Cortando o barato (2)

outubro 31st, 2008 § 1 Comentário


Depois do Som Barato, agora temos novas vítimas entre nossos links à direita: El Blog del Topo e Um Que Tenha. O primeiro já foi apresentado aqui: trata-se de um excelente blog para se conhecer mais a fundo o rock de nossa latino-america; o segundo faz um serviço ainda melhor, mas por nossa música brasileira.

Os dois receberam a tal notificação do Blogger (via Google) de que foram denunciados por alguém que reclamava da infração aos direitos autorais de alguns de seus arquivos.

Veja o recadinho do Blogger na íntegra:

Blogger has been notified, according to the terms of the Digital Millennium Copyright Act (DMCA), that certain content in your blog infringes upon the copyrights of others. The URL(s) of the allegedly infringing post(s) may be found at the end of this message.

The notice that we received, with any personally identifying information removed, will be posted online by a service called Chilling Effects at http://www.chillingeffects.org. We do this in accordance with the Digital Millennium Copyright Act (DMCA). Please note that it may take Chilling Effects up to several weeks to post the notice online at the link provided.

The DMCA is a United States copyright law that provides guidelines for online service provider liability in case of copyright infringement. We are in the process of removing from our servers the links that allegedly infringe upon the copyrights of others. If we did not do so, we would be subject to a claim of copyright infringement, regardless of its merits. See http://www.educause.edu/Browse/645?PARENT_ID=254 for more information about the DMCA, and see http://www.google.com/dmca.html for the process that Blogger requires in order to make a DMCA complaint.

Blogger can reinstate these posts upon receipt of a counter notification pursuant to sections 512(g)(2) and 3) of the DMCA. For more information about the requirements of a counter notification and a link to a sample counter notification, see http://www.google.com/dmca.html#counter.

Please note that repeated violations to our Terms of Service may result in further remedial action taken against your Blogger account. If you have legal questions about this notification, you should retain your own legal counsel. If you have any other questions about this notification, please let us know.

Sincerely,

The Blogger Team

***

É a mesmíssima coisa que aconteceu com o Som Barato, e que pode acontecer com a comunidade da Discografias no Orkut. Chega a ser engraçado: como que um blog de um brasileiro e de um costarriquenho pode ter suas atividades suspensas através de uma lei americana?

Acontece o seguinte: alguns dos artistas que tem seu “direito autoral” infringido – ou suas gravadoras, o que é mais provável – entra em contato com o servidor (que, em ambos os casos, é nos Estados Unidos) e pede alguma providência. Baseiam-se na famigerada DMCA, já citada por aqui. Então, depoios de alguns trâmites, o servidor – Blogger/Google – manda o recadinho para o dono do blog e pronto, está tudo acabado.

Acabado? Não, não, nada disso. Como já foi dito, tira-se da web um endereço, cria-se outro. Simples assim. Foi o que fez o Blog Del Topo: se mandou do Blogger e continuará a postar em outro endereço, esse aqui ó: lacuevadeltopo.com.

Quem perde com isso é, justamente, o artista de onde partiu a denúncia. Vejamos no caso do blog Del Topo: a denúncia partiu da gravadora de Luis Alberto Spinetta, que se sentiu violado com um post do blog que tratava da biografia do músico argentino, onde se encontrava vários discos das diversas bandas de “El Flaco” para download [quem quiser entrar nessa página hoje, clique aqui e veja no que vai dar].

Eu baixei alguns desses discos; gostei tanto que passei adiante para brasileiros que nunca tinham ouvido falar de Spinetta, que também gostaram e provavelmente tenham passado adiante também. Ponha mais 10 pessoas fazendo o mesmo que eu fiz, e, voilá, podemos ser mais de 100 pessoas que gostaram da música e que certamente pagaríamos para ir em um show de Spinetta no Brasil. Agora imagine se eu e mais essas 10 pessoas não estivéssemos baixados os discos de Spinetta no Blog Del Topo. Uma interessante cadeia de, dentre outras coisas, CONSUMIDORES, da música de Spinetta não existiria. E quem perderia com isso é Luis Alberto Spinetta, e somente ele, que deixaria de ter sua vasta obra musical conhecida por mais pessoas.

