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A armadilha Disney

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Construí meu império com uma ajudinha do domínio público, mas não vou permitir que ninguém mais faça o mesmo

A inocência de todos os produtos criados pelo senhor Walt Disney (1901-1966) esconde muitas mensagens subliminares e ações no mínimo obscuras e contraditórias, e isso tu já deve saber faz algum tempo. Se não sabe, aí vai uma delas (e perdoem a eventual destruição de positivas imagens guardadas na nossa infância permeada pelos desenhos disney): os estúdios Disney vem gastando periodicamente milhões de dólares em advogados e lobistas para garantir que seus personagens não caiam no domínio público. Toda vez que o famoso Mickey Mouse chega perto do seu prazo de validade, as leis dos EUA são alteradas para alongar o controle, impedindo que os personagens possam ser utilizados gratuitamente pelo público.

Foi isso que ocorreu na última mudança, em 2003. As obras registradas depois de 1923 tinham um prazo de 95 anos para caírem em domínio público [ou seja, para que os direitos econômicos não pertençam mais a ninguém, o que permite que todos possam copiar a obra a vontade]. O famoso Mickey Mouse, que apareceu pela primeira vez em 1928, teria seus direitos econômicos liberados em 2003. Mas eis que em janeiro deste mesmo 2003 a suprema corte dos Estados Unidos aprovou uma pequena extensão de 20 anos para estas obras, numa iniciativa logicamente que apoiada e patrocinada pelo grupo Disney – além de Mickey, Pluto (em 2006), Pateta (em 2008) e Pato Donald (2009) estavam com prazos de seu copyright por vencer. [Para quem quer saber mais, este artigo, em inglês, detalha o caso]

O que a Disney não costuma expor é que a ação para “proteger” seus personagens é bastante contraditória, para dizer o mínimo, pois a própria empresa se apropriou – e muito! –  de personagens em domínio público e/ou criados por outros autores para fazer seus maiores sucessos. A começar pelo próprio Mickey, que surge na animação Steamboat Willie (1928), considerada uma das primeiras animações com som da história, que é uma paródia descarada do filme Steamboat Bill, Jr.(1928), dirigido por Charles Reiner e estrelado pelo ótimo Buster Keaton. Assista ambos, a animação e o filme com Buster Keaton, e compare tu mesmo a “semelhança”.

Como conta o blog Burburinho, foi mesmo na década seguinte que começou o mergulho de Walt Disney no domínio público em busca de inspiração, que resultou numa série de filmes animados que até hoje são bastante conhecido de todos. Vejamos a lista:

A Branca de Neve e os sete anões (1937) se inspirou num dos inúmeros contos infantis dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, os famosos Irmãos Grimm;

_ Pinocchio (1940) é baseado em um personagem do escritor italiano Carlo Collodi, que apareceu pela primeira vez em  ”Storia di un burattino“, livro publicado em 1883;

_  ”Fantasia (1940) mistura trechos de temas musicais eruditos (a sinfonia pastoral de Beethoven, a Sagração da Primavera de Stravinsky, dentre outros) com poemas clássicos (de escritores alemães como Goethe, em O Aprendiz de Feiticeiro, ou Hoffman, em O Quebra-Nozes, musicado por Tchaikovsky em um conhecido balé).

_ Cinderela (1950) é um dos contos de fadas mais conhecidos (e antigos) de todos os tempos. A animação da Disney foi baseada na história escrita pelo francês Charles Perrault, publicado em 1697.

_ Alice no País das Maravilhas (1951)  é baseado no livro do escritor inglês Lewis Carrol, publicado pela primeira vez em 1865;

Peter Pan(1953) na peça infantil Peter and Wendy, que originou um livro homônimo publicado em 1911, ambos de autoria do também inglês J. M. Barrie;

_ A Bela Adormecida (1959) é outro conto de fadas conhecido, também publicado por Charles Perrault em 1697 no livro “Contos da Mãe Gansa“;

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Ainda há mais diversos casos, inclusive nos desenhos mais recentes. A Pequena Sereia (1989) é uma adaptação de um conto do século XIX escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen; Alladin (1992) é tirado do ramo sírio da monumental obra As Mil e Uma Noites, enquanto Pocahontas (1995) é baseado numa personagem conhecida da história dos Estados Unidos, assim como O Corcunda de Notre Dame (1996) é um personagem criado pelo francês Victor Hugo em “Notre-Dame de Paris“, publicado em 1831, e Mulan (1998) se alimenta de um poema chinês do século V, chamado “A balada de Mulan“, e por aí vai. O uso de personagens do domínio público por parte da Disney é até um caso exemplar de como se buscar inspiração no passado. Mas aqui lembro as palavras citadas no mesmo post de antes do Burburinho: Walt Disney lançou a carreira do seu personagem mais popular fazendo o que hoje os advogados da sua empresa não permitem que seja feito com suas criações: reciclando material original produzido por outros autores.

Imagine se em todas essas histórias os estúdios Disney tivessem que pagar os copyrights pela reprodução e adaptação. É certo que as animações nem existiriam, e todos nós que crescemos na década de 1990 teríamos uma infância muito mais triste (ou não).

Mulan, personagem de um poema chinês do século V

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É esta “armadilha” realizada pelo senhor Disney que trata o curta “The Disney Trap: How copyright steals our stories“, escrito e produzido por Monica Mazzitelli, integrante da Fundação Wu Ming – que tu já deve ter ouvido uma porção de vezes por aqui – e do coletivo Iquindici, que tem por peculiar missão ler obras ainda não publicadas com o objetivo de dar um retorno aos autores e, também, promover a adoção de licenças abertas (copyleft, creative commons) na indústria editorial italiana.

Em pouco mais de 11 minutos, o video fala um poquito da trucagem dada pela Disney nas leis de direito autoral para que seus personagens continuem em domínio público. Para ilustrar o caso, a diretora Monica “interpreta” Molly Bloom, personagem de Ulysses, de James Joyce [a do clamoroso monólogo final], que já deveria ter sua obra em domínio público se não fosse pela ajudinha da Disney. O video está em inglês com legendas em italiano:

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P.S: O prazo para que uma obra entre em domínio público varia bastante, e já foi muito menor do que é hoje nos Estados Unidos e no Brasil, absurdos 70 anos após a morte do autor, para obras criadas a partir de 1978. É por essas e outras que defendemos aqui desde o início a reformulação das leis de direito autoral, o que vai ser discutido no seminário “O direito à educação e a reforma da lei de direitos autorais“, neste próximo sábado, no Instituto Paulo Freire, em São Paulo. O BaixaCultura estará lá e promete um relato na sequência.

[Leonardo Foletto.]

Créditos imagens: 1, 2, 3.

