “direito de ludibriar o consumidor”, ainda protegido pela lei. Mas não há espanto. Que a lei gosta de velharias, lobby e ricos todo mundo já sabe.

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Portanto, veja que a obra intelectual é apenas trabalho criativo suscetível de reprodução incontrolável. Temos uma realidade que, acima de qualquer forçação de barra teórica, nos diz que a obra intelectual não se trata de propriedade privada, pois é simplesmente infinita, não escassa e, por mais que isso pareça papo de comunista comedor de criancinha, está aí pra satisfazer a ampla necessidade da coletividade de usufruir da cultura de seu tempo. Afinal de contas, existe algo mais precioso à humanidade do que o acesso irrestrito aos bens culturais que lhe revelam sua própria face? A produção cultural é, acima de tudo, um retrato voluntário e involuntário não daquilo que o homem é, mas de como ele se enxerga, se compreende.

[Edson Andrade de Alencar.]

Crédito das imagens:

1)EL PueblO de GothaM

2)Muda de Vida

3)Applegazette.com

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