***

Já o Um que Tenha, mesmo com o recadinho, resiste bravamente. Continua postando, embora já tenho deixado claro, em texto publicado na última sexta-feira, o que pode acontecer em breve:

“Assim como ocorreu com o Som Barato, o Um Que Tenha acaba de receber uma notificação de que publicou material que viola os direitos autorais, material este que foi retirado do ar, em junho passado, a pedido de Guilherme Viotti, da gravadora Biscoito Fino

[Aí está a delatora dos blogs brasileiros. Percebe-se a ânsia por $$ no site da gravadora, onde, dentre nenhuma outra coisa, só há anúncios de VENDAS de cds e dvds].

Tal como ocorreu com o Som Barato, é o prenúncio de que, de uma hora para outra, o blog será retirado do ar. Portanto, antes que isso aconteça, faço questão de agradecer aos colaboradores do blog – foi uma viagem fascinante, tenham certeza – e a todos que nos visitam, criticam, sugerem e, enfim, amam ou odeiam o Um Que Tenha, mas estão sempre presentes. Continuamos enquanto for possível, mas, como nuvens negras se aproximam, adiantamos um caloroso abraço a todos e a gente se vê por aí. (…)”

***

A ânsia por monetizar até a sombra é o que está destruindo as outroras grandes gravadoras. O negócio não funciona mais da mesma maneira: o disco/cd/dvd não é mais o fim, mas o meio. As medidas restritivas via DMCA/Google vão, no máximo, tirar um site/blog do ar, – como fizeram com o Blog Del Topo – mas, em seu lugar, outro será criado. Não há como evitar isso; a internet é por essência descentralizada, e a rapidez com que ela pode se propagar é muito maior que a lentidão ditatorial de leis como a DMCA. Como todo mundo que acompanha estes assuntos sabe, a questão não é impedir, mas aprender a conviver com isso.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos:
1)http://bbluesman.com/2005/11/29/free-culture-chap-5-piracy
2) elblogdeltopo.blogspot.com
3)umquetenha.blogspot.com

Uma voz do presente

outubro 29th, 2008 § 2 Comentários

“Escuta Wado, bicho! Esse cara é completamente contemporâneo! Escuta!”, foi o primeiro elogio que ouvi sobre a obra do cantor e compositor catarinense, mas a conexão ruim é a verdadeira inimiga da cultura livre e depois de ouvir o elogio levou ainda algum tempo até que eu conseguisse baixar seu primeiro disco, O Manifesto da Arte Periférica (2001), encontrado solitário numa comunidade de orkut.

Tempo o bastante pra que eu me tocasse do melhor: não apenas o primeiro disco, toda a obra de Wado até aqui tá disponível pra download, desdo Manifesto, passando por Cinema Auditivo (2002) e A Farsa do Samba Nublado (2004) até Terceiro Mundo Festivo, lançado este ano e em processo de divulgação, com shows até agora realizados do Pará a SP, passando por Pernambuco, Ceará, Distrito Federal, Bahia e Alagoas, onde o cantor reside há quase dois anos.

Na verdade, pra onde voltou há quase dois anos. Nascido em Santa Catarina, com oito anos de idade Wado se mudou pra Maceió, e lá viveu o bastante pra chegar a gravar os dois primeiros discos. Depois disso, dois anos e meio no Rio + um ano em São Paulo.

A volta pro nordeste coincidiu com outra mudança, essa na discografia do cantor: o ingresso no independente. Com um primeiro disco lançado pelo selo Dubas [do compositor Ronaldo Bastos] e os dois seguintes pela Outros Discos, Wado primeiro jogou Terceiro Mundo Festivo na rede pra somente em seguida lançar o produto material, sem selo mesmo.