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Quase um ano atrás, Edson publicou aqui um texto que tratava das confusões de uma certa “Indústria da Pesada”, um eufemismo utilizado por ele para falar das arbitrariedades do lado engravatado da força – MPAA, RIAA,  representantes dos estúdios de Hollywood e grandes gravadores musicais dos Estados Unidos, e a brasileiríssima APCM (Associação Antipirataria de Cinema e Música), uma entidade dirigida por um ex-policial federal que simplesmente tem “saudade de prender”, responsável pelo patrulhamento da comunidade Discografias, do Orkut, e de blogs musicais como Som Barato e Um Que Tenha (que, felizmente, sobreviveram aos ataques policialescos e continuam  vivaços, basta entrar nos links de cada uma para perceber).

Se tu acompanha o noticiário sobre o assunto já deve de ter visto que a “Indústria da Pesada” continua na ativa. Talvez com ainda mais gana de patrulhar o compartilhamento livre do que antes, porque o desespero de quem está perdendo a guerra, nestes casos, faz com que ainda mais arbitrariedades e lobbys econômicos - disfarçados de conselhos – sejam perpetuados mundo afora. A sensação de incredulidade com tais iniciativas ganha níveis altíssimos quando se depara com textos como esse, do blog de tecnologia do diário britânico The Guardian, escrito por Bobbie Johnson. O título já dá uma amostra do que se trata – When using open source makes you an enemy of state, quando usar código aberto torna você inimigo do Estado – mas vamos seguir comentado algumas coisas do texto.

O post trata de comentar uma iniciativa descarada de desacreditar e desaconselhar o uso de software livre no planeta, capitaneada pela International Intellectual Property Alliance , um “guarda-chuva” que engloba organizações como MPAA e RIAA. Eles resolveram aconselhar o US Trade Representative, escritório que administra o comércio no e com os Estados Unidos, para que fiquem de olho em países como Indonésia, Brasil e Índia, por conta do uso do software livre. A ideia é  colocá-los na Special 301 watchlist, uma suposta “lista negra” que contém países que são uma “ameaça” à propriedade intelectual [como é dito no post, é uma lista velada de países que os EUA consideram absurdamente como "inimigos do capitalismo"].

post do The Guardian

Brasil e Índia são referências mundiais em uso do software livre, a começar pelos próprios programas e páginas ligadas ao governo de ambos os países. Já a Indonésia, a outra citada pela IIPA, entrou para o time por conta de uma circular que sugere para final de 2011 – veja bem, 2011, nada foi feito ainda – o uso de software livre em todas as agências governamentais, como uma forma de, principalmente, cortar gastos e melhorar o funcionamento dos sistemas. Por conta dessa sugestão do governo da Indonésia, dada no final do ano passado, a “aliança internacional para a propriedade intelectual” colocou em seu relatório que o país “encoraja o enfraquecimento da indústria do software“, assim como “falha em construir respeito pelas direitos das propriedades intelectuais“. Dêem uma olhada em outros trechos do comunicado, se conseguirem conter o asco:

“The Indonesian government’s policy… simply weakens the software industry and undermines its long-term competitiveness by creating an artificial preference for companies offering open source software and related services, even as it denies many legitimate companies access to the government market.

Rather than fostering a system that will allow users to benefit from the best solution available in the market, irrespective of the development model, it encourages a mindset that does not give due consideration to the value to intellectual creations.

As such, it fails to build respect for intellectual property rights and also limits the ability of government or public-sector customers (e.g., State-owned enterprise) to choose the best solutions.

[A política do governo da Indonésia simplesmente enfraquece a indústria do software e mina sua competividade a longo prazo criando uma preferência artificial por companhias que oferecem software de código aberto e serviços relacionados, assim como nega acesso ao mercado governamental para várias companhias legítimas.

Ao invés de promover um sistema que irá permitir aos usuários beneficiados ter a melhor solução disponível no mercado, independentemente do modelo de desenvolvimento, incentiva uma mentalidade que não dá a devida atenção para o valor das criações intelectuais.

Como tal, falha em construir respeito pelos direitos de propriedade intelectual e também limita a capacidade do governo ou dos clientes do setor público (por exemplo, empresas públicas) de escolher as melhores soluções]

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Surreal, não?

A vêemencia do comunicado até que não chega a surpreender, pois a IIPA nunca gostou de qualquer coisa open source, especialmente aquelas que pudessem tirar fatia de seus lucros. Mas incomoda ver o total desprezo por argumentos coerentes e o esquecimento deliberado de fatos importantes. Johnson cita um destes fatos no post: existem milhares de negócios construídos sob o modelo open sourceRedHat, Canonical e especialmente o WordPress, amplamente utilizado mundo afora). Quer dizer que o uso destes programas é também um desrespeito à propriedade intelectual? Ou só é desrespeito quando se trata de programas a serem utilizados por empresas públicas, um grande mercado que a IIPA não quer perder nem deixar ninguém tomar?

Um outro exemplo, para finalizar: ao condenar o uso do software livre como uma alternativa simples, barata e eficiente – e, portanto, competitiva também no tal mercado em que se movem – eles eliminam outra alternativa que não o monopólio como estratégia de sobrevivência nos negócios. Talvez o liberalismo econômico que tanto defendem seja livre para alguns poucos que podem pagar, e impeditivo para a maioria.

[Leonardo Foletto.]

Créditos imagens: 1 e 2 (Bart).

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Mui provavelmente, depois de ter baixado gigabytes de discos e filmes, já deve ter lhe ocorrido a seguinte pergunta: “mas quem será que colocou esse monte de arquivo pra mim?” Afinal, alguém comprou (ou copiou de alguém) o produto e botou lá, depois de um bom trabalho, pra gente consumir de graça. E é sobre eles, e um pouco sobre como eles põem os arquivos pra todo mundo baixar, que vamos falar um pouco aqui. Uma singela homenagem a esses nobres compartilhadores.

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Há quase um ano, a revista Trip publicou uma matéria buscando conhecer o perfil e entender o porquê dessas pessoas comuns se prestarem a fazer todo o trabalho de graça. Para apurar as informações, a repórter precisou ser sabatinada pelos desconfiados “criminosos” frequentadores do fórum do The Pirate Bay, até que conseguiu conversar com eles. Alguns inclusive aceitaram fazer umas espécies de retratos falados, no site FlashFace, que ilustram a matéria [e que também utilizamos para abri este post]. Então deu pra descobrir  quais os motivos que os movem e quais os custos da filantropia digital. Os esforços para fazer isso são claros. Tempo, dedicação e organização são imprescindíveis pra criar algo de qualidade, tudo na faixa.  E as razões também não poderiam ser mais simples. Eles ganham um pouco de conhecimento e de diversão, e em troca querem reconhecimento e agradecimento, na forma de um comentário ou até amizade, vinda de quem só baixa. Uma situação bem semelhante quando nós do Baixacultura escrevemos ou traduzimos algo, vide principalmente aquiaqui. Dentre seis depoimentos que aparecem na reportagem de Ana Magalhães Silva, um é bem emblemático sobre alguns dos motivos dos uploaders:

“Acho absurdo você ter que pagar R$ 100 num DVD de um filme… se os valores fossem mais acessíveis talvez não houvesse pirataria. Sempre que eles fecham um site de download, aparecem outros dez. Faço upload há dois anos e o que me motiva a lançar mais é o agradecimento dos usuários.”

