A última piada do Monty Phyton

novembro 30th, 2008 § Deixe um comentário

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Ainda lembro com carinho duma quilométrica greve que atravessei no tempo inicial da faculdade de jornalismo, tanto pela generosidade daquele tempo de ócio [que, tudo indica, jamais se repetirá] quanto porque foi no curso daquelas providenciais tardes que um velho amigo apareceu na casa em que eu morava imperativamente, assite isso. Considero O Sentido da Vida [ao lado de Peter Sellers em A Shot in the Dark] um dos muitos responsáveis por uma das muitas guinadas fundamentais de minha vida, que para não adentrar completamente o confessionário da ego-trip digo apenas que a menciono pra prestar a devida homenagem aos heróis que ora critico.

O Monty Phyton justifica assim sua decisão por criar um canal oficial no Youtube:

No more of those crap quality videos you’ve been posting. We’re giving you the real thing – HQ videos delivered straight from our vault. What’s more, we’re taking our most viewed clips and uploading brand new HQ versions. And what’s even more, we’re letting you see absolutely everything for free.
[Algo como "chega daqueles vídeos de merda que vocês têm postado. Estamos jogando a real pra vocês - Vídeos em alta definição tirados da nossa própria coleção. Mais do que isso, estamos disponibilizando em versão nova e de alta qualidade nossos clipes mais acessados. E mais ainda, estamos deixando que vocês assistam todas essas coisas de graça."]

Gosto do grifo porque toca numa questão importante da cultura livre: a qualidade do que se compartilha. Pessoalmente acredito que a tecnologia é seu próprio remédio, e que não se enfrenta a má qualidade dos mp3 com discos de vinil, mas com formatos digitais de melhor qualidade. Mas imagine um futuro em que as mídias físicas tenham efetivamente desaparecido e só restem vídeos e arquivos de áudio com qualidade ruim – Caso desenvolvesse este raciocínio [do qual discordo], eu chegaria à conclusão de que acabaríamos todos nós menos sensíveis, nossos ouvidos embrutecidos pela falta de definição do que escutamos.

E discordo exatamente pelo grifado, pelo interesse que considero natural dos criadores de que o produto de seu trabalho alcance não apenas a maior quantidade possível de pessoas, mas o faça da melhor maneira possível. Só que se por um lado me empolgo ao ver um canal oficial do Monty Phyton no Youtube, por outro não consigo deixar de me incomodar com algumas coisas.

Por exemplo, com a suposta generosidade de me deixar assistir “todas essas coisas de graça“. Se tu clicar no link do canal e ler o texto na íntrega, vai ver que há no fim uma espertíssima contraproposta: ao invés dos meus comentários, o Monty Phyton quer que eu compense todos estes anos em que postei vídeos de má qualidade dos seus programas assistindo ao canal oficial e comprando os filmes e programas de TV.

Vários dos filmes do MP estão logo ali em minha estante, e se na próxima vez em que passar numa daquelas lojas de departamentos que vendem dvds e discos por módicos tostões eu encontrar um que nao tenha não hesitarei em comprá-lo. Mas não lembro de ver em nenhum dos filmes que tanto amo uma piada à altura desta: a de que a possibilidade de ver gratuitamente na internet tudo isso que comprei não vem da mídia em si, mas dos meus bondosos comediantes favoritos.

[Reuben da Cunha Rocha.]

A memória visual do mundo

novembro 28th, 2008 § 4 Comentários

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Uma das coisas mais bacanas que a rede possibilita é o acesso a um eito de coisas já produzidas nesse mundo. O limite da memória é o espaço de armazenamento nos discos rígidos, que, por sua vez, a cada momento diminuem de tamanho e aumentam sua capacidade, o que torna a memória praticamente infinita. E olha que praticamente é um eufemismo: a memória virtual é infinita, pelo menos aos nossos anseios particulares.

Aos poucos, o mundo inteiro vai tendo a noção de que é muito melhor disponibilizar aquilo que se tem – nem que seja de graça – do que armazenar algo para que ninguém veja. É assim que o Google vai aos poucos digitalizando o arquivo de várias bibliotecas de universidades americanas e que os artistas vão colocando tudo que produzem na rede, por exemplo. E é assim que restrições à essas atitudes, como o copyright, estão fadados ao fracasso, pois sua força policialesca é muito menor que a sanha do ser humano em querer compartilhar aquilo que tem.

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Se toda a lógica da nossa produção artística foi dominada pelo copyright nos últimos dois séculos é porque não havia a possibilidade – financeira, moral ou mesmo física – de compartilhar tudo aquilo que produzíamos. Mas hoje isso é possível, o que fatalmente determina o fim dessa lógica. Ainda que tenha gente tentando arduamente lutar contra isso, o desejo intrínseco do ser humano de compartilhar o saber, e não aprisioná-lo solitariamente dentro de cabeças iluminadas, é maior que qualquer tipo de controle externo oriundo, acima de tudo, do desejo de lucro.