Perguntado, ele associa tanto o uso da internet quanto a entrada no independente à necessidade de renovação criativa. “Eu tava me reconstruindo, tentando não me repetir. Me pareceu uma boa estratégia”, ele me diz no msn e eu respondo que acredito ter funcionado. Mas voltando um pouco. Como é que os primeiros discos [que têm selo] foram parar na rede? As gravadoras liberaram, e tal? “O que rolou foi que os contratos acabaram. Os contratos estão mais curtos hoje em dia, geralmente com dois anos o disco volta pra mim. Daí chegou uma hora que era tudo meu novamente e eu postei tudo no site”, e se tu [como eu] não fazia idéia dessa mudança nos contratos com gravadora, o compositor explica: “os contratos começam como padrão, mas quando tu não tá mais no primeiro disco dá pra negociar uns detalhes”.

Baixo então disco após disco e sem procurar encontro aquilo de que me haviam alertado, a contemporaneidade da voz, da palavra e do som do artista, profundamente pessoais [pra mim o nome disso é sotaque, nos discos de Wado até os timbres dos instrumentos o têm.] ao mesmo tempo que sempre sensíveis ao outro, ao fora, ao que não é umbigo. É isso para mim a ‘arte periférica’ de Wado: um olhar e um modo de se relacionar com as coisas mais do que um tema. Uma sensibilidade que fala só do que lhe emociona, e que refinada se emociona com coisas que mal vemos. Um carteiro de favela empenhado na ingrata tarefa de vencer as ruas fora de catálogo bebe com coração tranquilo sua cerveja no final do dia. Pé que dá fruta é o que mais leva pedra, e uma raiz é uma flor que despreza a fama. Meu corpo escuta o groove com os poros e pensa, o groove introduz leveza na subversão sonora.

E escuto então isso tudo e penso no dilema do artista contemporâneo, ou melhor, no dilema contemporâneo do artista, construir trajetória, batalhar grana, tocar em Paris e produzir o próprio show, gravar o próprio trabalho e procurar trabalho. É aí que dou uma boa olhada no meu próprio entusiasmo e penso, que beleza, nada é tão simples quanto parece, nada se reduz ao tamanho gigantesco de nossos entusiasmos, e sou obrigado a segurar minha própria onda quando escuto de Wado que voltar pro centro é uma possibilidade, que ”voltar é pra ter mais visibilidade”. Que nem tudo são flores no 3º mundo apesar da festa e que mesmo a decisão de descer pro sudeste novamente não depende só do seu talento ou do que sua voz tem a dizer de nós. Que é preciso ainda se ”preparar pra poder trabalhar com outras coisas por lá, eu não consigo viver só de música”.

Até a permanência no independente e a distribuição livre do seu trabalho na internet, esses dois enormes entusiamos do declarado fã que sou, não têm futuro certo. Da internet os frutos, segundo o compositor, têm sido mais shows vendidos, melhor distribuição e até, imagine você, mais vendas de disco ["depois de ouvirem as pessoas querem a coisa fisicamente também"]. Eu acho massa. Mas ele mesmo não tem certeza se seguirá na trilha recentemente aberta e tá tranquilamente aberto a negociar contrato com gravadora. “Acumula muita função pra mim, ter de ser artista, gravadora, produtor. Essas porras todas”, né?

É assim que nem tudo é festa no 3º mundo festivo e que apesar da festa, dos quatro excelentes discos [baixa logo, maluco!], do enorme talento, da singularidade de sua proposta e da disposição em seguir fazendo o melhor nas condições dadas, sejam elas quais forem, o futuro do artista periférico é que nem morar de aluguel: provisório e em permanente mudança. 

E Wado nem reclama. “A vida tá boa”, ele diz, e eu penso no quanto isso fala sobre sua música, que se fosse pra dizer do que se trata ao invés de escrever este texto eu diria isso, é trilha sonora pra vida boa, pra dançar a lição do samba: dançar a vida boa quando a vida não tá fácil, que a vida mesmo nunca é.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Que bacana o desespero

outubro 28th, 2008 § 2 Comentários

Enquanto o livre tráfego de cultura rende suas belas cifra$, a repressão continua primando pelo tragicômico, e agora até rádio on-line apanha dos homens-da-lei.

[Reuben da Cunha Rocha.]

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