O trecho é do jovem usuário chamado Júnior, autor de um video que reproduzimos abaixo. Nele, é mostrado como subir um cd de músicas e como é criado o respectivo arquivo .torrent.  Criar uma conta em um servidor de hospedagem de arquivos é fácil, mas criar um torrent não é muito popular. Torrents podem ser mais rápidos de baixar e os arquivos baixados podem  ser muito mais pesados que aqueles comportados por sites.  Entretanto,  o processo é um pouco mais complicado do que simplesmente enviar o conteúdo. O seguinte tutorial foi criado para ajudar os membros do fórum Bj-share, um dos maiores sites de torrent do Brasil, que possui regras muito bem definidas sobre os deveres de quem o utiliza e os tipos de arquivos que devem ser colocados, além de informações para iniciantes.

Antes mesmo desse processo de semeação dos arquivos, existe ainda  um outro processo bem mais demorado: a digitalização. Ripar um cd é um ato simples, mas e um livro ou um filme? São processos muito mais exaustivos e dispendiosos. Livros e revistas podem ter suas páginas diretamente escaneadas e postas num arquivo pdf, ou então ter as palavras reconhecidas e gerar um documento mais flexível. Esta forma é mostrada no site E-books Gospel, de onde vem um belo exemplo. “Ninguém pode ser dono absoluto do conhecimento” é o mandamento da página, que possui 151 livros em português e que inclusive disponibiliza o link pra baixar o programa escaneador dos livros. Juntamente com o livro baixado, vem um “leia-me” em forma de imagem explicando que o conteúdo livre visa “apenas a edificação espiritual e o fornecimento de bons livros aos menos previlegiados e acesso a cultura e conhecimento”. E que assim seja. Abaixo, a video-aula mostra a minuciosa ação de escanear página por página e depois corrigir possíveis erros.

Outro arquivo mais difícil de ser criado é um filme de 700 megabytes, ou mais. Ripar um dvd pode demorar horas. E depois tem o processo de conversão e por fim a criação do torrent. Existem muitas maneiras de se fazer a ripagem, mas uma nos pareceu bem simples. O português Ricardo Santos possui um blog onde desde 2006 publica resenhas e dicas sobre programas gratuitos. Numa dessas ele mostra num vídeo guia como criar um arquivo de um dvd e depois gravá-lo em outro. Todos os programas utilizados estão disponíveis notexto original.

E uma prática tão demorada quanto chupar um filme é a produção de uma legenda para uma série ou longa-metragem. E se se quer fazer algo que preste não é recomendável ser feito à duas mãos. Geralmente uma equipe inteira é necessária para traduzir, sincronizar e revisar corretamente as legendas ansiosamente esperadas por muitos aficionados nas produções norte-americanas. A Equipe Darkside por exemplo possui 20 pessoas para decifrar todas as dificuldades dos episódios de séries que normalmente nem estrearam no Brasil. Mais de 50 séries já passaram pela equipe, que ainda disponibiliza lições bem completas de treinamento para quem quiser se aprofundar. Para ter acesso as informações é preciso fazer um cadastro, mas no canal do grupo no YouTube eles já deixaram duas divertidas vídeo aulas. Uma é sobre a formatação e outra sobre a adequação das legendas. O grupo também aceita novos integrantes e, para quem está começando, especifica os padrões técnicos para a produção de legendas entendíveis.

Claro que há também softwares e games mas queremos destacar aqui que toda essa trabalheira é realizada por quase profissionais. Digo quase pois a diferença é que eles não ganham um tostão por isso. São como voluntários de uma ONG que beneficia milhares de pessoas que só querem ter acesso à cultura e à informação. Então, agora que você já sabe um pouco como funciona, que tal dizer um “muito obrigado” ou começar a fazer a sua parte e devolver o que baixou?

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P.s: Demos uma de uploaders e atualizamos o link do filme “Ai que vida”, que tinha expirado, deste nosso post.

[Marcelo De Franceschi.]

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O projetor passa o filme na parede de uma sala, onde diversas pessoas se acomodam nos puffs, almofadas, cadeiras, chão e o que mais der. Da segunda sala onde se vê as imagens estão mais umas quantas pessoas e um obstáculo bem no meio: resquícios de tijolos que foram quebrados para unir o que eram duas casas grudadas. O espaço não é dos mais amplos: esticadas de cabeça são necessárias para ver o que se passa, e alguns estão em pé porque há pouco espaço para sentar e ao mesmo tempo ver o filme. Tudo bem, ninguém parece reclamar. A pipoca corre solta em pequenos potes, e latas (de cerveja) estão nas mãos de uns quantos [entre eles, o professor Sérgio Amadeu, bem conhecido por aqui, que é o que se vê em primeiro plano, no canto direito inferior da foto abaixo], porque o calor que fazia no local, e em toda a cidade de São Paulo, exigia um certo refresco.
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O documentário “Dez Táticas para Transfomar Informação em Ação” (50 min.), apresentado na Casa de Cultura Digital na última quarta-feira às 20h, mostra como o uso de aplicativos e plataformas de redes sociais como blogs, Google Earth, Twitter, Facebook e Flickr podem ser usados para tranformar informação em ações práticas, que visem modificar uma dada realidade. O filme é fruto de um evento ocorrido na Índia em 2009, o Info-Activism Camp, organizado pelo mesmo grupo que produziu o documentário, Tactical Tech, onde centenas de ativistas internacionais se reuniram para debater, aprender, movimentar, ensinar, atuar e mostrar exemplos de ações sociais positivas. Um dos que estavam no evento era o VJ Pixel - pesquisador multimídia e VJ que também integra o coletivo alocado na Casa de Cultura Digital – que teve a incumbência de ser o apresentador da noite na CCD, onde foi apresentada uma versão legendada para o português que já está online [o filme a legenda em português podem ser baixados aqui].

Os exemplos citados serviam de ilustração para cada uma das dez táticas apresentadas [A saber: 1. Mobilize pessoas; 2. Testemunhe e grave; 3. Visualize sua mensagem; 4. Amplifique histórias pessoais; 5. Adicione humor; 6. Investigue e exponha; 7. Saiba trabalhar dados complexos; 8. Use a inteligência coletiva; 9. Permita que as pessoas façam perguntas; 10. Administre seus contatos].

Um dos casos para apresentar a tática 6, por exemplo, foi o utilizado pela Mercy Corps, organização internacional de ajuda humanitária, durante o Tsunami na Ásia. Para transmitir informação para a enorme quantidade de pessoas que tinham sido afetadas pela catástrofe, ela utilizou o Frontline SMS, um programa de código aberto que transforma o seu notebook ou o seu aparelho celular em uma espécie de hub, que pode enviar mensagens para aparelhos celulares de grandes grupos de pessoas sem necessarimente estar conectado à internet.