Dito isso é que iniciativas como a  da Revista Life, tradicional publicação americana recém-extinta, são bem-vindas. Elas indicam que as cabeças pensantes da indústria cultural realmente estão tendo que pensar, e não agir como guris emburrados que, por não quererem jogar bola com os amigos, pegam a bola para si e levam para casa, se esquecendo que é muito melhor arrumar outra bola e continuar o jogo do que ficar parado chorando.

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Bueno, mas antes que eu me perca, que diabos de coisa a revista Life fez mesmo? Disponibilizou, via Google, todo seu acervo de fotos, 2 milhões de imagens que datam desde 1860. Para quem não sabe, a revista foi uma das principais referências em reportagens foto-jornalísticas e teve publicação contínua de 1936 até 2000, com uma retomada de 2004 a 2007. As fotos estão livre para uso pessoal e particular, menos comercial.

Outras iniciativas parecidas existem aos montes na rede – lembro agora dessa aqui, com fotos também incríveis da II Guerra Munidal. Mas a da Life é simbólica: a revista tem um acervo incrível, e a sua disponibilização gratuita indica um movimento importante, dentro da Indústria Cultural, rumo a uma lógica sem copyright.

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Créditos fotos: Revista Life

[Leonardo Foletto]

Atualização 2/12: A Revista Life não disponibilizou TODO o seu acervo de fotos, como está colocado no post, mas sim 20% de suas fotos, 97% delas inéditas. O banco de imagens total da revista tem cerca de 10 milhões de imagens. As informações corretas foram publicadas aqui, no blog do Tiago Dória.

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Jornalismo gonzo por Warren Ellis

novembro 27th, 2008 § 1 Comentário

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O jornalismo não escapou ao movimento geral da profissionalização do mundo, e seu caso específico é o de um campo que num passado não tão distante abrigou fartamente figuras com porte de artista, verdadeiros escritores que agora mortos cedem suas cadeiras nas redações para funcionários sem vigor nem violência [isso sem contar as exceções]. Porte nesse caso diz respeito à grandeza duma produção textual desovada em jornais e revistas ao invés de livros muitas vezes por puro deboche ou consciência histórica [pra quê falar para 100 se se pode falar para 1000, consigo ouvir Paulo Leminski perguntando, enquanto pensa sobre a grandeza da cultura de massa], como é o exemplo, no Brasil, de um Torquato Neto, corajoso colunista de jornal, poeta morto inédito em livro.

É só questão de tempo até que meu texto esbarre no nome de Hunter S. Thompson, exemplo extremo de coragem textual associada a inacreditáveis níveis de irresponsabilidade e chapação. Thompson está no grupo de autores que me é mais caro, aquele que inspira amizade mais que admiração, e quem sabe não seja isso que Warren Ellis tenha em mente ao homenageá-lo como inegável modelo para seu personagem mais adorável, Spider Jerusalem, o jornalista da série Transmetropolitan.

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A premissa da série é a mesma de qualquer ficção cyberpunk: usar o futuro, onde alta tecnologia e baixíssima qualidade de vida coexistem, pra falar do presente. Nesse caso, um futuro como qualquer outro, cheio de violência urbana, fanatismo religioso, corrupção, pobreza, e o agravante de que o único resquício de dignidade, correção e ética é um paranóico jornalista que pra piorar é viciado em…bem, tudo. Drogas, armas, violência, pornografia e a metrópole: apenas lá ele consegue escrever, escrever segundo o credo anunciado já na primeira edição: “the typewriter’s a gun. Show’em some steel”. É essa máquina de escrever que aponta pro mundo, em busca de um valor que não é preciso chegar no futuro pra considerar deslocado - a verdade dos fatos, e tal. Mas sem heroísmo ou inocência, o personagem de Ellis é tão matador quanto caricatural em sua quixotesca busca e seu destino não é muito melhor que o dos corruptos que tanto aporrinha. 

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É assustador que alguém com tantos acertos como Warren Ellis não hesite em afirmar ser Transmetropolitan seu melhor trabalho, mas é tão assustador quanto faz sentido. Considero mesmo uma aula de jornalismo acompanhar, por exemplo, a cobertura das eleições presidenciais americanas feita por Jerusalem, em que ele põe em prática a máxima do próprio Thompson, segundo a qual a objetividade jornalística serve apenas para mascarar os dilemas e conflitos humanos, a verdadeira matéria de que são feitos os textos, ou pelo menos os que importam.

O Dr. Gonzo original, trabalhando

O Dr. Gonzo original, trabalhando

Não é difícil encontrar as 60 edições da série [que durou cerca de cinco anos] pra download [talvez seja difícil encontrar todas as edições em português]. Aqui é um bom lugar, e há três comunidades Transmetropolitan no orkut, busca lá que tu acha. Também recomendo uma lida nessa entrevista aqui do Warren Ellis, em que o escritor fala sobre meia dúzia de coisas interessantes e atesta sua fé na ficção extrema como um meio de falar sobre seu próprio tempo, no fim das contas ele mesmo um tempo pra lá de extremo.

[Reuben da Cunha Rocha.]

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