Outro exemplo citado no documentário é o citado na tática 5, adicione humor. Na Bielorússia, um grupo criou a página chamada “LuNet”, uma singela homenagem de aniversário ao presidente do país, Alexander Lukashenko, que prometeu aumentar o rigor na censura à internet por “não gostar dessa anarquia toda” que caracteriza a rede. O site compilava brincadeiras irônicas ao presidente em páginas-paródias como LuTube eLuJournal,

Para finalizar, mais um caso, agora para ilustrar a tática 3, visualize sua mensagem. Um grupo de “infoativistas” da Tunísia – em protesto contra o bloqueio ao acesso do Youtube e do Daily Motion por conta da exibição de vídeos denunciando abuso dos direitos humanos por parte do governo tunisiano – fez um mashup colocando vídeos proibidos que poderiam ser acessados no lugar onde ficava o Palácio Presidencial nos mapas do Google Earth, como dá pra ver aqui abaixo:

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Ao fim da exibição, antes da discussão em torno das questões levantadas pelo filme, a maioria dos que estão na duas salas se apresentam para os outros, o que funciona como uma contextualização da presença de cada um ali na CCD e introduz o debate. Não demora muito para que um certo consenso se aproxime: as táticas apresentadas, ainda que deveras interessante, despertam uma certa consciência melancólica, pois poucas delas obtiveram resultados realmente práticos – ou, dito de outro modo, poucas resultaram em transformações sociais relevantes para a realidade em que foram produzidas, já que umas apenas conseguiram com que páginas da web, como o Youtube e o Daily Motion, tivessem seu acesso proibido.

Alguns apontam que falta uma organização política em torno destes diversos movimentos, que, dispersos do jeito que estão, não conseguem ter força o suficiente para que uma realidade maior seja modificada. Nota-se esta ideia de falta de resultado prático com ainda mais veemência no Brasil, onde não há um “inimigo comum” como na maioria dos casos citados no filme, localizados em países onde impera ditaduras (ou quase isso). Percebe-se com clareza a tal consciência melancólica: ferramentas para organização, mobilização e ação não faltam, mas sim real interesse e comprometimento contra a ação de inimigos velados, que não se manifestam de maneira tão direta como em ditaduras e quetais, o que torna a mobilização muito mais penosa. Com as novas potencialidades e ferramentas com que dispunhamos para saber o que se passa, o perigo é ser imobilizado pela própria consciência de que há muita coisa a se fazer. Com receio de tão grande a tarefa a ser feita, corre-se o risco de não se fazer nada.

[Apesar dos pesares, creio, com um certo otimismo, de que as coisas estão sendo feitas. Numa escala muito menor do que deveriam, pode ser verdade. Enxergo um certo ranço – míope, vão dizer alguns – em relativizar aquilo que está sendo construído, como se só mudanças estruturais profundas, daquele tipo que com passeata dos cem mil se conquistou tempos atrás, podem ser consideradas mudanças. O movimento do software livre no Brasil, a política de cultura digital do MinC e a consolidação de redes cooperativas extremamente eficientes e bem-sucedidas, como o Fora do Eixo, são exemplos claros de ações consistentes que estão modificando a vida de muita gente, transformando, sim, informação em ação – ainda que numa escala menor do que se necessite, mas aí a discussão é outra, muito mais complexa e que fica para uma próxima postagem]

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CCD vista de trás, do seu pátio

Não é só o documentário que foi resultado da Info-activism 2009. Foram produzidos materiais informativos sobre os temas tratados, que estavam a venda na CCD pelo preço que tu quisesse pagar, no clássico esquema popularizado pelo Radiohead no lançamento de In Rainbows em 2007.

_ Uma série de fichas sobre as dez táticas apresentadas no filme, que detalha em texto aquilo que foi apresentado no vídeo, citando os exemplos, as ferramentas usadas, os efeitos conseguidos e até mesmo o “grau” de dificuldade de cada ação (infelizmente, esse não tá disponível online);

_ Quatro kits temáticos assim chamados: “Get organized“, sobre ferramentas de organização infoativista para o dia a dia ; “Get creative“, com dicas para veicular suas campanhas através de blogs, podcasts, newsletters, etc; “Stay Mobile“, com estratégias de veículação/ação em aparelhos móveis; e “Protecy Yourself“, um compêndio muito útil de informações e dicas para proteger (e criptografar) os dados passados nas campanhas de infoativismo;

_ Quatro guias para aprofundar alguns assuntos tangenciados no documentário: “Be Inspired“, com histórias bem-sucedidas de infoativismo espalhadas pelo planeta; “Get Online“, uma introdução para diversos serviços e ferramentas usados nestas campanhas; Visualize it“, com informações para comunicar visualmente as suas estratégias; e, por fim, “Map It“, que ensina a explorar o uso de mapas (online) em campanhas de infoativismo;

Todos os arquivos estão disponibilizados gratuitamente na rede; é só clicar nos links de cada um dos guias para ter acesso. Disfrute ;)

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Créditos fotos: Andre Deak (da CCD) e  Mauro Rubens (do evento), que fez também um vídeo do evento.
As legendas em português do filme foram produzidas por VJ pixel, Gabriela Agustini, Rodrigo Cerqueira, Renzo Taddei, Alineh Bittencourt Souto, Mariana Mello, Hannah de Medeiros Raposo Chamon, João Marcelo dos S. M. M. da Silva e Heitor Francisco Carneiro

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[Leonardo Foletto.]

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O loiro com cara (e DNA) da Escandinávia de nome Peter Sunde já é nosso velho conhecido de algumas postagens. Inclusive, publicamos uma entrevista dele para a Folha de S. Paulo, onde Sunde comentava os recentes eventos sobre o site na qual foi um dos fundadores, o Pirate Bay. À época, discutia-se o quão definitiva seria a decisão do tribunal sueco que condenou ele e mais três parceiros a pagar uma quantia de exagerados 3,6 milhões de euros à entidade que representava os grandes poderosos de Hollywood e da Indústria Fonográfica. Dizia-se que seria o fim do Pirate Bay, o que na prática não se comprovou – procure você um arquivo de torrent para download e lá estarão os piratas suecos para te mostrar um link, ainda que não com a mesma eficiência pré-condenação.

Sunde veio ao 10ºFisl (Fórum Internacional do Software Livre), que ocorreu em junho do ano passado na Porto Alegre capital do Rio Grande do Sul, e por esta época já  dava a entender que tomaria rumos diferentes ao do Pirate Bay, o que veio a se confirmar algumas semanas depois. O caminho tomado pelo outrora pirata sueco foi o projeto que, no início do mês, tornou-se realidade: o Flattr, um sistema de micropagamentos por conteúdo, que ainda está funcionando em fase beta, apenas para teste, mas que pode ser melhor visualizado neste pequeno vídeo de apresentação:

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O Flattr baseia-se na ideia de que o público está disposto sim a pagar por conteúdo, desde que ele possa ser facilmente acessado e da maneira que os usuários quiserem. Apesar de eu particularmente duvidar desta sentença, recente pesquisa realizada pela consultoria Nielsen com 27 mil pessoas em 52 países afirma que metade das pessoas está realmente disposta a pagar por conteúdo – desde que, confirmando a ideia que balizou o funcionamento do Flattr, esse conteúdo seja consideravelmente melhor/diferente daquele que se pode conseguir gratuitamente. A grande questão fica, como Tiago Doria comenta, em descobrir qual conteúdo realmente proporciona “valor” para os seus consumidores, tarefa que será fundamental para o sucesso ou não da ferramenta de Sunde.

Gerd Leonhard - auto-denominado mídia futurista e autor de Music 2.0, dentre outros livros - declarou ter gostado do Flattr.

“Uma ideia brilhante (ainda que não seja inteiramente nova, e esteja de alguma forma relacionada ao Paypal e ao Kerchoonz). Ela corresponde a algo que eu vivenciei nos últimos anos: as pessoas pagam se a) são valorizadas e ganham méritos por isso, por isso ficam inclinadas a devolver o favor, b) elas confiam em você e c) o preço é justo. Talvez o Flattr possibilite isso; no meu ponto de vista, a economia do “muito obrigado” via micropagamentos pode ser poderosa.

Como se supõe, a ideia dos micropagamentos não é coisa nova na web. O Flickr funciona mais ou menos assim, sustentado pelos poucos (que, em escala global, são muitos) que pagam para ter o serviço pro da página, assim como diversos outros serviços. Porém, como também salienta Leonhard, micropagamentos não funcionam pra qualquer um, o que dá um tom para a dificuldade da manutenção do serviço do Flattr: ” seu público precisa ser bem grande para que o sistema funcione. Acho que esse será o primeiro desafio [para o Flattr]: conseguir 50 milhões de usuários e se tornar um serviço considerado padrão, como o PayPal, ou então o Flattr se tornará insignificante.

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Sunde disse, em entrevista ao caderno Link da semana passada, que o Flattr é “uma maneira de mostrar que você gostou de algo – e remunerar o criador por isso“. Tu escuta uma música, gosta, e dá um jeito de remunerar o autor de alguma forma por ela – no caso do Flattr,  pagando uma quantia mensal para usar todo o serviço. Ao final, o dinheiro é dividido igualmente entre os criadores do conteúdo (confesso que ando curioso em saber como essa divisão vai se dar de forma igualitária). É um sistema que se encaixa no que o mesmo Gerd Leonhard aponta como os mais interessantes de se “monetizar” o conteúdo digital; para ele, os únicos modelos realmente válidos são

os que funcionam por classificação de mérito do produtor de conteúdo e os que se parecem com o consumo gratuito de música, por exemplo, com pagamentos embutidos em faturas de provedores de acesso ou operadoras móveis, ou mesmo o download patrocinado por anunciantes”.

Acompanho estas discussões faz algum tempo, e posso dizer que a ideia do Flattr não é nada nova. Parece que alguns tem tentado cada vez mais adivinhar o futuro apostando na ideia de que o serviço de download ilimitado (ou streaming ilimitado, quem sabe) seja considerado como um serviço tipo energia elétrica e água encanada, onde se paga uma certa taxa por mês para ter acesso facilitado à tudo. Pagaria-se, por exemplo, para ter o acesso ao download (ou streaming) de todas as músicas possíveis de maneira fácil, de modo que qualquer usuário semi-familiarizado com o computador e a internet conseguiria, por conta própria, baixar aquele disco que tanto quer escutar. Seria talvez uma nova intermediação – que, na bem da verdade, seria uma facilitação, onde o valor seria cobrado mais para facilitar o serviço do que propriamente para o viabilizar. Não sei até que ponto isso é viável, e fico sempre com um pé atrás em iniciativas que visam restringir em vez de amplificar o acesso a cultura, mas seguimos acompanhando a discussão para ver no que (e se) vai dar.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1,2.

Lionshare, ficção P2P

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Na edição impressa da segunda-feira dia 8 de fevereiro do Caderno Link, do Estadão, uma das mais importantes referências brasileiras quando se fala de caderno de CULTURA digital (e não de tecnologia, como a maioria dos cadernos dos jornais brasileiros), traz uma matéria com os diretores e produtores de The Lionshare, uma ficção que trata do contexto de um simpático jovem usuário das redes sociais e assíduo frequentador das redes de compartilhamento. Um cara como nós ou você que assistem, escutam, leem as coisas e que depois conversam sobre isso com os amigos.

O filme, que pode ser baixado por torrent clicando no cartaz lá em cima, é o 3º lançamento do site Vodo, uma espécie de coletivo de 22 distribuidores de torrent ou compartilhadores de redes P2P que ainda estão vivos, como o The Pirate Bay, o Mininova, o Lime Wire, o Vuze (ex-Azureus), só pra citar os mais populares aqui no Brasil. Aliás, sites e/ou programas como esses fazem uma ponta na produção, dirigida pelo estreiante Josh Benhard, que juntou um pouco de dinheiro, mais os amigos dele e resolveu botar umas câmeras na mão e umas ideias pra fora da cabeça.

Evidentemente que a matéria acima linkada já contou uma boa parte do enredo do filme, mas um outro blog também teve uma boa visão da ficção. Segundo o OpenAttitude (Atitude Aberta):

the film is both subtle and effective at showing the stake we all have in the media we consume, whether it’s paid for or not. There’s no finger-wagging here, as the sharing (or piracy, as per your point of view) isn’t put in any kind of judgmental light. It’s just there, in the background, but as pervasive as the media on real P2P networks tends to be.”

[o filme é ao mesmo tempo sutil e eficaz ao mostrar a parte que todos temos no consumo de media, seja paga ou não. Não há dedos apontados aqui, como o compartilhamento (ou pirataria, depende do seu ponto de vista) não é colocado a luz de nenhum julgamento. Isso só está aqui, nos bastidores, mas tão penetrante quanto a media na redes P2P reais tendem a ser."]

Há momentos de exceção, é claro. Em certa parte, Nick, o protagonista, e um amigo amaldiçoam os grandes estúdios por não permitirem a eles assistirem a uma série de televisão, ou quando Nick e a namorada desse mesmo amigo execram a atitude de uma instituição de ensino cobrar a mensalidade além do valor do material didático. Mas no restante do média-metragem, o tema do compartilhamento de arquivos está tão natural quanto o modo de filmar ou a atuação dos atores. A produção encarna totalmente o conceito do “meio é a mensagem”, de Marshall Mcluhan, como dito claramente no site oficial. Feito no faça-você-mesmo, da necessidade de compartilhar ideias, informações, bens culturais, arte, que estão espargidos entre todos os nossos comportamentos, desde um simples flerte ou andando internamente conosco nas ruas até uma pizza com os amigos. Sendo ele mesmo um desses bens culturais, você pode baixá-lo e passar uma hora com seus amigos ou com sua namorada se vendo na tela.

Buscando promover esses momentos e difundir a criativa narrativa, o BaixaCultura se atracou a traduzir a legenda do filme, concedida a nós na maior boa vontade pelo diretor.  É sempre bom ver obras que retratam os hábitos das gerações, e esperamos que grande parte do Brasil possa ter acesso a história contada em The Lionshare. Indicamos também, caso você queira saber mais sobre o submundo dos torrents, o pequeno bônus Are you on The Lionshare?, disponibilizado no canal do filme no Youtube e realizado com os materiais de Steal This Film II, já citado por aqui e que aí sim se aprofunda na livre distribuição de conteúdo. Atentamos ainda para a licença sob a qual está o filme, a Creative Commons 3.0, que teve sua versão brasileira apresentada na Campus Party 2010 e que merece um debruçamento maior de nossa parte num futuro próximo.

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Agora chega de enrolação. O arquivo SRT com a legenda em português está aqui. Baixe, compartilhe, converse. Boa sessão.

[Marcelo De Franceschi.]

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Ronaldo Lemos já é figura carimbada por aqui, o que me faz dispensar apresentações. No Overmundo, site em que ele é um dos criadores e que também tem dois posts do BaixaCultura circulando por lá (“Uma voz do Presente“, sobre Wado, e “O Escritor Coletivo“, sobre o Wu Ming, ambos de Reuben) , Lemos publicou um texto em que faz um interessantíssimo apanhado do que ele chamou de “música eletrônica globoperiférica“. O texto, inicialmente escrito para a exposição I/Legítimo do Museu da Imagem e do Som em São Paulo, na qual Lemos fez a curadoria musical, é uma lista com diferentes, digamos, “tipos” de música que tem pipocado nas periferias mundiais nestes primeiros anos do século XXI, muito (totalmente, vamos dizer) por conta do barateamento da produção e da circulação, o que vem a ser resultado inequívoco da proliferação da internet em todos os confins desse mundão. Nas palavras de Lemos,

Nos últimos anos, por causa da disseminação da tecnologia digital, grande parte das músicas mais pop(ulares) do mundo passou a ser produzida eletronicamente, com equipamentos cada vez mais baratos e acessíveis. Essa música nova anima das festas portuárias de Rotterdam, aos bairros pobres de Belém, das “villas miserias” de Buenos Aires às emissões piratas das rádios de Londres, sem falar nos DJ´s canadenses (alô Paul Devro) ou americanos (alô Diplo) que surfam nessas ondas.

Eis aqui abaixo os estilos, apresentados nas palavras de Lemos, com videos auto-explicativos editados por mim (menos o tecnobrega e o funk carioca, mais que conhecidos por aqui) e mais alguns pequenos acréscimos (em itálico). Cabe, numa próxima postagem aqui mesmo ou em qualquer outro lugar que você queira ver, um aprofundamento sobre o funcionamento de cada uma dessas cenas, inclusive uma entrada em questões como os direitos autorais, a circulação de dinheiro (quem ganha, e como ganha, e porquê ganha) e o esquema de produção. Desconfio que todas cenas – inclusive o tecnobrega, que já tratamos por aqui, e o funk carioca, muito apreciado no exterior e (ainda) detonado no Brasil – tem muito a nos ensinar sobre o que vai ser esse planeta musical num futuro próximo.

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Champeta – fenômeno cultural colombiano (que inclui a música) derivado sobretudo dos descendentes negros na região de Cartagena. Apesar do termo ser usado há mais de 90 anos (quando tinha caráter depreciativo), a champeta consolidou-se como um ritmo musical nos anos 80, e nos últimos anos vem-se tornando cada vez mais eletrônica e dançante. Hoje produz hits de estádio, como a faixa “Mueve la Colita” (a do vídeo logo acima).

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Kuduro – Originado de angola (mas agora bastante presente também em Portugal), o kuduro significa exatamente o que sua sonoridade portuguesa indica (“cu duro” ou “bunda dura” para nós brasileiros). O termo diz respeito à forma como o ritmo é dançado. O kuduro, que remonta aos anos 80, tem influências do zouk e da soca, e mais recentemente, do funk carioca também. Este blog é um bom achado pra quem quiser saber mais sobre a cena kuduro, vindo diretamente de Luanda.

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Tecnobrega – Desdobramento da poderosa e antiga cena do brega paraense, o tecnobrega nasceu da fusão da música eletrônica com o brega tradicional. Antecedido na década de 90 pelo bregacalypso (também resultado de uma fusão), o gênero do tecnobrega se renova sem parar. Atualmente, há diversas vertentes: cybertecnobrega, brega melody e o novo e empolgante eletromelody (de nomes como Maderito & Joe e Banda Eletro Melody).

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Kwaito
– Surgido nas periferias de Johanesburgo na década de 90, o kwaito é o resultado da fusão do hip hop norte-americano, samples de música africana, house music com batidas um pouco mais lentas e linhas de baixo pronunciadas. Muitas vezes cantada em dialeto, o kwaito vem-se transformando de música do gueto a trilha sonora da juventude sul-africana pós apartheid.
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Cumbia Villera
– Originada das “villas miserias” de Buenos Aires (o adjetivo “villera” é depreciativo), é uma variação da cumbia colombiana (que se espalhou por praticamente toda a América Latina). De origem acústica (violão, acordeão, bateria, flautas etc), na sua vertente villera, torna-se cada vez mais eletrônica e se torna notória pelas letras pesadas sobre drogas e sexo. Nos últimos anos, vem-se tornando chic (com noites “fashion” em Buenos Aires) e até mesmo experimental. O blog Dancincg Cheetah dá mais uma explicada no estilo, conhecido popularmente como a cumbia das favelas.

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Funk Carioca – Influenciado pelo Miami Bass, o funk carioca teve origem a partir de versões em português feitas nas favelas cariocas para sucessos do estilo. A partir daí, passou a se desenvolver como um estilo próprio, incorporando elementos afro-brasileiros (como o tamborzão, atribuído ao candomblé), ao mesmo tempo em que absorve rapidamente as últimas novidades em termos de tecnologia (como o uso hoje dos samplers e seqüenciadores MPC´s nos bailes). Apesar de ainda ser referido com o adjetivo “carioca”, está presente hoje em todo o Brasil. [ E me arrisco a dizer que não tem brasileiro que já não o tenha rebolado alguma vez na vida, mesmo  - ou principalmente - em função do alto teor de borracheira].
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Bubblin – Estilo musical eletrônico que conecta o Suriname à Holanda, de batidas eletrônicas secas e arranjos econômicos, é responsável por animar festas de Rotterdam a Paramaribo. O bubblin em geral é acompanhado pelo boeke, fenômeno de dança também cada vez mais popular. Talvez por conta do bubblin ser popular em holandês, é difícil achar alguma coisa mais aprofundada sobre o estilo.

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Dubstep – Originário das periferias de Londres no começo dos anos 2000 e popularizado através de rádios-pirata e mixtapes. O dusbstep é produto da cena Garage na inglaterra. De ritmo lento, sincopado e linhas de baixo profundas e atordoantes, o dubstep é notório também por ser difícil de dançar (e nesse sentido, reinventar as possibilidades da dança). A BBC fez, ainda em 2006, um documentário que dá uma boa apresentada no estilo.

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Coupé Decalé – O coupé decalé é ao mesmo tempo um estilo de música e de dança. Originado dos imigrantes da Costa do Marfim, o ritmo nasceu na França e rapidamente migrou de volta para a Costa do Marfim, onde se tornou sucesso também. O estilo usa fortemente elementos africanos e linhas de baixo bem marcadas, tendo geralmente um tom festivo e otimista. De novo o Dancing Cheetah fez uma postagem mais explicativa sobre o ritmo que vale uma conferida.

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Segundo Lemos, a ideia de periferia tratada aqui não tem muita relação com o tradicional conceito geográfico, embora eu consiga entender que tem sim, pois a própria ideia da compilação desses ditos estilos tem um foco comum, que é o de justamente tratar de novos estilos musicais (eletrônicos) criados em lugares que raramente apareciam no disputado e massivo mercado musical mundial (Hermano Vianna diz que que o “centro” está se tornando cada vez mais “a periferia da periferia”, especialmente do ponto de vista simbólico, o que eu tendo a acreditar com um certo pé atrás cético).

Mas mais importante que a discussão sobre o que é e o que não é periferia está a constatação de que assistimos a um incrível boom mundial de cenas musicais bastante distintas umas das outras. Como diz Lemos, basta um computador, criatividade e gente com vontade de dançar que tá feito um estilo altamente dançante, pegajoso, tosco e engraçado, o que não deixa de ser a mais pura e sincera expressão cultural de quem finalmente tem as condições necessárias para poder se manifestar e ser ouvido.

[Leonardo Foletto.]

Compartilhar é cuidar

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Já anda circulando faz algum tempo o bonitinho comercial acima, com Jack Johnson cantando “The Sharing Song“, faixa da trilha sonora Sing-A-Longs and Lullabies for the Film Curious George, que o músico-surfista e seus amigos fizeram em 2006. É numa deliciosa mudança de contexto que a música, aliada a uma animação bonitinha diferente da original presente no filme do macaquinho George Curioso, ganha um sentido de comerical favorável a “pirataria” digital.

Apesar da aparente inocência e simplicidade da letra da canção, no final das contas ela toca na essência da coisa toda ao dizer uma grande verdade: é sempre mais divertido dividir com todo mundo – ainda mais quando se fala em cultura.

[Leonardo Foletto.]

Controlemos, pois

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É em ritmo ainda lento, de preguiçosa volta de férias, é que o BaixaCultura segue com suas atividades. A indicação para relaxar o corpo, mas não o pensamento, é o webdocumentário Ctrl-V:VideoControl, resultado de uma pesquisa sobre a predominância do audiovisual em nossa sociedade.

Na verdade, é só a primeira das três partes do documentário. Mas essa parte de 23 minutos já é uma rica introdução para o assunto. O vídeo fala um pouco sobre a origem do distrito-capital da cultura norte-americana, Hollywood, e principalmente das consequências do padrão Hollywood de qualidade audiovisual. Grandes estudiosos do tema expõem seus pontos de vista sobre como sempre se deu a disseminação de valores políticos e econômicos através dos filmes veiculados pela maior industria cultural do mundo.

Dentre outras coisas, é esclarecido como essa indústria ganhou força. Por ser uma arte cara, em que era, e ainda é, necessário grandes equipamentos para a capitação e reprodução de imagens em movimento, pouquíssimos possuíam condições de fazer cinema no início do século XX. Os monopólios cinematográficos se formaram e criaram as primeiras salas de cinema, que estruturaram os chamados circuitos de distribuição. Estava criado um sistema exclusivo de entretenimento audiovisual dominante no mundo inteiro desde a Primeira Guerra. O governo americano tinha total consciência da força das imagens e por isso sempre apoiou a maior máquina de fazer filmes do mundo, uma grande exportadora do american way of life. A nossa conhecida Motion  Picture Association of Amercia (MPAA) inclusive tinha o nome de Motion Pictures Export Association entre 1945 e 1994, palavrinha esta que consta no site da MPAA da Ásia mas não no site da MPAA da América.

E o resto é conhecido. A industria cre$ceu e dominou o mundo. Mas chegaram os tempos de Internet, com seus computadores conectados, compartilhando conhecimento, música, livros, e, mais tarde, filmes. Então Hollywood sentiu o perigo de perder seus poderes altamente lucrativos e políticos e começou a caça às bruxas, ou melhor, aos piratas. Pressionando a Justiça americana com sua influência esmagadora, afundou o Pirate Bay e fez a mais recente baixa, o Mininova, além de processar individualmente diversos usuários  de programas P2P. Essa relação simbiótica entre o governo e a industria cultural é tratada ao fim do documentário, pelo jornalista Edward Jay Epstein que faz um alerta: “Teremos (já temos) uma enorme batalha pelo direitos digitais. Um dos principais meios de influência da Casa Branca sobre Hollywood é a necessidade que esta tem de que o governo vá a um país como, por exemplo, a Tailândia e diga: ‘Se quiserem que façamos X, Y e Z por vocês, inclusive socorro militar, queremos que façam algo sobre a pirataria digital”.

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Infelizmente, por enquanto só está acessível a primeira parte do documentário [que dá pra ver no site, nessa tela aí acima]. Isso porque as outras partes serão editadas colaborativamente, com trechos que estão disponíveis no canal do youtube do documentário. O resultado do processo de pesquisa e edição será um longa-metragem de aproximadamente 70 minutos no total das três partes do webdocumentário. Conforme o diretor Leonardo Brant, a produção de Ctrl-V:: VideoControl, contou com o apoio da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID)  e inúmeros pesquisadores e profissionais envolvidos com o tema, além da participação ativa da equipe do Instituto Diversidade Cultural e dos membros da Red Audiovisual Iberoamericana , fundações que Brant ajudou a criar.

O diretor, pesquisador de políticas culturais e autor de quatro livros sobre o assunto, revela que todos as entrevistas foram gravadas com uma câmera fotográfica digital com a função vídeo. Atitude compatível com seu discurso de democratização do acesso ao audiovisual, e que não comprometeu a qualidade das imagens. Outros recursos utilizados foram ainda o uso do preto e branco em todos os depoimentos, não desviando dos discursos a atenção do espectador ; e enfatizando esses depoimentos, a intercalação entre eles com trechos de filmes hollywoodianos, como do filme “This is the Army”, de 1943, e do famoso Matrix, de 1999.

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Amanhã, dia 26 de janeiro, o documentário completo será apresentado no primeiro dia do Fórum Social Mundial, em São Leopoldo, durante a 2ª Reunião Pública Mundial da Cultura. No dia seguinte, quarta-feira, o webdoc vai fazer parte da mostra “Outros Mundos – O Cinema Contra as Injustiças da Globalização”, em Porto Alegre.

[Para saber mais detalhes sobre as exibições, clique aqui. ]

Confira abaixo uma entrevista realizada por e-mail mui gentilmente concedida pelo diretor Leonardo Brant. Ele fala sobre o processo de pesquisa para o projeto, o que o levou a fazer tal inovação, como foram as filmagens, e quais os planos para Ctrl-V.

1)    Há quanto tempo está fazendo a pesquisa? Como ela funciona?

Pesquiso a relação entre diversidade cultural e democracia audiovisual desde 2002. A primeira iniciativa foi a publicação de uma coleção de livros a esse respeito, entre 2003 e 2005. Ctrl-V nasceu da convergência dessa pesquisa com meus experimentos audiovisuais. E sobretudo a partir da decisão de trabalhar com cooperação internacional, em parceria com o Divercult, organização cultural com sede em Barcelona. Ctrl-V é uma pesquisa-ação. Busca resgatar elementos históricos, sociais e mercadológicos relacionados ao audiovisual. O objetivo é ampliar as perspectivas políticas e mercadológicas do processo de convergência digital, alertando para riscos e visualizando as incríveis oportunidades que as tecnologias da informação e comunicação oferecem para a consolidação de uma cidadania cultural.

2) Por que a decisão de produzir o documentário?

Não tínhamos interesse em produzir uma pesquisa teórica. Nosso objetivo foi justamente testar a efetividade dos pensamentos e conceitos com que nos identificávamos. As propostas de comunidade de conhecimento, cultura da convergência, democracia audiovisual são reveladoras e nos fazem acreditar em nossa capacidade de exercer o poder e ocupar as brechas de controle e opressão do capitalismo. Mas até onde podemos esticar essa corda? Além de tratar da propriedade intelectual, por exemplo, buscamos ocupar as brechas da legislação atual. Colocamos o tempo todo o nosso conhecimento, e das redes com que dialogamos, à prova.

3) Quais os motivos para a divisão da produção em três partes? Quando serão distribuídas no site as outras?

O primeiro motivo é que o tempo da Internet é diferente do tempo da sala de cinema ou da televisão. O tempo de maturação de um produto cultural na web também é diferente. Exige a ativação de redes, a discussão de cada um dos pontos abordados em cada uma das partes. O material é denso, complexo. Depois de seu percurso na web, queremos avançar nas possibilidades de difusão em outras plataformas.

4) Há o projeto para extensão da pesquisa em outras plataformas, como um livro, não?

Começamos a pensar no livro apenas agora. É claro que cada entrevista já foi pensada para o suporte livro, mas ainda não tinha ideia de como iria organizar todo o material pesquisado. Agora já temos um experiente e competente editor trabalhando nesse conteúdo, o Ricardo Giassetti. Nossas discussões sobre formato, linguagem, edição apenas começaram. É cedo para falar de como será o livro.

5) Como foi a experiência de filmar com uma câmera fotográfica?

A câmera utilizada em todas as imagens do webdoc é Canon G10, de 14,7 megapixels. A resolução de vídeo é de 640 linhas, suficiente para o ambiente web, mas não para outros suportes, sobretudo numa era de TV em alta definição. Fiz uma pesquisa razoável com máquinas fotográficas, até que cheguei num modelo bem compacto, que guarda as características de um instrumento caseiro, mas oferece algumas possibilidades mais avançadas de fotografia. Não queríamos fazer um vídeo caseiro, mas sim um filme, com textura, linguagem e som de cinema. Tivemos inúmeras dificuldades para buscar uma aproximação maior com esse tipo de linguagem, mas acho que o resultado foi bem positivo. Hoje utilizaria outras câmeras disponíveis no mercado, sobretudo com maior resolução de vídeo e som externo. A captação de som foi, em termos técnicos, o maior complicador de todo o processo.

6) Depois da exibição no Fórum Social Mundial, quais os futuros planos para a produção?

Redes sociais. Precisamos dialogar com sites e redes focados na conversação sobre cinema, televisão, convergência digital. Queremos dialogar também com outros produtores de webdocumentários focados nessa temática. Por fim, vamos lançar uma mostra com debate, testando uma ampla discussão em ambiente transmídia. A mostra será realizada uma vez por mês na Matilha Cultural, um espaço interessantíssimo no centro de São Paulo com quem nos identificamos muito.

[Marcelo De Franceschi]

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Ressaca de janeiro

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O BaixaCultura preguiçosamente volta hoje de um período de férias, que parece agora ter sido bastante necessário para repensar algumas atividades, inclusive a do próprio blog.  Necessário dizer que volta-se em clima de ressaca – moral, intelectual, física, etc; na seara que tratamos, o clima brasileiro ainda comove e dá esperança, com boas iniciativas como a do novo marco civil da internet, embora o ambiente internacional seja um pouco desmotivante, bombardeados por notícias como esta – que, por sua vez, não duvido que tenham exercido influência (mesmo que bastante subjetiva) em decisões como a do nosso parceiro português Remixtures.

A ressaca chega com força principalmente na atividade blogueira, que o BaixaCultura tem (ou tinha?) como principal ferramenta desde sempre. Blogar de forma independente requer um exaustivo investimento de tempo, o que nem sempre se faz possível quando se fala em sobrevivência. Ainda mais parece difícil quando diversos (poderia-se até dizer: os melhores) blogs deixam de ser o que são por conta dessa grande e dispendiosa palavra, sobrevivência, que permite a existência de algumas pouquíssimas exceções na seara independente e enormes quantidades na seara má (ou bem) posicionada – que, não raro, são tratadas como um hobby, algo que se faz porque se gosta e porque existe outra coisa que os permite fazer o que se gosta sem se preocupar com o tempo gasto e a vida ganha.

Apesar dos pesares, não há de ser nada. Ou, melhor ainda, há de ser fase momentânea, em que manter um blog – especialmente sobre estes assuntos pelos quais o BaixaCultura trata faz um pouco mais de um ano – parece ser coisa de alguns poucos que não sabem que o twitter existe e/ou que persistem no blog como quem prefere o som chiado de um vinil ao do plastificado e eficiente Mp3: muito mais pelo perigoso sentimento de nostalgia do que por qualquer outra coisa.

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